O “pinkwashing” de Israel em relação à Palestina começa a se desfazer

Foto: Kurt Bauschardt

Por Nathan Czapnik*, Morning Star.

Ogoverno israelense se orgulha de sua nação ser “um paraíso de segurança” para os direitos LGBT. Diante das forças armadas israelenses matando, torturando e deslocando palestinos por décadas, o governo israelense continua esperando que o mundo premie a nação por sua inclusão e progressismo.

O governo israelense tem enganado boa parte do mundo com seu “pinkwashing”.

Ao criar uma narrativa de que Israel tem mais proximidade com os valores “ocidentais” do que as outras populações muçulmanas do Oriente Médio, Israel se promove como um país muito acolhedor, enquanto representa outros países da região como retrógrados.

Pinkwashing (algo como “lavagem rosa” em tradução livre) é um termo usado para descrever a defesa falsa e agressiva dos direitos LGBT por parte de governos e corporações privadas. Sugando os movimentos LGBT ao redor do mundo, os responsáveis pelo pinkwashing tentam divulgar a agenda dos direitos gays como um meio de parecer progressista e tolerante, para que possam ganhar popularidade pública.

Ao olhar especificamente para o uso de pinkwashing feito pelo Estado de Israel, torna-se óbvio o porquê deles terem escolhido essa ferramenta para propaganda em particular. Não só porque o pinkwashing promove o turismo para áreas como Tel Aviv, mas também porque equilibra o histórico recorde de violação dos direitos humanos em Israel.

Com o imenso crescimento de apoio internacional pró-palestino/contra o apartheid israelense e o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), resultando em boicotes aos bens e turismo Israelenses, o estado se utilizou da indústria do “turismo gay” como um meio de resistir a boicotes futuros.

Em um artigo online do Conselho de Turismo de Israel, a manchete “Por que Tel Aviv é o principal destino de viagem LGBT”, mostra como a dimensão da máquina de propaganda estatal de “pinkwashing” é alarmante.

Junto a outros artigos e anúncios, o artigo declara que Israel é “certamente a [nação] mais progressista e acolhedora no Oriente Médio” e “uma líder dos direitos gays na região”. Ao fazer tais declarações radicais, está claro que o artigo não foi feito puramente para atrair turistas gays, mas sim para ser um outro meio de retratar a narrativa de uma nação “superior” e mais “progressista” do que outras nações do Oriente Médio.

Nos últimos meses Israel tem recebido um grande número de reações negativas por sediar o Festival Eurovision de 2019, realizado em Tel Aviv.

Ativistas como a organização Palestina Al Qaws e o grupo queer árabe Pinkwatching Israel (uma divisão do BDS) convocaram boicotes em massa ao evento. Por isso, o público da Eurovision foi significantemente menor do que nos anos anteriores nas nações Europeias, e até mesmo o Jerusalem Post admitiu que “milhões de ingressos para a Eurovision não [foram] vendidos”.

publicidade negativa que a Eurovision recebeu não teria sido generalizada se não fosse por estas organizações, uma vez que foram as primeiras a convocarem o boicote – uma reação direta da comunidade gay na tentativa de apropriar-se do evento que tem uma grande audiência gay. Uma reação negativa ao pinkwash em ação.

Tel Aviv é uma cidade que tem orgulho de parecer ser uma referência para as políticas LGBT. Com um quarto de sua população de 400 mil pessoas identificando-se como gay, a cidade é um grande destino para os turistas gays que viajam dos países ocidentais, que recebe incontáveis avaliações positivas das agências internacionais de turismo gay.

Com uma das maiores paradas gay do mundo, e o festival internacional de filmes LGBT de Tel Aviv sediado na cidade, qualquer um poderia assumir falsamente que se trata de uma cidade inclusiva.

No entanto, apesar desse véu progressista, a cidade impressionantemente contempla homens gays brancos e brancos asquenazes (Ashkenazi), enquanto outras identidades, incluindo a população de judeus orientais (Mizrahi Jewish) são predominantemente excluídas de representação.

Embora a política de apartheid israelense sobre os palestinos seja extremamente mais intensa, as disparidades de renda e oportunidade entre os diferentes grupos judeus mostra que o país está distante de ser igualitário.

No topo das preocupações em torno de mais anexações na Cisjordânia e em Gaza, os palestinos LGBT estão sujeitos a chantagens extremas das Forças de  Defesa de Israel para tornarem-se informantes, ameaçados de que serão forçosamente expostos para sua família e amigos, se não cumprirem a tarefa.

Relatórios apresentaram que a inteligência de Israel monitora chamadas de telefone de palestinos para identificar palestinos LGBT, para que sejam informantes em potencial.

Ao mesmo tempo, imagens de mortes e agressões a palestinos LGBT por radicais islâmicos são compartilhadas em larga escala através da mídia israelense, especialmente por organizações LGBT de Israel, para impulsionar a narrativa de que somente Israel é um paraíso seguro para as minorias na região.

Uma das organizações populares entre muitas outras, que se opõe à narrativa da homofobia palestina é a Al Qaws.

Fundada em 2007, Al Qaws providencia apoio, conselho e iniciativas de construção comunitária para palestinos LGBT e suas famílias.

A Al Qaws declara que “organiza centros comunitários e eventos em cidades e áreas rurais pela Palestina, opera um suporte nacional de linha direta acessível via telefone e internet, constrói parcerias e alianças fundando instituições culturais e organizações da sociedade civil, cria campanhas de mídia inovadoras e trabalha para transformar o discurso público.”

Al Qaws tem feito piquetes pelo território palestino falando contra o pinkwashing israelense e desafiando o mito de que a Palestina é em sua raiz uma nação homofóbica e atrasada.

Em 1 de agosto desse ano, a Al Qaws, com o apoio de mais de 200 pessoas, protestou em Haifa, na Palestina, “desafiando a narrativa falsa de ‘proteção’ usada sobre o ‘paraíso gay’ em Tel Aviv, declarando que os homossexuais palestinos não querem ser forçados a procurar refúgio com seus ocupantes.”

No Reino Unido, o grupo “No To Pinkwashing, No To Israeli Apartheid” (Não ao Pinkwashing, Não ao Apartheid Israelense) tem panfletado e se manifestado nas paradas gay, se aliando à BDS e outros grupos na luta por justiça na Palestina. Conforme maior parte do território Palestino é anexado e mais palestinos inocentes são mortos, mais vozes LGBT tem se levantado internacionalmente por aqueles que se recusam a ver sua luta por aceitação sendo cooptada por um estado de apartheid.

Tradução: Julia Menezes para a Revista Opera.

*Nathan Czapnik é um escritor gay e socialista, de ascendência judaica.

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