O pecado de Eva

Por Clóvis Campêlo.

Dizem que vida imita a arte e isso é verdade. Principalmente a arte trash. Digo isso porque a descoberta dos canibais de Garanhuns, lembrou-me um filme assistido anos atrás e que se chamava “O pasteleiro”.  Nele, um chinês vendedor de pastéis seduz uma mulher na zona de prostituição de São Paulo e a leva à sua casa, onde, após o sexo, aplica-lhe uma injeção mortal. Depois, no porão da casa, a esquarteja, retalha, mói e tempera o corpo da moça, preparando assim o conteúdo com o qual recheava os pastéis vendidos na rua. O filme de 40 minutos, na verdade uma produção brasileira de 1980, dirigida por David Cardoso. Em Garanhuns, a carne de uma sas mulheres assasinadas foi vendida em empadas recheadas. Os autores da façanha: Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, 50 anos, faixa preta de karatê e que se apresentava como professor de educação física; Isabel Cristina Pires, 50 anos, dona de casa, casada com Jorge, e Bruna Cristina Oliveira da Silva, 25 anos, desempregada e amante de Jorge há sete anos. A primeira vítima do trio sinistro chamava-se Jéssica Camila da Silva Pereira, 22 anos, morta em 2008, no bairro de Rio Doce, em Olinda. Segundo Isabel, Jéssica era moradora de rua e tinha uma filha. Foi atraída para a casa do trio, onde foi morta. Seu corpo foi cortado em pedaços, a carne cozinhada em água e sal, para ser purificada, e depois, guardada na geladeira para ir sendo consumida aos poucos. Além disso, Isabel assumiu a identidade de Jéssica e adotou a filha da mulher assassinada. Todo esse processo repetiu-se com as outras vítimas. Nos últimos dez anos, o trio sinistro perambulou pelas cidades do Conde, na Paraíba, Jaboatão dos Guararapes e Gravatá, em Pernambuco, até se fixarem em Garanhuns, onde, no dia 25 de fevereiro próximo passado, mataram Giselly Helena da Silva, de 31 anos, por eles atraída com uma promessa de emprego doméstico. Cometeram o êrro, porém, de utilizarem o cartão de crédito da vítima, cuja fatura foi recebida pela família. Verificando que o uso do cartão ocorrera após o desaparecimento da jovem, a família acionou a polícia que, como nos velhos e bons filmes policiais americanos, através das câmeras do sistema de segurança do estabelecimento comercial, conseguiu identificar e prender os contraventores assassinos. O trio era comandado por Jorge, esquizofrênico e com um histórico de várias internações por conta dos seus surtos. Segundo matéria publicada no Jornal do Commercio do Recife, de ontem, ele escreveu, registrou em cartório e distribuiu em Garanhuns um livro intitulado “Diário de um esquizofrênico”, onde relata como era perseguido por visões, fantasmas, explosões de violência e uma obsessão em assassinar mulheres. Em um dos textos encontrados pela polícia na sua casa, afirmava que “o pecado de Eva contaminou a tudo até hoje”. Segundo o psicólogo pernambucano Antônio Carlos do Nascimento, uma das características do discurso esquizofrênico é a possibilidade sedutora da força do seu delírio, que possui a aura da verdade absoluta, quer seja com conteúdo religioso, científico, moral ou político. Vale ressaltar que o caráter patológico do discurso esquizofrênico, ou seja, seu rompimento com a realidade consiste no seu não compartilhamento pelo grupo social onde ele se coloca. No entanto, as convicções com que se estabelecem seus argumentos pode ser objeto de sedução daqueles que buscam uma verdade absoluta na qual possam sustentar suas angústias. Ainda segundo Nascimento, o esquizofrênico não possui consistência egóica para sustentar a sua ação. No entanto, o discurso delirante pode seduzir massas ou pessoas sedentas da “verdade inabalável” que comporta o delírio. Garanhuns, com o seu clima de Suíça brasileira, quem diria, terminou por ser o palco final de uma história de terror capaz de fazer inveja ao mais perfeito dos roteiros cinematográficos.

Foto: Cena de “O pasteleiro”.

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