O ódio aos pobres pode tudo

Por Jair de Souza, para Desacato.info.* 

As enquetes de opinião mais recentes, após o início da chamada Vaza-Jato, indicam que Jair Bolsonaro perdeu boa parte do amplo apoio com que contava no momento de sua posse na Presidência. No entanto, os dados também indicam que seu prestígio se manteve, e até subiu, entre as camadas sociais de maior poder econômico. 

Se tudo se limitasse aos grupos de maior poder econômico (as elites do dinheiro, como diz Jessé Souza), não seria tão difícil explicar o fenômeno. Bolsonaro defende e pratica um governo que favorece os interesses dos mais ricos e, consequentemente, é defendido e apoiado por aqueles que são diretamente beneficiados por sua atuação. No entanto, os dados revelam também que Bolsonaro continua recebendo grande apoio entre a parcela da população com maior escolaridade, ou seja, seu prestígio é maior entre aqueles que possuem escolarização universitária. 

Como entender que alguém tão tosco, tão bruto, tão ignorante, tão troglodita e tão preconceituoso venha a ser bem aceito entre aqueles cidadãos que gozam dos mais elevados níveis de escolarização, ou seja, entre aqueles que formalmente compõem a nossa elite cultural? Seria isso em razão da forte imagem anticorrupção que a figura de Bolsonaro projeta? 

Bem, se fosse para tomar em conta a projeção da imagem anticorrupção, Bolsonaro jamais poderia ser aceito pelos grupos de pessoas que vêm externando com muita fúria sua indignação contra os casos de corrupção que têm aparecido em nossa mídia corporativa nos últimos anos. 

Ainda antes de sua eleição, já era de conhecimento público que Bolsonaro era proprietário de um grande número de imóveis que não poderia ser justificado através de seus rendimentos legais, ou seja, dos rendimentos que pudessem ser legal e legitimamente comprovados. Além disso, depois de sua posse, começaram a aparecer muitíssimos outros casos que eliminariam de vez qualquer visão idílica de Bolsonaro como um combatente contra a corrupção. 

O envolvimento do presidente e de seus filhos com o miliciano Queiroz e o vasto laranjal detectado a partir dessas relações não deveriam deixar nenhuma margem para uma identificação de Bolsonaro como uma figura límpida e impoluta. O lógico seria que se desse justamente o oposto. Apesar disto, o conjunto da classe média com altos níveis de escolaridade não desfechou sobre Bolsonaro nada parecido à fúria e à indignação que foram lançadas contra o ex-presidente Lula. 

Para efeitos de ilustração, vamos aceitar que, mesmo sem que haja nenhuma prova neste sentido, o tão citado triplex e o sítio de Atibaia sejam de fato propriedades de Lula. Lembremo-nos de que Lula está preso em razão de lhe ter sido atribuída a propriedade desses imóveis. Se compararmos seus valores de mercado com aqueles das propriedades comprovadamente detidas por Jair Bolsonaro ainda antes de assumir a presidência, vamos constatar que em seus 28 anos de atuação como mero deputado, Bolsonaro foi capaz de acumular um patrimônio muitas vezes superior a tudo o que Lula teria acumulado ao final de seus dois mandatos presidenciais, mesmo se o triplex e o sítio de Atibaia fossem realmente seus. Mas, nada disso causa indignação na classe média letrada. 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é reconhecidamente dono de luxuosos apartamentos no Brasil e na França, além de várias fazendas. Porém, não é, e nunca foi, alvo do repúdio dessa gente que precisa se segurar para não explodir de raiva ao falar de Lula. Há dados das autoridades suíças que criminalizariam José Serra como possuidor de contas com mais de 23 milhões de dólares de dinheiro mal havido. Mas, nada que consiga despertar o rancor em nossa classe média escolarizada. 

Também não há nenhuma indignação contra Aécio Neves em razão dos vídeos em que ele aparece negociando o recebimento de malas de dinheiro da JBS e nem com as revelações de seu enorme patrimônio não justificado (tudo centenas, ou milhares, de vezes superior ao que se atribui a Lula). O máximo que podemos notar é certa vergonha de pessoas de nossa classe média ilustrada ao serem confrontadas com o fato de que foram apoiadores entusiastas de Aécio em sua disputa presidencial e, logo após, no processo de golpe contra Dilma. Vergonha, nada além de vergonha! 

No entanto, contra Lula vale tudo, contra Lula tudo se justifica. Aliás, o prestígio de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e da Lava Jato em geral se deve exatamente ao fato de que não se sentiram intimidados com as barreiras legais que se antepunham a seus planos. Se o que buscavam era eliminar Lula e o PT do panorama político brasileiro, não seriam as leis e a Constituição que iriam impedir que isso fosse feito. Não é à toa que Sérgio Moro, Dallagnol e a Lava Jato são vistos como herois por seus admiradores. Eles agiram da maneira que tão somente os corajosos e intrépidos agem. Se havia barreiras legais no caminho, passaram por cima dessas barreiras legais. Mostraram que os fins justificam sim os meios. E é por isso que são venerados por todos aqueles que compartilham de seus objetivos. 

Quais são esses objetivos? Já mostramos que, à primeira vista, a meta seria a de erradicar da vida política brasileira a figura de Lula e de seu partido, o PT. Entretanto, o objetivo real se estende muito além disso. O que eles almejavam era eliminar de vez qualquer possibilidade de que gente identificada com os interesses dos setores humildes de nosso povo chegasse novamente ao comando do aparelho político do Estado. Como Lula e o PT eram vistos e sentidos como símbolos dessa possibilidade, deveriam ser destruídos sem piedade.

Ou seja, o que está na base de tudo é o enorme ódio de classe que os setores privilegiados da sociedade nutrem contra os mais pobres. E este ódio contra os pobres é tão forte que é capaz de justificar tudo. É um ódio capaz de levar uma pessoa culta e letrada a dar mais valor a um Raul Gil que a um Chico Buarque de Holanda. É um ódio capaz de levar a pessoas que se auto-intitulam democratas a não dar a mínima importância ao respeito de garantias legais e constitucionais, desde que o desrespeito esteja servindo para manter os pobres em seu “devido lugar”. 

No aflorar da luta de classes, na hora do combate contra os pobres, as elites econômicas e seus escudeiros na classe média escolarizada deixam de lado todo e qualquer prurido e partem para a jugular, como gosta de ilustrar o lavajatista palestreiro Deltan Dallagnol. 

Por outro lado, se o atual estado de confusão que tomou conta das elites antipopulares a partir das revelações da Vaza-Jato não for aproveitado pelos setores populares para gerar consciência, organização e unidade de luta contra os planos elitistas, os dominadores logo encontrarão maneiras de se recompor. As elites, quando detêm força suficiente para tal, sabem como fazer a banalização generalizada do mal e induzir o conjunto da sociedade a esquecer o acontecido ou a desistir da luta por não vislumbrar perspectivas de vitória.

 

*Economista formado pela UFRJ e mestre em linguística também pela UFRJ.

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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