O mito e a realidade do Carnaval

Por Marcelo Barros*.

Grande parte do Brasil já está tomado pelo clima de Carnaval. Para muitos, o Carnaval não é somente um período do ano e um tempo de brincadeiras. É um espírito que se vive como uma energia que dá força e alegria para a luta do ano inteiro.

Como tudo nesse sistema em que vivemos, atualmente, o Carnaval também se tornou objeto do mercado. A festa que antigamente era gratuita se converteu em espetáculo pago. O corpo humano é comercializado, as drogas e bebidas se tornaram banais. Em alguns lugares, a competição transforma a alegria em violência. Entretanto, seja como for, sempre sobrevive um resquício de festa popular. Por trás de todas as ambigüidades, há um fato inegável: o povo tem direito à alegria, à liberdade de brincar e conviver de forma diversa do cotidiano. Em muitos casos, o Carnaval é a versão popular e antiga do que o filósofo Domenico de Masi chamava de “ócio criativo”.

O Cristianismo medieval que a América Latina recebeu dos espanhóis e portugueses insistia muito na tristeza, na dor e nos sacrifícios. No romance e filme “O nome da rosa”, monges medievais chegam a matar para impedir que seja lido um tratado sobre o riso do velho Aristóteles. Entretanto, essa não foi sempre a única tradição cristã. Muitos místicos e místicas cristãos valorizaram a alegria e o gosto de viver. Santa Mectildes, uma abadessa medieval, ensinava a suas monjas: “Deus é como uma criança que brinca de se esconder em teu coração. Quer ser tua companhia na arte de brincar e ser feliz”. Nos evangelhos, várias vezes, Jesus diz aos discípulos que tem como objetivo comunicar a eles a alegria e uma alegria tão grande que ninguém possa roubá-la. Já no primeiro testamento, o povo que se libertou do cativeiro da Babilônia dizia: “A alegria de Deus é a nossa força” (Ne 5). Religião é expressão de amor e por isso deveria sempre ser fonte de alegria e liberdade e não de obrigações e sacrifícios.

No começo dos anos 70, Carlos Diegues fez o filme “Quando o carnaval chegar”, com músicas de Chico Buarque e participações de Maria Bethânia, Nara Leão e do próprio Chico. Ali, o Carnaval aparecia como parábola e anúncio do dia da libertação social, política, econômica e cultural que todos precisam. Hoje, vivemos a democracia política, mas ainda ansiamos pela plena libertação social, econômica e cultural do nosso povo. Em vários países da América Latina, o novo processo bolivariano tem trazido elementos dessa libertação e promete outros passos que virão. É importante que todos nós, brasileiros, nos unamos nesse grande ensaio do Carnaval verdadeiramente profundo e nos tornemos arautos da liberdade e da justiça.

*Marcelo Barros é monge beneditino e escritor.

Fonte: Adital

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