O Livro dos Sonhos – segunda parte. Por Guigo Ribeiro

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

 “Vou Revelar Seu Sonho”. “Vou Revelar Seu Sonho”. O titulo do livro girava a cabeça do homem. Queira ou não, havia algum consolo. Já que não resolvia a loucura das formas apresentadas por sua cabeça, pelo menos possuía páginas para consulta que o abraçavam para qualquer coisa. Consolo, certo? Não resolução. O dia acalmava e a noite enlouquecia. Um corpo se equilibrando entre dois extremos. Cogitou terapia, contudo parou antes de avançar. Diziam que terapia era para quem estava ficando louco. Ele não estava ficando. Dado o conjunto de normas sociais que dignificam um estado, ele já era pirado.

 

Abriu as páginas do livro e começou, curiosamente, ler significados. Não necessariamente de sonhos que teve, mas para perceber que as pessoas sonham coisas muito estranhas. Um cigarro, um trago e a alegria:

– Tem mais gente cagada no mundo! – aliviado com a tragédia em comum.

E a alegria foi tanta que se fez presente no sonho daquela noite. Pessoas se contaminavam com os problemas alheios. Algum perdia o emprego e contaminava os demais com o vírus. Alguém acordava mijado e lá ia a loja de colchões ampliar as unidades. Acordou. Por sorte, era manhã. Pulou da cama e pensou na cacetada de sonhos que teve na semana. Todos devidamente consultados.

Segunda-feira

Era segunda-feira e o homem andava rumo ao trabalho. Todo santo sujeito que cruzava seu caminho dava bom dia e um largo sorriso. Outros sujeitos arrumavam suas roupas enquanto esperavam o coletivo e cantarolavam a beleza de uma manhã. As pessoas conversavam, riam e faziam planos ambiciosos para o dia. Muitos bradavam que seriam mais felizes que nunca. Nas naturais falhas de memória, teve a impressão de ter ocorrido um doutor de jaleco e tudo rindo da própria demissão. Os doces, outrora vendidos na esquina, agora eram grátis e todos pegavam aos montes. Diabéticos não temiam. Só riam. Então o homem, naturalmente surpreso pela postura coletiva, seguia e observava a alegria. Então começava uma terrível chuva e todos abdicavam de seus guarda-chuvas e pulavam nas poças como criança desobediente. O homem seguia estranhando e abria seu guarda-chuva. Uma moça se aproximava e dizia:

– Homem… que cara amarrada. Tá tudo bem? Posso te abraçar?

Recusava.

– Então vou te dizer. É segunda-feira e só vale ser feliz!

Acordou. Consultou o livro e achou a resposta: nunca se esqueça de lavar as roupas brancas separadas das coloridas.

Terça-feira

Sonhou que estava numa clínica psiquiátrica e havia um absurdo silêncio. Cruzou os corredores sem saber se era paciente ou empregado. Depois teve a impressão que ambos eram a mesma coisa. Entrou numa sala, pegou uma ficha e foi rumo ao lugar indicado. Rodava, rodava e nada do lugar. Desceu algumas escadas e passou por um imenso corredor de celas. Enquanto ia, um sujeito no alto de seus 50 e poucos olhava fixamente para ele com o rosto grudado nas grades. O homem se aproximava do sujeito com a cara na grade e olhava em seus olhos. Em instantes, o homem dizia convicto e com um leve sorriso no rosto:

– Foi golpe!

O homem se retirava da presença do sujeito e, em alguns passos, uma mulher na mesma posição. E se repetia o enredo. Se aproximava, olhava fixamente nos olhos e ouviu:

– Não se esqueça do grande acordo nacional.

Na outra, um careca:

– Ele não!

Andava e, enfim, encontrava o lugar. Ao entrar, acordou. Livro em mãos, resposta: dias, jogo, camisa de futebol e etc. Sempre evite o número 17.

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Quarta-feira

Um cachorro o ensinava sobre o amor e signos lingüísticos. Acordou numa molhada lambida de tchau na cara. Ao consultar o livro, teve a seguinte resposta: faça compras do mês ao invés de ficar comprando picado.

Quinta-feira

Havia uma goteira. A goteira batia precisa no bigode do homem enquanto ele dormia. Após 7 pingos, ele acordava e, tomado num cansaço absurdo, se mexia significativamente para o lado da cama. A goteira o seguia. Irritado, mudou, colocando a cabeça no lugar que estavam os pés. E tome goteira. Ele se levantava e subia ao telhado para o conserto. Concluía utilizando barbantes. Voltava e quando próximo ao sono, voltava a goteira. Decidiu sair e, furioso, notou um gigante urinando. Voltou para dentro indignado, mas não pela urina. Sim por ter presenciado o membro do gigante. Acordou e foi ao livro. Resposta: coma mais verduras.

Sexta-feira

Um motorista de aplicativo o pegava em um ponto e rodada interminavelmente até chegar a um lugar que não era o desejado. Contudo, algo o impedia de falar e ele saia do carro seguindo por um imenso campo. Em dado momento da caminhada, encontrava uma casa que faziam orgias. Entrava e via gente nua e no exercício da atividade proposta. Pensou em tirar a roupa, no entanto alguém avisou que ele não foi convidado. Ao ir embora, desolado, o chão abria e o homem caia, caia e caia. Sentia sua leveza na queda. Avistou um tanque de groselha como destino. Bateu. Acordou. Com certa raiva, pegou o livro. Resposta: ao misturar azul e vermelho, entenda de uma vez por todas, não resultará em verde.

No desespero por pensar no nunca mais ao se tratar de sonhos tranquilos, cogitou medicação, maconha ou suicídio. Ficou com uma quarta opção. Anotar atentamente o que sonhava. Foi um desastre. Perdeu a folha. Tentou também adquirir consciência no sonho e dialogar com os presentes. Desistiu ao acordar e constatar que sonhou que riam sem piedade de sua cara pela decisão. Para resolução, saiu em um fim de tarde, cruzou a cidade e entrou numa casa sem bater. Tomou um banho e ouviu alguém chegar:

– Filho, por que não avisou que vinha?

– Ah, mãe. Queria fazer surpresa. Posso dormir com você?

 

Imagem de capa: RomoloTavani

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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