O lamentável voto brasileiro contra a Síria

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Por Wevergton Brito Lima.

No entanto, a Síria tem este grave defeito: não é uma marionete dos EUA e seus parceiros da Otan.

Síria, Líbano e Irã são os únicos países que impedem que os EUA controlem totalmente a produção e distribuição de petróleo no Oriente Médio, as rotas marítimas, o comércio exterior e os pontos estratégicos na região.

Sendo assim, “em nome da liberdade”, Estados Unidos, Catar, Arábia Saudita e outras “democracias”, treinam e financiam mercenários e fanáticos religiosos para atacar o governo de Bashar Assad, o que é público e notório.

O grupo terrorista Estado Islâmico, que tantos e tão bárbaros crimes comete, surgiu graças ao apoio imperialista, que sonhava em utilizá-lo como instrumento para derrubar a soberania da Síria e este também é um fato incontroverso.

Recentemente, o jornalista Seumas Milne (The Guardian) divulgou um relatório secreto dos serviços de informações dos EUA, escrito em agosto de 2012, onde está registrado com todas as letras que a Al-Qaida no Iraque (que depois se tornou o Estado Islâmico) e os seus correligionários Salafitas seriam “as principais forças que dinamizam a insurreição na Síria”, declarando ainda que “os países ocidentais, os Estados do Golfo e a Turquia apoiam os esforços da oposição para controlar o Leste da Síria”. Diz ainda o relatório: “a possibilidade de estabelecimento de um principado Salafita declarado ou não é precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição desejam, de forma a isolar o regime sírio”.

Pois foi justamente este país – cujo povo resiste heroicamente a uma horda de criminosos, fanáticos e mercenários pagos pelo imperialismo – o alvo de uma resolução aprovada nesta quinta-feira (2) no Conselho de Direitos Humanos da ONU, “condenando energicamente as violações generalizadas e sistemáticas de direitos humanos cometidas pelas autoridades sírias e milícias pró-governamentais”.

Tristemente, esta peça vergonhosa de ignomínia e injúria, contou com o voto do Brasil.

Tentando justificar o injustificável, o Itamaraty alega que a resolução “foi mais equilibrada”, pois também faz menção à oposição síria.

Desculpa esfarrapada que não engana ninguém. O significado da resolução é claro e a mídia hegemônica brasileira, tradicional capacho, servil aos interesses de Washington, registra com satisfação a mudança da posição do Brasil, que neste caso abandonou sua postura de não se perfilar aos abutres da Otan.

O embaixador da Síria na ONU, Hussam Eddin Ala, protestou indignado: “Os países que estão propondo essa resolução ignoram nossa soberania. Eles apoiam o terrorismo”, e colocou o dedo na ferida: “De onde vem o dinheiro para as armas dos grupos terroristas?”, questionou. “Que ironia ter uma resolução proposta por esses países. Trata-se de uma hipocrisia política”, atacou.

A China votou contra a resolução. Assim como Cuba, que denunciou a “agenda intervencionista”. Venezuela e Rússia denunciaram a resolução como uma “manobra política”. Disse o representante do Kremlin: “Hoje, a maior ameaça é o Estado Islâmico, e isso não está no documento. Os autores da proposta estão com posições políticas”, declarou.

A lamentável mudança na posição brasileira ocorre pouco depois de uma visita da presidenta Dilma aos Estados Unidos onde, para surpresa de todos, reuniu-se com um conhecido criminoso internacional, Henry Kissinger, um dos principais articuladores dos golpes contra Salvador Allende e João Goulart. Da folha corrida de Kissinger constam ainda o apoio político, financeiro e bélico (fornecimento de armas) ao general Yahia Khan para o golpe de Estado de 1971, que vitimou pelo menos 500 mil civis em Bangladesh; a morte de cerca de 600 mil civis no Camboja e 350 mil no Laos, resultado de bombardeios ordenados por ele, durante o governo Nixon, entre outros acontecimentos do mesmo naipe. Dilma, que foi uma valente lutadora contra a ditadura, classificou o encontro com Henry Kissinger como “inspirador”.

Quando existe uma forte ofensiva, o recuo tático para reagrupar forças pode ser um recurso válido, desde que o terreno abandonado ao oponente não viabilize um ataque final, o que significa que mesmo durante um eventual recuo o combate continua. Mas diante da onda golpista da direita brasileira, o governo Dilma em alguns campos parece achar que a constante cedência de posições pode ajudar a mitigar a fúria inimiga, ilusão que é desmentida dia a dia.

O apoio brasileiro a esta infame moção contra a Síria, além de lembrar os tristes tempos da diplomacia de pés descalços de FHC, em tudo obediente aos ditames estadunidenses, não tem efeito mobilizador entre a militância progressista que é a linha de frente em defesa do governo popular e democrático que venceu sucessivamente quatro eleições e que a presidenta Dilma tem a responsabilidade de liderar.

* Jornalista do Portal Vermelho, membro da Comissão Nacional de Comunicação do PCdoB.

Fonte: Vermelho.

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