O “inverno” será muito rigoroso. É preparar a resistência!

Foto: Divulgação Pixabay.

Por José Álvaro Cardoso.

Com a eleição do candidato de extrema direita, os golpistas conseguiram, através de uma eleição fraudada de cabo a rabo, praticamente “fechar” o golpe de Estado em andamento. Este não era o candidato preferencial dos articuladores do golpe, mas política nunca se faz apenas com condições ideais, mesmo se tratando de gente com muito poder e dinheiro. Inegavelmente, um país importante como o Brasil, eleger um fascista do quilate do Bolsonaro, anti- povo e anti-Brasil, é extremamente desmoralizante.

A arrogância e a agressividade da extrema direita cresceu nas ruas minutos depois de sacramentado o resultado das urnas, resultado já esperado. Isso irá piorar nos próximos meses, certamente irá aumentar a violência contra pobres, negros, LGBTs, mulheres, e trabalhadores de uma forma geral. Um aspecto a ser considerado é o de que o fato dos golpistas terem aceitado Bolsonaro como candidato, por si, é um forte sintoma da grave crise econômica e política, na qual se encontra o país e o mundo.

A eleição de um conhecido apologista da tortura já é muito grave, por si só. Mas esta é uma questão menor, não iriam colocar um fascista no poder apenas para perseguir pessoas fragilizadas ou os “diferentes”, como um fim em si mesmo. A questão fundamental é que os golpistas, com Bolsonaro, irão dar continuidade à política de guerra contra o povo que vinham implementando no período Temer.

O estrago que foi feito no período Temer não esgotou os objetivos do golpe perpetrado em 2016. A crise mundial é grave e, por isso, eles querem muito mais. Os vetores fundamentais do golpe (apropriação das riquezas nacionais e liquidação dos direitos sociais e trabalhistas), serão muito reforçados com o governo Bolsonaro. Conforme o futuro ministro da Economia tem divulgado aos quatro ventos, a ideia é colocar em prática um programa ultra neoliberal, de forma rápida. É fazer o que Temer está fazendo, mas mais rapidamente.

A realizar do referido intento, naturalmente teria que ser concretizada através de um golpe, e de uma eleição controlada 100% pelos golpistas. Retirando de saída, inclusive, através de inúmeros atos ilegais, o candidato preferido da população, que detinha as maiores chances de se eleger, entre todos os candidatos. A implementação de um programa desse tipo, não se faz de forma transparente e através da democracia. Já sabíamos em 2016 que só deixariam a eleição de 2018 acontecer, se tivessem um grau muito elevado de certeza de que ganhariam. Não iriam perpetrar um golpe perigoso como o que se fez no Brasil, que envolveu todos os poderes e, candidamente, devolver o poder ao mesmo partido golpeado dois anos antes.

O candidato já antecipou que quem irá tomar as decisões econômicas no seu governo será o chamado “mercado”. Ao mercado já sinalizou que irá entregar o encaminhamento da reforma da previdência uma das primeiras medidas a serem encaminhadas. Considerando a relação de Bolsonaro com o capital e com os militares, fica fácil prever que tipo de reforma da previdência seria levada à cabo. Paulo Guedes já falou que, se depender dele, privatizaria todas as estatais, sem exceção. Segundo Bolsonaro, o grande problema da previdência no Brasil é o funcionalismo público que teria uma “fábrica de marajás”.

Como alguns incautos acreditam que ele seja “nacionalista” está dizendo que é contra a privatização do “miolo” da Eletrobrás e da Petrobras. Ou seja, no caso da energia elétrica, pretende privatizar a distribuição e não a geração de energia. De qualquer forma este é um discurso de candidato. Considerando a falta de programa e o desconhecimento de economia, este candidato irá comer na mão dos “especialistas” do setor e aí tudo pode acontecer. Quanto à Petrobrás, vem falando em privatizar o refino do petróleo. Sobre o Pré-sal, repete, como papagaio amestrado, a fala do seu dono, o Império Americano: “Nós não temos recursos para explorar o Pré-sal. Arrebentaram com a Petrobras. Daqui a 20 anos, 30 anos a energia será outra. O refino dá para privatizar.

Mas tem que ver o modelo. Para exploração, temos tecnologia mas não temos recurso.” Segundo o candidato da extrema direita mais de 50 estatais no Brasil dão prejuízo e a ideia é partir imediatamente para privatizar ou até mesmo extinguir tais empresas.

Lendo atentamente o que o presidente eleito e sua equipe repetem sobre os temas econômicos e sociais, não precisa ter bola de cristal para saber que irão acelerar o programa de guerra contra o povo que Temer vinha cumprindo:

  1. a) entrega das riquezas naturais (petróleo, água, minerais essenciais, terras férteis, etc.). É grande a voracidade neocolonial do império;
  2. b) privatização radical entrega das estatais à preço de banana. Se tiverem correlação de forças para tal, irão entregar também a Petrobrás;
  3. c) enfraquecimento e diminuição do Estado (o Estado republicano, evidentemente);
  4. d) liquidação dos direitos sindicais e das políticas sociais;
  5. e) destruição do conceito de nação e de soberania (querem que o Brasil vire um proterado dos EUA).

Com Bolsonaro, possivelmente teremos o governo mais entreguista da história, e o Brasil estará automaticamente alinhado à política externa dos EUA. Política esta que empurra o Brasil para uma agenda militarista e hostil aos vizinhos latino-americanos, com prioridade para a Venezuela. As hostilidades do governo estadunidense contra a Venezuela vêm numa rápida escalada, e aparentemente o desejo do império norte-americano é utilizar países da América do Sul, incluindo o Brasil, em uma investida contra a Venezuela.

O programa que o Bolsonaro pretende implantar no Brasil, em boa parte a agenda do Império, necessariamente terá muito oposição. Não se consegue implantar uma agenda desse tipo sem intimidação e aumento da violência contra a população. Com a eleição de Bolsonaro, as instituições serão fortemente ameaçadas, os sindicatos estarão em grande perigo, os movimentos sociais estarão ameaçados. A tendência é fechar a estreita fresta de democracia que ainda resta no país, e as liberdades democráticas serem bastante restringidas.

Não iremos derrotar as investidas do fascismo com medo, críticas nas redes sociais, ou alianças com a direita. A agressividade da extrema direita contra trabalhadores, sindicalistas, pessoas frágeis, mulheres, irá certamente aumentar. Com a vitória de Bolsonaro há o risco inclusive, do regime migrar para uma ditadura dos militares, que já estão posicionados em vários setores estratégicos do aparelho de Estado. O potencial de resistência do povo contra os ataques é muito grande, pois o movimento sindical brasileiro é bastante representativo e organizado. Ademais, a alternativa a lutar e se organizar, é se esconder debaixo da cama.

José Álvaro Cardoso é economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

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