O Homem e a Memória

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

A luta do homem é pela memória! Muito além de um milagre, coerência, reza, copo d’água sobre a tv ou promessa de esfolar os joelhos em escadarias. Por certo o homem entende a conjuntura e o cerco armado. Compreende em uma proporção maior que não existem caminhos para seu segmento político, apesar da utópica liderança nas intenções. Sempre me impressiona – talvez de forma meio inocente – a proporção do ódio por ele vigente. É como um anti-cristo ou ditador. Contudo, talvez um anti-cristo ou ditador conte com mais simpatia. O homem é sinônimo de ladrão, corrupto, judas. O homem é enquadrado em um campo de ignorância legitimadora para as violências a ele endereçadas e foi, como nova forma, eleito a figura central do caos brasileiro. O homem teve sua posição diversas vezes questionada devido a sua ausência nas cadeiras acadêmicas. Ou pelo seu jeito de falar e origem. O homem foi personificado como o problema. Quando se personifica um problema, fantasia-se o fim das questões com o fim do problema. Reducionista, óbvio. Distante do concreto mais óbvio ainda. Mas o imaginário é permeado por este caminho e, na era do agora, toda e qualquer solução imediata é parte da possibilidade. Logo, a possibilidade colocada é um tanto clara.

O homem luta por memória e para que a história registre seus esforços após a tortura que vive, tortura esta que tão pouco perdoou sua falecida companheira entregue à exposição voraz dos justiceiros quando definiram como estratégia invadir e apresentar em praça pública sua intimidade (casa) revelada pelas lentes que também fingem buscar justiça. Justos justiceiros. Não o coloco como uma figura imune frente aos desacordos, contudo a continuidade da atuação de figuras envolvidas em pautas propícias para as cornetas globais me faz ter a certeza dos esforços centrados exclusivamente em uma pessoa e como esta dirige o caminhão que ensaia numa curva capotar com a carga de tantos. Sua luta por memória consiste na busca para a não sobreposição da história construída frente ao mergulho (ou lançamento) no esgoto atual. Sua luta é pela preservação de seu nome justamente no imaginário dos que ainda por ele nutrem empatia. Por isso talvez se disponha a andar por aí e ser hostilizado. Ou mesmo ter seu direito de manifestação quase silenciado por tiros. A luta pela memória talvez derrube seu sangue. E o homem, suponho, tem consciência disso. No entanto segue. O caminho que restou foi seguir na barbárie e tentar sobreviver a esta. Algumas vezes na história isso ocorreu e com variados desfechos, naturalmente.

A minha grande inquietação é a desproporcionalidade revestida de justiça e novo tempo. O silêncio para o helicóptero de pó ou os gritos aplaudidos da loucura fardada. O que me inquieta não é a prisão ou não do homem por causa da moradia litorânea, e sim, a dedicada condução de sua imagem como ponto definitivo para a mentira da renovação do agora. O Maranhão ainda tem dono e é um dono de longa data. Seu tempo de poder pode ser equiparado à quantidade de números em sua lista de complicadores. A liderança da nação consegue acobertar e pôr para ninar todo foco de incêndio que tanto insistem em iniciar. Desviaram merendas, mas pouco importa a fome. A fome é cotidiana, esquecida. Estancaram a sangria, mas esta frase não foi gravada. Passamos por cima dessa mancha. O homem do “rota na rua” conseguiu o privilégio de cumprir a pena em casa. Além do privilégio de ter passado a vida sem cumprir pena, sem responder pelos crimes que todos sabiam. Estes citados têm tantos muitos companheiros e seria caminho fácil seguir lembrando-os. No entanto, para estes não há caçada. Não há perseguição. Eles sabem que não terão a responsabilidade pelos seus atos. Diferente do homem que, neste todo, agora só pode lutar pela memória.

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Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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