O Herói e a Bipolaridade

Imagem: Reprodução

Neste capítulo, de uma história não linear, o Herói brasileiro cuja função deu-se no vir ao mundo pela justiça e integridade, atuando arduamente na preservação dos bons costumes, da moral e melhor ângulo para as fotos, está em um momento confuso, mas que na profundidade de seus conhecimentos sobre a psique humana definiu como “bipolar”.

Era noite e o mundo, teoricamente, dormia. Menos o Herói. Inquieto, zanzava de um canto para o outro de sua imensa casa. Parava diante de sua imensa foto em um cômodo e dirigia-se ao outro cômodo para assim parar novamente diante de outra imensa foto. De uns anos pra cá alcançou tamanha notoriedade que, de fato, se entendeu como alguém não passível de ataque.

Por isso a insônia e “bipolaridade”. Porque em dado momento gozava de imensa alegria, alcançando a gargalhada mais sonora e prazerosa ao imaginar que era amado por tantos e que sua ação – seja qual fosse – era ato nobre e divino. Era um pintor colorindo novamente as cores da bandeira brasileira. Um charme.

Em outro momento, uma dor no peito, uma tristeza. Uma vontade de pegar quem mostrou o que fazia nos bastidores e moer no pau. Como perderia seu status? Como seria e estaria a cabeça dos milhões que o apoiavam tanto pelas ruas e redes? Seriam fiéis ao que foi construído? Ou adentrariam campo esquerdista, o atacando e indo contra sua forma de “ajudar o presidente” ignorante? A dor aumentava visto que, sendo um acordo feito antes do povo pirar de vez e eleger o Capitão, ninguém reparou em sua ação durante a eleição quando resolveu “resgatar uma bomba” e jogou, sendo o explosivo prontamente abraçado por enorme parte de mídia.

O Herói “bipolar” ria e ficava triste. Gargalhava e flertava com o choro. Contrariando todas estimativas, fez a ligação:

Herói: Dada… meu bom! Como vai? aqui rachando a cabeça pensando e me ocorreu que nunca mais perguntei da sua família. Como estão? Vocês estão se dando bem?

Dallagnol: Herói… que alegria… que alegria… não estamos muito bem, mas vamos ficar.

É fase. Surpresa boa sua ligação, sabe? Estava aqui pensando formas de prender outra foto sua na parede do trabalho e, caso não se sinta ofendido, costurar uma nova capa.

Herói: Não… por favor. Prenda sim. Prenda sim! Vou ficar feliz! Estava aqui numa bipolaridade só. Bem ame ou deixe, entende?

Dallagnol: Sim. Mas faz parte. Às vezes é bom ficar um pouco confuso pra depois ficar bem e de bem com a vida.

Herói: É…

Dallagnol: É…

Herói: Outro dia assisti a entrevista de um presidiário que disse querer sair da cadeia pra, além de outras coisas, ir atrás dos dois caras que o colocaram lá. Pra provar sua inocência e mostrar pro povo que os caras mentiram.

Dallagnol: AAAHHH… acho que ouvi falar. Acho que ouvi falar. Imagina só. Devia sair e ver a família, ?

Herói: Siiimmm! Parar de besteira. De rancor. A vida é agora. Não é? Limpar o coração e encher de perdão. Bonito, não?

Dallagnol: Pois é.

Herói: É…

Dallagnol: Herói… me diz uma coisa.

Herói: Digo.

Dallagnol: Já pensou em baixar o whatsapp? Li uns papos de hackers e fiquei com medo. Vai saber. Baixou? É mais seguro mesmo?

Herói: olha… não sei. Hackers é crime previsto num artigo que não lembro. Mas é.

Dallagnol: Mas já baixou?

Herói: Não. Hackear é crime e… deixa eu pesquisar. Acha que dá pra ficar imune?

Dallagnol: Rapaz… não sei. Você me manda o link?

Herói: Mando.

Dallagnol: Vou recomendar pro Capitão também. Sei lá. É bom estar atento e não cair em armadilhas.

Herói: Concordo.

Dallagnol: e a bipolaridade? Mais estável?

Herói: Ah… estava meio preocupado. Os dias são muito corridos e mal paramos pra pensar nas coisas. Então fiquei um pouco confuso. Queria chorar, queria rir. Mas fiquei num lado do muro. Apesar da profissão me deixar em cima do muro, pra questão do coração escolhi um lado. Tem tanta gente que ama a gente, certo? Não é qualquer coisa que vai destruir. Vamos é nos unir mais. Acho que agora descanso.

Dallagnol: Boa. Bom poder ajudar.

Herói: Obrigado.

Dallagnol: De nada, Lei.

Herói: Um abraço.

Dallagnol: Espera um pouco. Antes de ir, me deixa te perguntar uma última coisa.

Herói: Sim.

Dallagnol: ta ligando do fixo?

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