O grande reino do valinho

Por Míriam Santini de Abreu, para Desacato.info.

Quando eu tinha uns oito anos, o pai e a mãe conseguiram, com sacrifício, dar entrada na moradia própria, construída num terreno de um beco que mais parecia um barranco. Mas o barranco, com o passar do tempo, foi “alisado”. O que incomodava era o bueiro que cortava a parte baixa do terreno, umas quatro casas depois de nossa. Nós, as crianças do beco, o chamávamos de “valinho”, e o valinho era parte do nosso grande reino.

Descobri há algum tempo que a ideia de contaminação aparece numa certa fase da infância. Para mim, demorou, porque não tínhamos medo das doenças que a água suja poderia provocar. Minha mãe, sim, e, para seu desespero, o valinho era lugar de brincadeiras. Ela ia até a janela nos inspecionar e via: lá estávamos, pulando de uma pedra para outra, naquela mistura de água de chuva com outras águas, menos idílicas. Mas, como era só água o que víamos, ali parecia passar apenas um córrego, cercado de grandes samambaias e urtigas, no fundo de um declive alto que dava ao cenário a aparência de um mundo perdido.

A mãe não desconfiava da capacidade de nossa misteriosa imaginação. Da janela, ela gritava:

– Saiam desse vaaaalooo! Agora!

E, quando chegávamos em casa, ela puxava as nossas orelhas de um jeito especialmente dolorido, mas no dia seguinte, vestidos com nossos calções surrados e as Congas azuis, lá estávamos, novamente, no nosso reino das águas claras.

Crescemos, então, e o valinho da infância virou o que era, um bueiro pernicioso. Os moradores do beco organizavam abaixo-assinado todo ano pedindo à prefeitura que fizesse a canalização. Uma parte a prefeitura fez, mas a outra, não. E como todo bueiro que se preze, o nosso ficava ainda pior no verão e quando chovia. Mas eis que, de visita em casa no Carnaval, descubro que o valinho foi todo canalizado e sobre ele passará o alargamento da avenida São Leopoldo. As águas vão correr sob concreto e terra, tudo porque, ali perto, será construído um conjunto de apartamentos. Eu comentei: – Mãe, é o fim de uma era!

Às vezes, quando me dou ares de muita importância, um de meus irmãos comenta, sarcástico:

– Baixa a bola, porque tu cresceu brincando num valinho!

Eu dou um sorriso ambíguo. Gosto de pensar que, naquele tempo, a rua nos pertencia, e nós pertencíamos ao mundo.

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Sofredores da rua

Imagem: Arquivo da Internet.

Míriam Santini de Abreu é jornalista em Florianópolis.

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