O fator Erdogan: conservadorismo em ascensão

Erdogan com Trump na Casa Branca. Foto: Republic of Turkey Ministry

Por Rita Coitinho, para Desacato.info.  

O presidente da Turquia, Recip Tayyip Erdogan, foi reeleito neste domingo. O novo mandato, de cinco anos, se dará sob a nova constituição, cujas modificações ocorreram na esteira da tentativa frustrada de um golpe de Estado, liderada por militares, em 2016. O segundo colocado, Muammer Ince, candidato do Partido Republicano (CHP), de centro-esquerda, recebeu certa de 30% dos votos.

Nas eleições para o parlamento, realizadas também no domingo, o conservador AKP, de Erdogan alcançou, sozinho, a maior parte dos assentos. Seu aliado, o Partido de Ação Nacional (MHP), de direita, atigiu quase 12% dos votos. Isso dá à coalizão AKP-MHP, denominada “Aliança do Povo”, a maioria absoluta do parlamento turco, deixando Erdogan, já com maiores poderes conferidos pela nova constituição, com folgada vantagem. Enquanto isso, conforme informações do jornal Asia Times, “o partido de esquerda Democracia Popular (HDP), apoiado em grande parte pela população curda do país, conseguiu passar um limiar nacional de 10% para entrar no parlamento, apesar de seus líderes, Selahattin Demirtas e Figu Yuksekdag, estarem na prisão”.

Ao que tudo indica, a tentativa de golpe de Estado de 2016 acabou favorecendo Erdogan. Provocou uma reação popular contra o golpe, que se traduziu também em apoio político ao governo. Deu-lhe, assim, oportunidade de incentivar uma reforma constitucional, que foi aprovada por 51% do povo turco em abril de 2017. Dentre as mudanças aprovadas, estão o fim do regime parlamentarista e a instituição do presidencialismo, passando para as mãos do presidente a chefia do Poder Executivo (como é na maioria dos países da América Latina).

Com as eleições de ontem, a Turquia votou pela continuidade tanto dos grandes projetos de infraestrutura quanto das ações militares do país. Diretamente ou não, a maioria emprestou apoio às intervenções militares na Síria, à política de “linha dura” com nacionalistas curdos, ao renascimento de certo expansionismo regional turco e de uma política de perseguição às organizações de esquerda, laicas e pacifistas. Desde o episódio do golpe militar, sob o pretexto de “luta contra o terrorismo”, muitas organizações civis foram alvo da decisão arbitrária do governo, tendo seus escritórios revistados e fechados e seus membros obrigados a suspender suas atividades. Dentre as entidades perseguidas está a Associação da Paz da Turquia, organização amiga do CEBRAPAZ e integrante do Conselho Mundial de Paz, que teve sua sede invadida e fechada em novembro de 2016. Com relação aos curdos, a política de Erdogan é de guerra declarada. Prisões de líderes dos partidos identifcados como curdos são frequentes, bem como os ataques armados às comunidades. Ao mesmo tempo em que o Estado é implacável com o separatismo curdo, sob Erdogan a fronteira da Turquia é “porosa” às milícias que atuam desentabilizando a Síria, ao mesmo tempo em que o país alia-se ao Catar em suas disputas com a Arábia Saudita – e que tem lhe rendido a antipatia dos EUA – , busca exercer uma política mais intervencionista no Chifre da África e, a despeito de suas “rusgas” com os Estados Unidos, permanece como integrante da OTAN.

Em geopolítica, nem sempre a máxima de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” funciona. O fato de a Turquia, sob o governo do conservador Erdogan, apresentar contradições claras com os interesses dos Estados Unidos, não a torna, automaticamente, um aliado dos povos que lutam, na região, por sua autodeterminação. Que o digam os sírios e os curdos.

Rita Coitinho é socióloga, Dra. em Geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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