O falso abraço ou a conquista frustrada

Imagem: Antônio Augusto Bueno.

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

“Jonas saiu do carro para se despedir e veio dar um abração em Rafaela, um abraço que não desapertava. Os segundos ficaram longos e Rafa sentiu a mão de Jonas fazer um leve cafuné em sua nuca. Virou os olhos para Valéria, namorada de Jonas, que estava no carro olhando o celular. Disse tchau tchau, meio que encabulada e forçou que ele soltasse. Depois de um sorriso carinhoso de Jonas, um tchau querida veio do carro. Rafaela alcançou a portaria e suspirou.”

“Sabia que aquele casal tinha uma relação aberta. Valéria sempre buscava se relacionar com outras meninas do cursinho e trazia as presas para que Jonas comesse. Do seu lugar de hétero, Rafaela, ou apenas Rafa, tinha curiosidade de ter uma relação homossexual, afinal toda a galerinha popular transava com meninas. Ficou assim pensando o que era se libertar, imaginou-se transando com o casal aberto, como seria no dia seguinte, tornar-se o centro das atenções, [email protected] falariam nela. Olhou para as unhas descascando e fez sobre as almofadas sua revolução íntima. Por fim bocejou, organizou a calça e lembrou do professor gatinho, que vivia chamando sua atenção, pensou na boca do professor e nas suas aulas sobre revolução social.”“Na garagem de casa, Jonas comentou com Valéria: – E Rafa, será que ela evolui? Meio travadinha a menina. – É incrível como as pessoas tem medo de ser feliz Jonas, respondeu Valéria balançando a cabeça e curtindo uma foto de bichinho no instagram. Amor, somos jovens, temos que aproveitar, o resto que se foda!”

A começar pelo falso abraço, nossa história é bem conhecida, é o que veio se chamar modo de vida pequeno burguês romântico. Individualista, afetado, exaltando a intimidade, sobrelevando os prazeres, devaneios e fantasias do eu a uma verdadeira condição política, esse modo de vida preenche os poros dessas caricaturas. Só por pequenas brechas se poderá ver lances revolucionários. A curiosidade por outras formas de sexualidade é uma força positiva da adolescência, em busca de novos prazeres e rupturas com forças de repetição.  As fantasias, as práticas de masturbação, a vivência de outras formas de relação afetiva e sexual são estreitas limites no conjunto dos poderes assujeitadores, mas, mesmo estreitas, aberturas de libertação. Libertação corporal e afetiva, libertação emocional. Essas brechas de liberdade são sempre estreitadas por outros sentimentos morais, também atávicos, que impedem uma fruição maior de liberdade e prazer. Transformar a conquista em uma técnica de abraço, em um gesto falso, burocrático e competitivo, aguardando o faturamento do alvo momentâneo, deixa muito pouco para a expressão humana. Aqui o personagem se aproveita do abraço social de despedida para segurar a mulher, diferente do funk, por exemplo, em que os gestos de ambos os dançarinos e seus toques atuam como elemento sensual e de flerte. Na história que lemos não há dança, há o laço e sua presa.

Mas se o falso abraço foi apenas a conquista que não deu certo e infelizmente deixamos de narrar outros orgasmos? E chega!

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Désceo Machado é repórter em Florianópolis.

 

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