O Exército deve satisfações sobre o sumiço de ‘Balta Nunes’, agente infiltrado num Fora Temer

Por Marco Donato.

Após ter arquitetado e obtido êxito na emboscada contra jovens que iriam a uma manifestação Fora Temer (que arrastou inclusive um rapaz que saía da biblioteca do Centro Cultural e nem ao ato iria) em setembro do ano passado, o militar do serviço de inteligência do Exército, Willian Pina Botelho – vulgo Balta Nunes – desapareceu.

Ele não foi detido com os jovens naquele dia. Pelo contrário, foi promovido. Tornou-se major e foi transferido, oficialmente, para a Amazônia. Seu salário pulou de R$ 10.624,15 para R$ 14.592,80.

A defesa de alguns dos acusados, por meio do advogado Hugo Albuquerque, intimou ‘Balta Nunes’ a depor. A intimação a Balta foi entregue em Manaus, mas não há prazo para que ele preste depoimento. O julgamento dos 18 maiores de idade presos na ocasião (que respondem por associação criminosa e corrupção de menores) ocorrerá amanhã em São Paulo.

“Balta foi arrolado como testemunha pela defesa. Se ele não comparecer demonstra o caráter político da ação”, disse o advogado Hugo Albuquerque ao DCM.

Depois de ter se tornado publicamente conhecido, o capitão do exército foi reconhecido por diversos ativistas de diferentes movimentos sociais. Hoje sabe-se que desde 2014 ele vinha monitorando e infiltrando-se em manifestações e reuniões de grupos. Assediou meninas menores de idade para tanto.

O caso, nunca é demais lembrar, está repleto de ilegalidades, arbitrariedades e contradições. Os garotos ficaram várias horas detidos no DEIC sem poder manter contato com advogados e familiares; a presença do militar no dia e hora da detenção – a despeito de inúmeras fotos e evidências – nem mesmo é citada na peça de acusação que foi aceita pela juíza; o Exército de saída afirmou que o militar estava sim em uma operação conjunta com a Polícia Militar paulista.

O comandante-geral do Exército, Eduardo da Costa Villas Bôas, afirmou claramente: “Houve, houve, houve uma absoluta interação com o Governo do Estado”. Depois a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo negou e então o Exército mudou de opinião. Pior: instaurou e concluiu rapidamente uma sindicância na qual não se constatou registro de operação nenhuma naquele dia, apenas a ocorrida no período da manhã quando da passagem da Tocha Olímpica (o ato Fora Temer foi a tarde).

Também nada aparece na sindicância a respeito de falsidade ideológica do militar. O conteúdo é classificado como ‘reservado’, portanto as conclusões da sindicância só podem vir a público daqui 5 anos.

Está evidente a estratégia do Exército. Enviou William ‘Balta’ pro meio do mato, e blindou-o. Talvez nunca mais tenhamos notícias. Ele sequer compareceu a uma oitiva convocada pelo Ministério Público de São Paulo em dezembro do ano passado.

Como bem lembrado pelo jornalista Paulo Moreira Leite, a história lembra muito o episódio da bomba no Riocentro. O capitão Wilson Machado, único sobrevivente daquele atentado forjado, então chefe de seção do DOI no Rio de Janeiro, jamais foi levado a dar explicações. Para estabelecer e aprofundar ainda mais o paralelo, o capitão Machado também foi promovido depois.

O caso é daqueles que podem ser classificados como surreal e revoltante. Mais revoltante ainda talvez seja a indiferença com que a população tem lidado com essa ação digna da ditadura. Talvez se a Globo fizer uma minissérie daqui 50 anos as pessoas acordem para o que aconteceu.

 

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