O dia em que Bruce Willis se perdeu no Recife

Por Clóvis Campêlo.

Pois é, amigos. Como bom católico não praticante que sou, no Domingo de Páscoa dirige-me ao Recife Antigo para assistir a Paixão de Cristo. Lá, no meio de uma multidão comovida, sentindo o cheiro do povo novamente, assisti ao Drama e a prova de resistência de José Pimentel, que interpreta o papel de Cristo há muito tempo.

Setentão, Pimentel, que não aparenta a idade que tem, fez do Drama da paixão um nepotismo teatral. Toda a família participa da montagem e encenação do espetáculo, o que não lhe tira o brilho. Pelo contrário. A Paixa de Cristo do Recife abre um excelente mercado de trabalho para os atores locais, principalmente depois que a famigerada Rede Globo tomou conta de Nova Jerusalém com seus atores mauricinhos e atrizes patricinhas.

Além de tudo, como li recentemente em uma revista, numa matéria sobre o Maestro Duda, quando se trata de arte, o mais importante é a competência de cada um, parente ou não.

O mais emocionante, porém, foi quando, antes do espetáculo começar, alguém assumiu o microfone e anunciou com a voz adequadamente preocupada e preocupante, o sumiço de Bruce Willis.

Sabem como é: o povo gosta de homenagear os ídolos dando aos filhos os nomes de celebridades, atores roliudianos, jogadores de futebol e pagodeiros famosos. Juro que nunca vi ninguém nomear um filho de Machado de Assis ou Guimarães Rosas, ou mesmo James Joyce ou Jean-Paul Sartre, provando para mim, que a literatura da elite é desinteressante e chata para o povão. Bruce Willis, não o ator americano, claro, mas uma criança de oito anos de idade, trajando uma calça branca e uma camisa azul celeste, havia se separado da avó, no meio da multidão, e esta o procurava aflita sem encontrá-lo. O jeito foi apelar para a solidariedade popular e antes de Jesus Cristo entrar em Jerusalém montado em seu burrico, todos sairam aflitos e a pé em busca da criança.

Procura Bruce Willis daqui, procura dali, e o menino foi finalmente encontrado aos pés da estátua do Barão de Rio Branco, com um saco de pipocas na mão.

Anunciado o resgate triunfal, a multidão aplaudiu calorosamente o final feliz e pudemos, afinal, assistir ao martírio, a morte e a ressureição de Cristo.

Bruce Willis, quem diria, deu um colorido especial à Paixão de Cristo do Recife.

Recife, 2008

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