O desconforto que sinto

Publicado em: 17/09/2011 às 19:08
O desconforto que sinto

Por Rafiqa Salam.

A ANP inflama a todos com  a ida a ONU para o reconhecimento da Palestina como Estado. Um reconhecimento que implica na mudança de status de observador da OLP como entidade de representação dos palestinos na ONU (adquirido em  1974)  para o de  Estado Pleno.

O que devemos analisar é que esta tática de reconhecimento na ONU não significa um estado independente e soberano. Também não significa que os palestinos poderão sair às ruas e ocuparem suas terras, que foram usurpadas de forma agressiva e gradativa nestes 64 anos pelos sionistas.

Primeiro a ANP inflama, mas depois reprime. Está preocupada em como controlar os palestinos – que podem proclamar seu estado, mas não podem comemorar livremente!

Saudar um novo estado, embora ele não exista de forma concreta!……. ou poderão os  palestinos ocuparem os diversos assentamentos ilegais espalhados  pela Cisjordânia??  Poderão quebrar o Muro da Vergonha, derrubá-lo e recuperar os quintais de suas casas?? E a  colheita de oliveiras?  acontecerão sem repressão do exército israelense? Os palestinos poderão festejar o novo estado – o 194º estado membro da ONU – pelas ruas da palestina sem serem detidos e revistados nos check points?? Que ironia….194 o número refere-se a posição que o Estado da Palestina ocupará na ONU… e eu que pensei que era uma justa referência a Resolução 194!! Ah, mas esse assunto a traidora ANP não teve tempo de tratar…  A Resolução 194 foi aprovada pela ONU, em 1948, e reconhece aos refugiados palestinos o direito de regressarem aos seus lares ou de serem indenizados, se assim o preferirem.

Tantas perguntas, sem respostas…….. como segurar as reações dos palestinos, que querem ecoar seus gritos na Primavera Árabe!  Espero que não sejam as balas e a violenta repressão do exercito nazi-sionista que detenham nossos irmãos palestinos……. Que a paz, que tanto é propagada nessa campanha de reconhecimento na  ONU,  não seja a do cemitério……

Assisto este processo sem me envolver – o que é um desconforto, uma tristeza, vivo um paradoxo – mas não me sinto representada neste teatro dirigido pela ANP.  Não posso ter outra atitude, uma vez que não sou neutra e defendo a Palestina Livre, com autonomia e soberania sobre todo o seu território histórico, com Jerusalém (inteira!) como capital,  com o direito de retorno  dos refugiados e a libertação dos 11 mil presos políticos.

Desconfortável mesmo é assitir que o território do “novo estado palestino”  é menos de 8% dos 22% que sobrou depois da invasão sionista de 1967……… ou podemos ter a esperança que as áreas ocupadas por  colônias ilegais, pelo Muro da Vergonha, pelos Check Points e pelas Zonas de Segurança serão liberadas e entregues aos árabes……

Deconfortável é ver o adjetivo “direita” acrescentado ao lado das palavras sionistas, judeus israelenses, colonos……como se possível fosse existir sionistas de esquerda! Como se possível fosse ver os judeus israelenses deixar de defender  dois estados e proclamarem  a Palestina Livre! Como se possível fosse ver  os colonos entregarem  suas casas aos primos árabes!!! (Eu lembro da destruição das casas dos assentamento em Gaza, tudo destruído, podendo ser utilizadas para acabar com o déficit habitacional em Gaza, maior adensamento demográfico…. aliás, não só as casas em Gaza foram destruídas, mas  o povo e as vilas foram  bombardeadas).

“A proposta da construção de um Estado Palestino da forma que está colocada tira do Estado ocupante a responsabilidade por todas as atrocidades que cometeu, comete, e ainda cometerá, diariamente, contra o povo e sua terra; legitima a ocupação militar; coloca numa situação de despejo os 1,5 milhões de palestinos que conseguiram se manter nos territórios ocupados em 1948, que deu origem à criação do Estado judeu; retira dos refugiados o direito inalienável do retorno para sua terra, afinal o ocupante passaria a ter a posse legal das terras onde existiam as aldeias dos palestinos; legitima todos os privilégios construídos sob os escombros e o sangue dos palestinos e diminui, absurdamente ainda mais, a extensão territorial aprovada pela ONU, através da Resolução 181, na votação da partilha em 1948, sem a consulta ao povo que lá vivia, que “concedia” aos donos da terra, os palestinos, a posse de apenas 48% da Palestina Histórica e a doação de 52% das terras palestinas para os europeus construírem um Estado Judeu” (Stelinha, 2011)

A ANP esclarece dizendo que os avanços serão no plano político: integrar-se a  ONU possibilita a defesa dos territórios palestinos, pois estes não serão mais considerados “terra disputada” mas sim “terras ocupadas”. Se este ganho político é fundamental, porque  Abbas condiciona a ida a ONU? Em declarações, afirma que se acontecer a retomada de  negociações “confiáveis” por parte do governo israelense, a ANP não vai a ONU. Mais uma vez a ANP negocia e barganha com os sionistas a mercê da real vontade dos palestinos.

O desconforto que sinto é pequeno quando comparado  a saudade que tenho dos meus camaradas que, por um momento, nos encontramos  em frentes de lutas  diferentes, mas sempre juntos na luta em defesa da nossa Palestina! A todos, meu respeito e a lembrança de que a  Palestina Livre é uma construção de todos nós!  Viva a resistência palestina! Viva a Intifada! Todo o nosso respeito aos lutadores e mártires palestinos!
setembro de 2011

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Imagem: portugues.rfi.fr

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