O desafio de Roberto: a busca pelos irmãos. Por Carlos Weinman.

Imagem: Pixabay.

Por Carlos Weinman, para Desacato. info.

Inaiê, Ulisses e Roberto estavam conversando no restaurante. Roberto questionou os dois irmãos sobre o motivo do desespero, eles contaram suas histórias, o que deixou Roberto bastante comovido, até que uma lágrima surgiu sobre sua face diante da narrativa carregada de eventos tristes, por dores insuportáveis, mas, ao mesmo tempo, a doce alegria do encontro de dois jovens.

Roberto entendeu o que fez os dois gritarem e caírem sobre a calçada, pois o espírito busca dar ânimo ao corpo nos momentos de fraqueza, mas precisa ser recarregado, necessita de energia. Ao mesmo tempo, o corpo humano, também tem uma tarefa de buscar lutar constantemente pela vida. O biológico e o espírito ou consciência precisam ser alimentados para suportar os enfrentamentos que se apresentam. A vontade e o corpo resultam de uma representação dos sujeitos sobre si mesmos, que envolvem uma reflexão, uma percepção do que sejam. Disso resulta, o fato que cada ser humano percebe a si mesmo através de uma ação refletida e abstrata, que revela dimensões de sentimentos, que por vezes enchem a alma de euforia e em outros momentos de tristeza. No caso dos dois irmãos, as representações dos sentimentos, das emoções foram muito intensas, o espírito não aguentou e cessou por um breve momento, como um corpo destituído de espírito desfalece foi natural a queda dos irmãos.

Quando saíram do restaurante, Roberto que costumava ser um leitor voraz, embora não tivesse a oportunidade de estudar, começou a falar sobre a vida e a condição humana. Descreveu um conceito de efemeridade, que vinha das narrativas antigas e indicava a qualidade dos seres de um dia, que estão de passagem, trata-se dos viajantes. Essa era uma forma de distinguir os seres humanos dos deuses, que tinham a eternidade e não estavam apenas de passagem, pois essa é a condição dos meros mortais, seres efêmeros. Tal modo de pensar está presente na mitologia. Os mitos revelavam para os gregos uma forma de explicar e organizar a natureza, a sociedade, até mesmo os acontecimentos e o destino dos humanos. Eles constituíam uma narrativa, uma forma de apresentar a verdade, cujo termo grego é Alétheia, que indica o que não foi esquecido.

Quando os gregos começaram a desconfiar dos mitos, trouxeram novas formas de explicar e a verdade passou ser vista como objeto de desconfiança, de questionamento, a centralidade e autoridade desvaneceram para tristeza das pessoas detentoras desse prestígio. A verdade passou ser vista sobre outro olhar, deveria ser buscada, mostrada, comprovada.  Os deuses foram desafiados e o humano ganhou espaço, o despertar do pensamento ganhou vida ao ponto de um cidadão gritar da praça pública de Atenas: – “Tenha coragem de ser um ser humano, não queira ser um deus, um mito”.

Depois da fala de Roberto, os três permaneceram quietos enquanto caminhavam, o silêncio foi interrompido com o questionamento de Roberto: – Ulisses você já procurou pelos seus irmãos? A resposta foi não. Em seguida Roberto voltou a perguntar: – Quantos irmãos vocês tinham? Ulisses respondeu que eram em cinco irmãos, duas meninas e três meninos. Roberto ficou pensativo e propôs: – Vamos procurá-los? Inaiê surpresa e ao mesmo tempo eufórica respondeu: – Considero uma ideia excelente, vamos encontrar as pessoas de nossas vidas, que estão perdidas para nós, mas não significa que devam continuar dessa maneira. Ulisses ficou calado, demonstrando receio. Roberto então gritou: – Tenha coragem e busque a sua gente, a sua vida, não fuja, não espere para o amanhã ou para a vida após morte! Ulisses retrucou: – Disseram que não deveria mais procurar por eles, anos atrás estive nas portas de um abrigo e fui enxotado. Inaiê replicou: – Quem disse que essa deva ser a verdade de nossas vidas, podemos buscar por nossos irmãos, ao menos saber o que aconteceu com eles, o medo deixe para as narrativas dos mitos, pois temos que ampliar mais os nossos conhecimentos sobre as pessoas que fizeram e fazem parte de nossas vidas, buscar a verdade, somos efêmeros, não temos que esperar pela eternidade. Diante de tudo isso, Ulisses concordou e começaram a planejar a busca, a odisseia para encontrar os irmãos, que estavam perdidos no mundo dos estranhos.

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Carlos Weinman é graduado em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Universidade do Oeste de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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