O desafio da unidade do campo progressista em Florianópolis

A questão que se apresenta é: como querer criar uma condição de unidade na esfera social sem antes conseguir realizar essa tarefa dentro do próprio campo progressista? Nunca se falou tanto na necessidade de solidariedade e empatia, contudo, na hora de colocar esses valores em prática através de um projeto democrático de sociedade, os setores progressistas acabam se fechando, excluindo-se mutuamente. Falham, antes mesmo de iniciar a disputa mais ampla dentro da sociedade.

Por Fernando Calheiros, para Desacato.info.

Assim como o resto do país, Florianópolis também passa por um grave momento de crise sem precedentes na história. Trata-se de uma conjuntura marcada por um aumento drástico do número de mortes, causadas sobretudo pela proliferação da pandemia; pelo crescimento da desigualdade, violência, pobreza e desemprego em massa. Como se não bastasse tamanha desgraça, tudo isso é acompanhado por um avanço das forças reacionárias encarnadas pelo bolsonarismo e a política do ódio, de intolerância e preconceito que vem polarizando a sociedade desde as eleições de 2018.

Diante desse alarmante contexto, o campo progressista e da esquerda partidária no país e em Florianópolis (consideradas as suas particularidades), segue sem conseguir definir um projeto unificado de ação. Sem avançar nas alianças e propostas, incapaz de mobilizar as massas no sentido de constituição de uma ampla base social de oposição ao bolsonarismo e às forças reacionárias fascistóides, limitou-se ao denuncismo e a defesa da já desgastada e frágil Constituição de 1988.

Longe das bases, salvo raríssimas exceções (para não ser injusto), a maioria dos partidos tradicionais de viés progressista seguem reféns do calendário eleitoral e do velho modelo de organização baseado no personalismo, aparelhamento e institucionalização de lideranças estudantis e comunitárias, apresentando pouca ou quase nenhuma capacidade de renovação de seus quadros.

Pautados quase sempre por disputas de ego entre suas principais lideranças ou por discussões sobre quais forças partidárias devem ou não assumir a hegemonia e comandar a composição da frente democrática, seguem reproduzindo as práticas da “velha política” que tanto recriminam. Perdidos na burocracia e no (ir)racionalismo da representatividade burguesa, deixaram de lado os valores caros à teoria e prática transformadoras.

Enquanto isso, as populações pobres seguem agonizando nas periferias. Expostas diariamente ao contágio por constituírem-se nos “trabalhadores essenciais” da pandemia, sem poder contar com o privilégio da quarentena, acabam pagando um alto preço (muitas vezes com a própria vida) a fim de continuarem sobrevivendo numa sociedade cada vez mais injusta, violenta e desigual.

Se mesmo diante de uma conjuntura dramática de crise sanitária (que mata milhares por dia), econômica (com o aumento do desemprego e da pobreza), e política (como o avanço de forças reacionárias) – cada vez mais perversa ao conjunto da classe trabalhadora – se mesmo sob esse alarmante contexto, o campo progressista não consegue estabelecer uma unidade, penso que dificilmente conseguirá realizá-la em outra ocasião.

A grosso modo, o fato de haver resistência à criação de uma frente democrática (tanto em nível local quanto nacional) acaba revelando não só o desgaste da atual forma de organização político-partidária da qual esses setores fazem parte, como também a possibilidade de qualquer transformação social vir deste espectro político, cada vez mais desgastado pela institucionalidade liberal. Tudo leva a crer, persistindo o atual impasse, que uma renovação radical na política dificilmente virá desses setores da sociedade.

Embora possa parecer impossível, ainda há possibilidades de mudanças e renovações, tão importantes e necessárias nesse momento difícil. Para que isso ocorra, é preciso que haja, de fato, uma paciência e um esforço revolucionário por parte daqueles e daquelas que se colocam em defesa de uma sociedade mais justa e igualitária. É preciso realmente mudar, sobretudo, no sentido de buscar superar os velhos antagonismos e divergências, colocando as demandas e necessidades das classes trabalhadoras acima das mesquinhas e egocêntricas disputas político-partidárias. Trata-se de uma determinação imposta não por uma pessoa ou por um conjunto de indivíduos e grupos iluminados, mas pelo próprio espírito do tempo. Aqueles que não considerarem essa imposição, correrão o sério risco de ser enterrados junto com as velhas formas e práticas políticas que hoje agonizam.

Nesses tempos sombrios que atravessamos, renova-se a importância das sábias palavras ditas pelo revolucionário latino-americano Ernesto Guevara que, mesmo correndo o risco de parecer ridículo, defendia que a verdadeira atitude transformadora deve ser guiada por grandes sentimentos de generosidade e amor. Penso ser esse, talvez, o grande desafio posto hoje ao campo progressista e aos setores da esquerda do país, e também de Florianópolis.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.