O crescimento volta quando?

Sem crescimento econômico, especialmente nos países ricos, as turbulências políticas devem ser mais acentuadas. Ideia de bem estar sugerida pelo capitalismo cada vez mais duvidosa. E a viabilidade das economias de mercado, mais questionadas

Por Marcio Pochmann. 
Protestos na Grécia

Esta pergunta não quer calar. Como se sabe, desde a crise de dimensão global iniciada em 2008 que os países ricos ingressaram numa maré de baixo dinamismo econômico combinada com a piora dos indicadores sociais, como o desemprego, desigualdade e pobreza. Quase sete anos se passaram e o crescimento sustentado das economias dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão não voltou a se manter como outrora se mantinha. As medidas econômicas adotadas até aqui se apresentam tão restritivas, que tornou impossível incluir a totalidade da população no mesmo projeto de país em curso.

Ademais, a economia dos países ricos registra outros obstáculos que podem ser destacados. Na sequência, apresentam-se alguns dos principais freios à sustentação do crescimento econômico no centro do capitalismo mundial. Inicialmente, o custo ampliado da globalização neoliberal, que inspirada na abertura dos mercados acirrou ainda mais competição, assentada fundamentalmente na redução do peso do trabalho na produção. Além da diminuição da participação dos salários na renda nacional dos países ricos, processa-se o deslocamento de empresas e, por consequência, dos empregos para outros países, sobretudo asiáticos, como a China.

Dessa forma, o centro capitalista mundial enfraquece não apenas a sua estrutura produtiva local, incapaz de motivar como no passado a expansão interna da economia e sustentá-la por meio do consumo avantajado dos trabalhadores. O resultado tem sido a concentração da renda e riqueza em poucas mãos.

Na sequência, passa-se a alguns dos principais constrangimentos de natureza ambiental. Até pouco tempo atrás, a prosperidade era tratada como um fim em si mesmo, fazendo valer a importância de uma cidade pela quantidade de chaminés emitindo fumaça escura. Nos dias de hoje e no futuro, contudo, ganha cada vez mais terreno o estabelecimento de regras e normas para a produção que não contribua ainda mais para os problemas do aquecimento global. O avanço tecnológico tem sido identificado com o principal aliado dessa nova cruzada, porém os resultados até o momento não são estimulantes tanto para o meio ambiente como para o aumento da produção.

Por fim, a atuação do Estado com relação assimétrica de poder das forças privadas do mercado. As grandes corporações transnacionais, cada vez maiores, sobressaem seus faturamentos em relação aos orçamentos dos governos, o que torna comprometedora e viciada as relações da economia com a política. Os interesses econômicos, sociais e políticos concentram-se no curto prazo, como aqueles que se associam à própria manifestação da corrupção, por meio da frequente compra de facilidades.

O endividamento dos Estados, por outro lado, serve também de aprisionamento das finanças públicas à lógica dos mercados financeiros, centrados no rentismo e não na plena produção e emprego da força de trabalho. A compressão dos gastos públicos para assegurar o ganho gordo dos financistas compromete a qualidade dos serviços de responsabilidade do Estado, sobretudo saúde e educação. Isso no momento em que a demografia aponta para a elevação da quantidade dos inativos no conjunto da população economicamente ativa. Por força da elevação na expectativa de vida da população, cresce a presença da parcela com mais idade no conjunto dos habitantes, tornando mais exigente os ganhos de produtividade para sustentar o crescimento da economia.

O futuro do capitalismo, nestes termos, está ainda por ser escrito. Sem o crescimento econômico, especialmente nos países ricos, as turbulências políticas devem ser mais acentuadas e questionadoras da viabilidade das economias de mercado.

Fonte: Rede Brasil Atual

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