O COVID-19 e os circuitos do capital

Imagem: Pixabay.

*Reproduzimos o artigo dos pesquisadores Rob Wallace, Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace, publicado recentemente na revista Monthly Review.

COVID-19, a doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, o segundo vírus de síndrome respiratória aguda grave desde 2002, é agora oficialmente uma pandemia. Ao final de março, cidades inteiras estão abrigadas e, um a um, os hospitais estão entrando em impasses médicos causados por ondas de novos pacientes.

A China, com seu surto inicial em contração, atualmente respira mais fácil [1]. Coréia do Sul e Cingapura também. A Europa já se dobra sob o peso das mortes ainda no início do surto, especialmente Itália e Espanha, mas cada vez mais outros países. A América Latina e a África estão apenas começando a acumular casos, alguns países se preparando melhor que outros. Nos Estados Unidos, um indicador importante como o país mais rico da história do mundo, o futuro próximo parece sombrio. O surto não deve atingir seu pico nos EUA até maio, e os profissionais de saúde e os visitantes de hospitais já estão lutando pelo acesso ao fornecimento dos escassos equipamentos de proteção individual [2]. Enfermeiras, para quem o Centro de Controle e Proteção de Doenças (CDC) recomendou terrivelmente o uso de bandanas e lenços como máscaras, já declararam que “o sistema está condenado” [3].

Enquanto isso, a administração dos EUA continua exigindo dos estados individuais equipamentos médicos básicos, que, em primeiro lugar, se recusou a comprar para eles. Também anunciou um recrudescimento nas fronteiras, como uma intervenção de saúde pública, enquanto o vírus se alastra como pólvora pelos mal-atendidos país adentro [4].

Uma equipe de epidemiologia do Imperial College projetou que a melhor campanha de mitigação – achatando a curva de casos acumulados ao colocar em quarentena os casos detectados e distanciando socialmente os idosos – ainda deixaria os Estados Unidos com 1,1 milhão de mortos e um total de casos oito vezes maior do que o país dispõe de camas de tratamento intensivo [5]. A supressão de doenças, com o objetivo de encerrar o surto, levaria a saúde pública a uma quarentena familiar e ao estilo da China, também ao distanciamento em nível comunitário, incluindo o fechamento de instituições. Isso reduziria os Estados Unidos a uma perspectiva projetada de cerca de 200.000 mortes.

O grupo do Imperial College estima que uma campanha bem-sucedida de supressão teria que ser realizada por pelo menos dezoito meses, carregando consigo um acrescimo na contração econômica e na decadência dos serviços comunitários. A equipe propôs equilibrar as demandas de controle da doença e de economia ativando e desativando as quarentenas comunitárias, a depender de um nível definido de leitos de tratamento intensivo preenchidos.

Outros projetistas recuaram. Um grupo liderado por Nassim Taleb, autor do famoso Cisne Negro, declara que o modelo do Imperial College não inclui rastreamento de contatos e monitoramento de porta em porta [6]. O contraponto deles esquece que o surto tenha ultrapassado a disposição de muitos governos de estabelecer esse tipo de cordão sanitário . Somente quando o surto começar a declinar que muitos países verão essas medidas como apropriadas, com sorte detendo um teste funcional e apropriado. Como disse um espertalhão: “O coronavírus é radical demais. Os EUA precisam de um vírus mais moderado ao qual possamos responder de forma gradual” [7].

O grupo Taleb observa a recusa da equipe do Imperial em investigar sob quais condições o vírus pode ser levado à extinção. Essa extirpação não significa zero casos, mas isolamento suficiente para que casos únicos não produzam novas cadeias de infecção. Na China, apenas 5% dos suscetíveis que entraram em contato com um caso foram posteriormente infectados. De fato, a equipe Taleb é a favor do programa de supressão da China, fazendo tudo rápido o suficiente para levar o surto à extinção sem entrar em uma dança das cadeiras, alternando entre controlar a doença e garantir à economia que não falte mão-de-obra. Em outras palavras, a abordagem estrita da China ( e de alta demanda de recursos) libera sua população do sequestro de meses – ou mesmo anos – que a equipe do Imperial recomenda que outros países participem.

O epidemiologista matemático Rodrick Wallace, um de nós, derruba completamente a mesa de modelagem. As modelagens emergenciais, por necessárias que sejam, ignoram quando e por onde começar. As causas estruturais também fazem parte da emergência. Incluí-las nos ajuda a descobrir a melhor forma de responder, avançando além de apenas reiniciar a economia que produziu o estrago. “Se os bombeiros receberem recursos suficientes”, escreve Wallace,

sob condições normais, a maioria dos incêndios, na maioria das vezes, pode ser contida com baixas e destruição de propriedades mínimas. No entanto, essa contenção depende criticamente dos empreendimentos muito menos românticos, mas não menos heroicos, dos esforços regulamentares persistentes e contínuos que limitam os riscos de construção por meio do desenvolvimento e aplicação de normas, e isso também garante o fornecimento de recursos de combate a incêndio, saneamento e preservação em todos nos níveis necessários…
O contexto é de infecções pandêmicas, e as atuais estruturas políticas que permitem que empresas agrícolas multinacionais privatizem lucros enquanto externalizam e socializam prejuízos, devem ficar sujeitas à “aplicação de normas” que reinternalizem esses custos, se realmente pretende-se evitar uma doença pandêmica fatal de massas no futuro próximo [8].

O fracasso em se preparar e reagir ao surto não começou apenas em dezembro, quando países ao redor do mundo falharam em agir assim que o COVID-19 saiu de Wuhan. Nos Estados Unidos, por exemplo, não começou quando Donald Trump desmantelou o time de preparação pandêmica da sua equipe de segurança nacional, ou ao deixar 700 posições do CDC não preenchidas [9]. Também não começou quando as autoridades federais não reagiram aos resultados de uma simulação de pandemia de 2017, mostrando que o país estava despreparado [10]. Nem quando, como declarado na manchete da Reuters, os Estados Unidos “cortaram o posto trabalho do especialista do CDC na China, meses antes do surto do vírus”, embora a falta de um contato prévio e direto de um especialista norte-americano na China certamente enfraquecesse a resposta dos EUA. Nem começou com a infeliz decisão de não usar os kits de teste já disponíveis, fornecidos pela Organização Mundial da Saúde. Juntos, os atrasos nas informações iniciais e a omissão nas testagens serão, sem dúvida, responsáveis por muitas, provavelmente milhares, de vidas perdidas [11].

Na verdade, as falhas foram programadas décadas atrás, quando os bens comuns compartilhados da saúde pública foram simultaneamente negligenciados e monetizados. [12]. Um país capturado por um regime de epidemiologia individualizada e just-in-time – uma contradição profunda – com leitos e equipamentos hospitalares insuficientes para operações normais, é por definição incapaz de reunir os recursos necessários para buscar um padrão China de supressão.

Seguindo o argumento da equipe de Taleb sobre estratégias-modelo em termos políticos mais explícitos, o ecologista Luis Fernando Chaves, outro co-autor deste artigo, faz referência aos biólogos dialéticos Richard Levins e Richard Lewontin para concordar que “deixar os números falarem” mascara todas as suposições escondidas de antemão [13]. Modelos como o estudo do Imperial College limitam explicitamente o escopo da análise a questões restritas enquadradas na ordem social dominante. Pela forma, eles falham em capturar as forças mais amplas do mercado que geram surtos e as decisões políticas subjacentes às intervenções.

Conscientemente ou não, as projeções resultantes colocam garantir a saúde de todos em segundo plano, incluindo as milhares de pessoas mais vulneráveis que seriam mortas caso um país alternasse entre o controle de doenças e a economia. A visão foucaultiana de um estado agindo sobre uma população em seus próprios interesses representa apenas uma atualização, ainda que mais benigna, do empurrão malthusiano para a imunidade de rebanho que o governo britânico e a Holanda propuseram – deixando o vírus propagar-se pela população sem impedimentos [14]. Há poucas evidências além da esperança ideológica de que a imunidade de rebanho garanta a interrupção do surto. O vírus pode prontamente evoluir por baixo do cobertor imunológico da população.

Intervenção

O que deveria ser feito? Primeiro, precisamos entender que, ao respondermos à emergência da maneira correta, ainda estaremos envolvidos tanto na necessidade quanto no perigo.

Precisamos nacionalizar hospitais, como a Espanha fez em resposta ao surto [15]. Precisamos de uma investida em ampliar o volume de testes e diminuir o tempo de espera, como fez o Senegal [16]. Precisamos socializar produtos farmacêuticos [17]. Precisamos impor proteções máximas para as equipes médicas, diminuindo a redução da equipe. Devemos garantir o direito de reparar ventiladores e outras máquinas médicas [18]. Precisamos começar a produzir coquetéis antivirais, como remdesivir e a velha cloroquina antimalárica (e quaisquer outros medicamentos que pareçam promissores), enquanto realizamos ensaios clínicos, testando se eles funcionam fora do laboratório [19]. Um sistema de planejamento deve ser implementado para (1) forçar as empresas a produzir os ventiladores e equipamentos de proteção individual necessários e exigidos pelos profissionais de saúde e (2) priorizar a alocação aos locais com as maiores necessidades.

Precisamos estabelecer uma brigada pandêmica de massas para fornecer a força de trabalho – da pesquisa ao atendimento – que se aproxime do nível da demanda que o vírus (e qualquer outro patógeno que está por vir) está colocando sobre nós. Combinar o número de casos com o número de leitos de tratamento intensivo, equipe e equipamento necessários para que a supressão possa preencher a lacuna atual dos números. Em outras palavras, não podemos aceitar a ideia de sobreviver apenas ao ataque aéreo do COVID-19 que está em curso, apenas para retornar mais tarde ao rastreamento de contatos e isolamento de casos para conduzir o surto abaixo do seu limite.

Precisamos contratar pessoas suficientes para identificar o COVID-19 de casa em casa agora e equipá-las com os equipamentos de proteção necessários, como máscaras adequadas. Ao longo do caminho, precisamos suspender uma sociedade organizada em torno da expropriação, desde a dos proprietários que exploram o mais oprimidos até as sanções à outros países, para que o povo possa sobreviver a doença e a cura.

Até que esse programa possa ser implementado, no entanto, a maior parte da população é largamente abandonada. Mesmo que a pressão contínua deva ser exercida sobre governos recalcitrantes, no espírito de uma tradição amplamente perdida na organização proletária que remonta a 150 anos, as pessoas comuns que são capazes devem se juntar a grupos emergenciais de ajuda mútua e brigadas comunitárias [20]. Os profissionais de saúde pública que os sindicatos podem pagar devem treinar esses grupos para impedir que atos de bondade espalhem o vírus.

A insistência em combater as origens estruturais do vírus através de planejamentos de emergência nos oferece uma chave para avançar cada passo adiante em proteger as pessoas antes dos lucros.

Um dos muitos perigos está na normalização da “besteira do cocô de morcego” atualmente em andamento, uma caracterização acidentalista, dada a síndrome que os pacientes sofrem – “merda de morcego” nos pulmões. Precisamos reter o choque que recebemos quando descobrimos que outro vírus da SARS emergiu de seus refúgios de vida selvagem e em questão de oito semanas se espalhou pela humanidade [21]. O vírus surgiu em um terminal de uma linha regional de suprimento de alimentos exóticos, desencadeando com sucesso uma cadeia de infecções de humano para humano na outra extremidade de Wuhan, na China [22]. A partir daí, o surto se espalhou localmente e pulou em aviões e trens, espalhando-se por todo o mundo através de uma rede estruturada por conexões de viagem e descendo uma hierarquia de cidades maiores para cidades menores [23].

Mais que descrever o mercado de alimentos silvestres típico do oriente, pouco esforço foi gasto nas questões mais óbvias. Como o setor de alimentos exóticos chegou a poder vender seus produtos ao lado de animais mais tradicionais, no maior mercado de Wuhan? Os animais não estavam sendo vendidos na traseira de um caminhão ou em um beco. Pense nas permissões e pagamentos (e desregulamentação) envolvidos [24]. Muito além da pesca, os alimentos silvestres em todo o mundo são um setor cada vez mais formalizado, cada vez mais capitalizado pelas mesmas fontes que apoiam a produção industrial [25]. Embora nem próximo a semelhante na magnitude da produção, a distinção é agora mais opaca.

A geografia econômica sobreposta se estende desde o mercado de Wuhan até o interior, onde alimentos exóticos e tradicionais são criados em operações que fazem fronteira com a natureza selvagem – em retração pela devastação [26]. Na medida em que a produção industrial invade a última floresta, as operações de alimentos silvestres precisam avançar mais fundo para aumentar suas iguarias ou invadir as últimas reservas. Como resultado, o mais exótico dos patógenos, neste caso o SARS-2 hospedado em morcegos, encontra seu caminho em um caminhão, seja em animais para alimentação ou no trabalho de cuidar deles, e se projeta de uma extremidade de um longo circuito periurbano para a outra, antes de atingir um estágio global [27].

Infiltração

A conexão exige elaboração, tanto para nos ajudar a planejar para o futuro diante desse surto quanto para entender como a humanidade se manobrou para dentro para tal armadilha.
Alguns patógenos emergem diretamente dos centros de produção. Bactérias de origem alimentar, como Salmonella e Campylobacter, vêm à mente. Mas muitos vírus como o COVID-19 se originam nas fronteiras da produção de capital. De fato, pelo menos 60% dos novos patógenos humanos emergem transbordando de animais selvagens para comunidades humanas locais (antes que os mais bem-sucedidos se espalhem pelo resto do mundo) [28].

Um número de pesquisadores no campo da eco-saúde, alguns deles financiados pela Colgate-Palmolive e Johnson & Johnson, empresas que dirigem o limite sangrento do desmatamento liderado pelo agronegócio, produziram um mapa global com base em surtos anteriores de 1940, sugerindo onde novos patógenos provavelmente surgiriam e começariam a se disseminar [29]. Quanto mais quente a cor no mapa, maior a probabilidade de um novo patógeno surgir lá. Mas, ao confundir essas geografias absolutas , o mapa da equipe – em vermelho forte na China, Índia, Indonésia e partes da América Latina e África – perdeu uma variável crítica. O foco nas zonas de surto ignora as relações compartilhadas pelos atores econômicos globais que moldam as epidemiologias [30]. O interesse do capital em apoiar o desenvolvimento – e a produção – induziu mudanças no uso da terra e no surgimento de doenças em partes subdesenvolvidas do mundo, e recompensa esforços que atribuem a responsabilidade por surtos epidêmicos às populações indígenas e suas práticas culturais “sujas” [31]. Preparar carne de animais selvagens e enterros em casa são duas práticas a que se atribui culpa pelo surgimento de novos patógenos. Traçar geografias relacionais, ao contrário, transforma repentinamente Nova York, Londres e Hong Kong, principais fontes de capital global, em três dos piores hotspots do mundo.

Enquanto isso, as zonas de surto não são sequer organizadas sob políticas tradicionais. As trocas ecológicas desiguais – redirecionando os piores danos da agricultura industrial para o Sul Global – deixaram de apenas retirar os recursos das localidades através de um imperialismo liderado pelo Estado e passaram a novas complexidades em escala e produção[32]. O agronegócio está reconfigurando suas operações extrativistas em redes espacialmente descontínuas e em territórios de diferentes escalas [33]. Uma série de “repúblicas de soja” multinacionais, por exemplo, agora abrangem toda a Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil. A nova geografia é incorporada por mudanças na estrutura de gerenciamento empresarial, capitalização, subcontratação, substituições da cadeia de suprimentos, arrendamento e posses transnacionais de terras [34]. Ao ultrapassar as fronteiras nacionais, esses “países commodities”, incorporados de maneira flexível em ecologias e fronteiras políticas, estão produzindo novas epidemias ao longo do caminho [35].

Por exemplo, apesar de uma mudança geral na população de áreas rurais comoditizadas para favelas urbanas que continua hoje em todo o mundo, a divisão rural-urbana que impulsiona grande parte da discussão sobre o surgimento de doenças não leva em consideração a mão-de-obra rural e o rápido crescimento de cidades rurais em áreas periurbanas como desakotas (vilas da cidade) ou zwischenstadt (cidades intermediárias). Mike Davis e outros identificaram como essas paisagens recém-urbanizadas agem como mercados locais e centros regionais para a passagem de commodities agrícolas globais [36]. Algumas dessas regiões até ficaram “pós-agrícolas” [37]. Como resultado, a dinâmica das doenças florestais, as fontes primitivas dos patógenos, não é mais restrita apenas ao interior. As epidemiologias associadas a elas tornaram-se relacionais, sentidas no tempo e no espaço. Um SARS pode repentinamente se espalhar para os seres humanos na cidade grande, apenas a alguns dias depois de sair de sua caverna de morcegos.

Os ecossistemas de onde esses vírus “selvagens” vêm, controlados pelas complexidades da floresta tropical, estão sendo drasticamente consumidos pelo desmatamento promovido pelo capital e, no outro extremo do desenvolvimento periurbano, por déficits na rede pública de saúde e no saneamento ambiental [38]. Embora muitos patógenos silvestres estejam extinguindo junto a suas espécies hospedeiras ( como resultado do desmatamento), um subconjunto de infecções que antes se espalhavam relativamente rápido na floresta, mesmo que apenas por uma taxa irregular de encontros entre suas espécies hospedeiras típicas, agora está se propagando por populações humanas suscetíveis cuja vulnerabilidade à infecção é muitas vezes exacerbada nas cidades por programas de austeridade e regulamentação corrupta. Mesmo diante de vacinas eficazes, os surtos resultantes são caracterizados por maior extensão, duração e impulso. O que antes era um vazamento local agora é uma epidemia que atravessa as redes globais de viagens e comércio [39].

Por esse efeito de paralaxe – por simplesmente uma mudança no contexto ambiental – padrões antigos como Ebola, Zika, malária e febre amarela, evoluindo relativamente pouco, todos se transformaram rapidamente em ameaças regionais. De repente, eles passaram de transbordar para aldeões remotos de vez em quando para infectar milhares nas capitais. Em um outro aspecto ecológico, até os animais selvagens, rotineiramente reservatórios de doenças de longa data, estão sofrendo consequências. Suas populações estão fragmentadas pelo desmatamento, macacos nativos do Novo Mundo suscetíveis à febre amarela de tipo selvagem, aos quais foram expostos por pelo menos cem anos, estão perdendo a imunidade de rebanho e morrendo nas centenas de milhares [41].

Expansão

Se apenas por sua expansão global, a agricultura de commodities serve como propulsão e nexo através do qual patógenos de diversas origens migram dos reservatórios mais remotos para os centros populacionais mais internacionais [42]. É aqui e ao longo do caminho que novos patógenos se infiltram nas comunidades fechadas da agricultura. Quanto mais longas as cadeias de suprimentos associadas e maior a extensão do desmatamento adjunto, mais diversos (e exóticos) os patógenos zoonóticos que entram na cadeia alimentar. Entre os patógenos emergentes e reemergentes recentes de fazenda e de origem alimentar, originários de todo o domínio antropogênico, estão a peste suína africana, Campylobacter , Cryptosporidium , Cyclospora , Ebola Reston, E. coliO157:H7, febre aftosa, hepatite E, Listeria , vírus Nipah, febre Q, Salmonella, Vibrio, Yersinia e uma variedade de novas variantes da gripe, incluindo H1N1 (2009), H1N2v, H3N2v, H5N1, H5N2, H5Nx, H6N1, H7N1, H7N3, H7N7, H7N9 e H9N2 [43].

Por mais que não seja intencional, a totalidade da linha de produção capitalista é organizada em torno de práticas que aceleram a evolução da virulência patogênica e sua subsequente transmissão [44]. As monoculturas genéticas crescentes – animais de corte e plantas com genomas quase idênticos – removem os mecanismos corta-incêndio de imunidade que em populações mais diversas retardam a transmissão [45]. Patógenos agora podem evoluir rapidamente em torno dos padrões comuns de genótipos de imunidade dos hospedeiros. Enquanto isso, condições de aglomeração deprimem a resposta imune dos indivíduos[46]. Populações e densidades maiores de animais de fazenda facilitam uma maior transmissão e infecção recorrente [47]. O alto rendimento, parte de qualquer produção industrial, fornece um suprimento continuamente renovável de casos suscetíveis em celeiros, fazendas e em escala regional, removendo o limite da evolução da mortalidade por patógenos [48]. Alojar muitos animais juntos recompensa aquelas linhagens que podem se propagar melhor através deles. A redução da idade de abate – para seis semanas em galinhas – provavelmente seleciona patógenos capazes de sobreviver a sistemas imunológicos mais robustos [49]. O aumento da extensão geográfica do comércio e exportação de animais vivos aumentou a diversidade de segmentos genômicos que seus patógenos associados trocam, aumentando a taxa com que agentes de doenças exploram suas possibilidades evolutivas [50].

Mesmo a evolução dos patógenos avançando de todas essas formas, há, no entanto, pouca ou nenhuma intervenção, mesmo por demanda da própria indústria, exceto o necessário para resgatar as margens fiscais de um quarto da emergência repentina de um surto [51]. A tendência é de menos inspeções governamentais em fazendas e indústrias de processamento, legislação contra a vigilância governamental e exposição por ativistas e legislação contra a divulgação na mídia de informações específicas sobre surtos mortais. Apesar das recentes vitórias em processos contra a poluição por pesticidas e suínos, o comando privado da produção permanece inteiramente focado no lucro. Os danos causados pelos surtos resultantes são externalizados ao gado, lavouras, vida selvagem, trabalhadores, governos locais e nacionais, sistemas de saúde pública e sistemas agrários alternativos no exterior como uma questão de prioridade nacional. Nos Estados Unidos, o CDC relata que surtos de origem alimentar estão se expandindo em número de estados afetados e pessoas infectadas [52].

Ou seja, a alienação do capital está jogando a favor dos patógenos. Enquanto o interesse público é filtrado nos portões das fazendas e fábricas de alimentos, os patógenos pulam além da biossegurança que a indústria está disposta a pagar e devolver ao público. A produção cotidiana representa um lucrativo perigo moral se alimentando de nossa saúde pública.

Libertação

Há uma ironia reveladora em Nova York, uma das maiores cidades do mundo, protegendo-se contra o COVID-19 a um hemisfério das origens do vírus. Milhões de nova-iorquinos estão se escondendo em empreendimentos habitacionais recentemente supervisionados por uma Alicia Glen, que era até 2018 a vice-prefeita para habitação e desenvolvimento econômico em NY [53]. Glen é uma ex-executiva da Goldman Sachs que supervisionou a companhia de investimentos Urban Investment Group, que financia projetos de comunidades do tipo que as outras unidades da empresa ajudam a marcar[54].

Glen, é claro, não é pessoalmente responsável pelo surto, mas é mais um símbolo de uma conexão que bate mais perto de casa. Três anos antes da cidade contratá-la, após uma crise imobiliária e a Grande Recessão em parte criada por ela, seu ex-empregador, junto ao JPMorgan, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo & Co. e Morgan Stanley, assumiu 63% do financiamento federal emergencial de empréstimos [55]. O Goldman Sachs, livre de despesas gerais, passou a diversificar suas participações fora da crise. O Goldman Sachs adquiriu 60% das ações da Shuanghui Investment and Development, parte do gigante agronegócio chinês que comprou a Smithfield Foods, com sede nos EUA, o maior produtor de suínos do mundo [56]. Por US$300 milhões, também obteve a propriedade total de dez granjas de aves em Fujian e Hunan, uma província de Wuhan e bem dentro da bacia de alimentos silvestres da cidade [57]. Investiu até outros US$300 milhões ao lado do Deutsche Bank na criação de suínos nas mesmas províncias [58].

As geografias relacionais exploradas acima circularam todo o caminho de volta. Atualmente, existe uma pandemia que afeta os distritos eleitorais de Glen, apartamento por apartamento, em Nova York, o maior epicentro do COVID-19 dos EUA. Mas também precisamos reconhecer que o circulo de causas do surto se estendeu em parte a partir de Nova York, por menor que seja o investimento do Goldman Sachs em um sistema do tamanho da agricultura chinesa.

Apontar o dedo nacionalista e racista do “vírus da China” de Trump e do espectro liberal, obscurece as direções globais interligadas entre o estado e o capital [59]. “Irmãos inimigos”, como descreveu Karl Marx [60]. As mortes e o dano infligido aos trabalhadores no campo de batalha, na economia e agora em seus sofás lutando para recuperar o fôlego, manifestam tanto a competição entre as elites, que manobram por recursos naturais finitos, quanto os meios compartilhados de dividir e conquistar a massa da humanidade presa nas engrenagens dessas maquinações.

De fato, uma pandemia que surge do modo de produção capitalista e que se espera que o Estado administre, de um lado, mas por outro pode oferecer uma oportunidade da qual os gerentes e beneficiários do sistema possam prosperar. Em meados de fevereiro, cinco senadores dos EUA e vinte membros da Câmara despejaram milhões de dólares em ações mantidas pessoalmente em indústrias que provavelmente serão danificadas pela pandemia que se aproxima [61]. Os políticos basearam suas trocas internas em informações não públicas, mesmo que alguns dos representantes continuassem a repetir publicamente fraseologias governamentais de que a pandemia não representava tal ameaça.

Além de tais balbúrdias repugnantes, o estado de corrupção é sistêmico, um marcador do fim do ciclo de acumulação dos EUA quando o capital começa a sumir.

Há algo comparativamente anacrônico nos esforços para manter a máquina girando, mesmo se organizados na ideia de elevar as finanças acima da realidade das ecologias primárias (e epidemiologias relacionadas) nas quais se baseia. Para o próprio Goldman Sachs, a pandemia, como as crises anteriores, oferece “espaço para crescer”:

Compartilhamos o otimismo de vários especialistas em vacinas e pesquisadores de empresas de biotecnologia com base no bom progresso que foi feito em várias terapias e vacinas até o momento. Acreditamos que o medo diminuirá na primeira evidência significativa de tal progresso […] Tentar negociar para uma possível meta negativa, quando a meta de final de ano for substancialmente mais alta, é apropriado para os comerciantes diários, seguidores do momento e alguns gerentes de fundos hedge, mas não para investidores de longo prazo. De igual importância, não há garantia de que o mercado atinja os níveis mais baixos que possa ser utilizada como justificativa para a venda hoje. Por outro lado, estamos mais confiantes de que o mercado acabará atingindo a meta mais alta, dada a resiliência e a preeminência da economia norte-americana.
E, finalmente, pensamos que os níveis atuais oferecem uma oportunidade de aumentar lentamente os níveis de risco de um portfólio. Para aqueles que estão sentados com excesso de caixa e têm poder de permanência com a alocação estratégica correta de ativos, este é o momento de começar a aumentar gradualmente as ações da S&P” [62].

Chocadas com a carnificina em curso, pessoas de todo o mundo tiram conclusões diferentes [63]. Esses circuitos de capital e produção, que os patógenos marcam como etiquetas radioativas, um após o outro, são considerados inconcebíveis.

Como caracterizar tais sistemas além do episódico e circunstancial, como fizemos acima? Nosso grupo está no meio de derivar um modelo que supera os esforços da medicina colonial moderna encontrada na eco-saúde e na One Health, que continua a culpar os pequenos agricultores indígenas e locais pelo desmatamento que leva ao surgimento de doenças mortais [64].

Nossa teoria geral do surgimento neoliberal de doenças , incluindo, sim, na China, combina:

  • circuitos globais de capital;
  • implantação do referido capital, destruindo a complexidade ambiental regional que mantém o crescimento da população de patógenos virulentos sob controle;
  • os aumentos resultantes nas taxas e na amplitude taxonômica dos eventos de transbordamento;
  • os crescentes circuitos periurbanos de mercadorias que transportam esses patógenos recém-derramados sobre o animal e o trabalhador, do mais profundo interior às cidades regionais;
  • as crescentes redes globais de transporte (e comércio de gado) que enviam os patógenos dessas cidades para o resto do mundo em tempo recorde;
  • as maneiras como essas redes reduzem o atrito de transmissão, selecionando para a evolução de patógenos de maior mortalidade nos animais e nas pessoas;
  • e, entre outras imposições, a escassez de reprodução local no gado industrial, removendo a seleção natural como um serviço de ecossistemas que fornece proteção contra doenças em tempo real (e quase gratuita).

A premissa operacional subjacente é que a causa do COVID-19 e de outros patógenos não se encontra apenas no objeto de qualquer agente infeccioso ou em seu curso clínico, mas também no campo das relações ecossistêmicas que o capital e outras causas estruturais impediram para sua própria vantagem [65]. A grande variedade de patógenos, representando diferentes taxonomias, hospedeiros de origem, modos de transmissão, cursos clínicos e resultados epidemiológicos, todos os indicadores que direcionam nossos olhos arregalados para os nossos motores de busca a cada surto, marcam diferentes partes e caminhos ao longo dos mesmos tipos de circuitos de uso da terra e acumulação de valor.

Um programa geral de intervenção é executado em paralelo muito além de um vírus em particular.

Para evitar os piores resultados daqui em diante, a desalienação oferece a próxima grande transição humana: abandonar as ideologias dos colonos, reintroduzir a humanidade nos ciclos de regeneração da Terra e redescobrir nosso senso de individuação em multidões além do estado do capital [66]. No entanto, o economismo, a crença de que todas as causas são apenas econômicas, não será suficiente. O capitalismo global é uma hidra de muitas cabeças, apropriando-se, internalizando e ordenando múltiplas camadas de relação social [67]. O capitalismo opera em terrenos complexos e interligados de raça, classe e gênero no curso da atualização dos regimes regionais de valor.

Correndo o risco de aceitar os preceitos do que a historiadora Donna Haraway rejeitou como história da salvação – “podemos desarmar a bomba a tempo?” – a desalienação deve desmantelar essas múltiplas hierarquias de opressão e as formas específicas de localidade em que interagem com a acumulação [68]. Ao longo do caminho, devemos sair das reapropriações expansivas do capital através de materialismos produtivos, sociais e simbólicos [69]. Ou seja, para fora do que se resume em um totalitarismo. O capitalismo mercantiliza tudo – a exploração de Marte aqui, o sono ali, lagoas de lítio, reparo de ventiladores, até a própria sustentabilidade, e assim por diante, essas muitas permutações são encontradas muito além da fábrica e da fazenda. Todas as maneiras pelas quais quase todo mundo está sujeito ao mercado, que durante um tempo como esse é cada vez mais antropomorfizado pelos políticos, não poderiam ser mais claras [70].

Em suma, uma intervenção bem-sucedida, que impeça de matar um bilhão de pessoas qualquer um dos muitos patógenos que estão na fila do circuito agroeconômico, deve entrar na arena de um confronto global com o capital e seus representantes locais, por mais que qualquer soldado individual da burguesia, Glen entre eles, tente mitigar os danos. Como nosso grupo descreve em alguns de nossos trabalhos mais recentes, o agronegócio está em guerra com a saúde pública [71]. E a saúde pública está perdendo.

No entanto, se a maioria da humanidade vencer tamanho conflito de gerações, podemos voltar a um metabolismo planetário que, embora expresso de maneira diferente de um lugar para outro, reconecte nossas ecologias e nossas economias [72]. Tais ideais são mais do que questões utópicas. Ao fazer isso, convergimos para soluções imediatas. Protegemos a complexidade da floresta que evita que patógenos mortais alinham os hospedeiros em linha para dentro de uma rede mundial de viagens [73].

Reintroduzimos a diversidade de animais e culturas, e reintegramos animais e culturas agrícolas em escalas que impedem que os patógenos aumentem em termos de virulência e extensão geográfica [74]. Permitimos que nossos animais se reproduzam no local, reiniciando a seleção natural que permite que a evolução imunológica rastreie patógenos em tempo real. Em termos gerais, paramos de tratar a natureza e a comunidade, tão cheias de tudo que precisamos para sobreviver, como apenas mais um concorrente a ser expulso pelo mercado.

A saída é nada menos do que dar luz a um mundo (ou talvez mais no sentido de retornar à Terra). Também ajudará a resolver – de mangas arregaçadas – muitos dos nossos problemas mais prementes. Nenhum de nós presos em nossas salas de estar de Nova York a Pequim, ou, pior ainda, lamentando nossos mortos, quer passar por um surto assim novamente. Sim, as doenças infecciosas, que na maior parte da história humana foram nossa maior fonte de mortalidade prematura, continuarão sendo uma ameaça. Mas, dado o bestiário de patógenos atualmente em circulação, com piores transbordamentos quase anuais, provavelmente estaremos enfrentando outra pandemia mortal em um tempo muito mais curto do que a pausa de cem anos desde 1918. Podemos ajustar os fundamentos dos modos pelos quais nos apropriamos da natureza e chegar ao que seria uma trégua com essas infecções?

Traduzido por: Caio Reis

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Max Roser, Hannah Ritchie, e Esteban Ortiz-Ospina, “Coronavirus Disease (COVID-19)—Statistics and Research,” Our World in Data, acessado em 22 de março, 2020.
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