O coronavírus e o poder das mídias. Por Douglas Kovaleski

Por Douglas F. Kovaleski para Desacato. info.

No texto dessa semana trato da histeria causada pela epidemia do coronavírus. Histeria coletiva que não se justifica de forma alguma pela letalidade (capacidade de matar), pelo potencial de contágio, pela patogenicidade do vírus. O coronavírus só causa algum dano, incluindo aí mortes, quando soma-se a comorbidades (doenças existentes antes do contágio pelo vírus). Seu potencial de criar qualquer dano para as pessoas é baixíssimo, a menos que a pessoa já esteja doente. Comparado à gripe comum o coronavírus não causa alarme, pois ele mata menos.

Mas apesar desse quadro epidemiológico controlado, as notícias atuam no sentido do pânico, orientações infundadas circulam de várias maneiras, como: evitar locais com aglomerações de pessoas, ficar em casa ou até mesmo recomendações para que as atividades de ensino sejam transferidas para aulas à distância. Mas a histeria coletiva não encontra limites: ontem, a Itália se tornou o primeiro país a entrar inteiramente em quarentena por causa do novo coronavírus. O número de casos chegou a 9 mil, com 5.120 pacientes internados e 463 mortes. A Itália tornou-se zona protegida, nas palavras primeiro-ministro Giuseppe Conte. Além de orientar as pessoas que fiquem em casa, o primeiro-ministro, faz um apelo nacionalista responsabiliza os cidadãos pela contenção da epidemia. Um exagero sem precedentes. Afinal toda doença infecto-contagiosa seguirá uma trajetória de aumento do contágio em um primeiro momento para posteriormente estabilizar e em seguida diminuir, na medida que vai se adquirindo conhecimento sobre a doença e as medidas adequadas vão sendo tomadas.

Foram suspensas as aulas, as atividades culturais, missas, casamentos, funerais e eventos esportivos. Restaurantes, bares e cafés só podem funcionar até 18h. Lojas podem abrir, desde que tenham condições de garantir uma distância mínima de um metro de distância entre os clientes. As visitas às prisões foram proibidas.

No Brasil, o total de casos do coronavírus chegou a 30. Todos os doentes visitaram países como Itália, Portugal e Espanha recentemente, estão em isolamento domiciliar e apresentam quadro estável. O que deixa muito claro que, apesar da intenção dos oligopólios midiáticos de superestimar o quadro real, a realidade vem demonstrando que o coronavírus não tem tanta relevância.

Mas quais as intenções dessa propagação do caos? Como venho comentando nesta coluna, o modo de produção capitalista vive uma crise sem precedentes. Com um quadro de desigualdades sociais abissais, o capital tem sérias dificuldades para manter-se com a vitalidade de outrora. Uma grande quebradeira de empresas se prepara para acontecer, isso como um dos efeitos da crise do capital. O coronavírus veio para demonstrar a fragilidade que o capital se encontra ou ainda, para segurar a bolha da crise por mais algum tempo.

Nesse período de crise estrutural do capitalismo, as pequenas crises agudas se tornarão cada vez mais frequentes e incontroláveis, o humor do “deus” mercado passou a ser decisivo para qualquer decisão seja de empresas ou de governos. A classe trabalhadora viverá tempos ainda mais difíceis nesses próximos anos, mas uma coisa é certa: o capitalismo não é a única forma de vida e está a cada dia mais próximo do seu fim.

Numa perspectiva histórica, é necessário aproveitar as oportunidades que o capitalismo nos fornece de educar a classe, demonstrando, sob um olhar de classe, as fragilidades, os limites e a inviabilidade humana, social e ambiental inerente ao capitalismo. Depois dessa constatação resta a tarefa de preparar a transição para um outro modo de vida baseado no comum, numa sociabilidade solidária e em valores que priorizem as pessoas e o bem viver.

Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos sociais.

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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