O Chefinho – Negócios. Por Guigo Ribeiro

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

O Chefinho chegou cedo ao escritório. Como de costume, café e sites de fofoca. Claro,
redes sociais. Em ócio, caminhava pelas 8 horas vigentes em contrato. Por ser chefe,
sabemos, não tinha cobrança. Não era dono, mas era filho do dono e assim se achava
Deus. Vez ou outra, alguém o avisava sobre suas responsabilidades no dia. Sempre o
Chefinho pegava essas responsabilidades e terceirizava. As respostas de e-mail eram
para o gerente. A avaliação de metas, coordenador. Uma mamata que, por certo, nunca
acabaria. Raramente era interrompido em sua estadia na cadeira confortável. Raramente
algum evento o obrigava a tirar os pés de cima da mesa. Até o café ele telefonava para
trazerem, oras. Um vidão. Raramente trabalhava. Na verdade, trabalhava para mostrar
que era chefe. Disso ele gostava.
Ali, com a bunda na cadeira e os pés em cima da mesa, o Chefinho recebeu uma ligação
da secretária:

– Bom dia. Os investidores já chegaram e estão aguardando na sala de reunião. A equipe
está em seu aguardado para entrarem juntos. Como está bastante atrasado, precisei te
ligar.
– Reunião? Que reunião? – confuso.
– Os investidores. Chegaram no Brasil ontem. Está na sua agenda, senhor. – levemente
irritada.
– Chegaram no Brasil? Estrangeiros? – com os olhos brilhando.
– Sim. A equipe te aguarda… – interrompida.
– Dispense a equipe! Quero fechar esse negócio sozinho.
– Mas… senhor… os investidores aguardam a equipe e… – novamente interrompida.
– Chegaram… Brasil… nossa, pai. Que amor! Estrangeiros! Dispense a equipe. Bom dia.
– desligando.

A secretária desligou e comunicou os demais a súbita decisão do Chefinho. Houve
consenso:

– Esse escroto vai fazer merda!

No caminho, o Chefinho se lembrou que nunca havia participado de uma reunião dessa
magnitude. Então ficou preocupado. Depois se lembrou que era chefe e a preocupação
passou. Entrou no elevador e foi tomado por algumas emoções. Primeiro ficou bravo
por imaginar que seria algum esquerdopata propondo parcerias para ampliação nos
investimentos da educação ou patrocínio para olimpíadas disso e daquilo.

– Se for, invento uma caganeira e sumo. – decidiu.

Depois ficou um pouco desapontado. Lembrou-se que pesquisaria seu destino futuro de
viagem e a tal reunião o atrapalhou.

– Se não for sobre praia, sumo.

Mais alguns instantes e o Chefinho foi tomado por um riso bobo, fácil. Uma alegria
adolescente frente ao primeiro amor:

– Será que é o Trump?  Se for, meu Deus, que besteira ter abdicado das aulas de inglês
que papai tanto insistiu pra eu fazer… mas vou dizer que o amo.  I love you, mister.

Essa tal felicidade acompanhou o Chefinho até a porta da sala de reunião. Aí ficou em
choque. Homens engravatados falavam inglês. E nenhum era o Trump.

– Boss… hello… ah… foi. Bom dia. Sou Peterson e me preparei para esse encontro
estudando um pouco de português. Cadê sua equipe?

O Chefinho não definiu estratégia para esse caso e teve que ficar.

– Estão ocupados. Mas vim. Eles não são tão competentes. Podemos começar?

Os investidores fizeram um constrangido sim e a reunião seguiu com Peterson como
linha de frente:

– Ficamos felizes com esse encontro. A nossa proposta consiste em modernizar sua
empresa. Deixe-me apresentar nosso projeto. Como bem sabe,  os robôs são o futuro.
Através deles, merdas são propagadas, anúncios têm maior alcance e um lunático
ganhou a eleição. Certo?

O Chefinho estava distraído, mas voltou ao assunto no "certo" e disse que sim.

– Pois bem. Nosso projeto é tornar essa empresa uma empresa inteira de robôs. A
produção ficaria sob a responsabilidade de máquinas e os únicos contratados seriam
você e outros poucos. Sendo uma demissão em massa, você prepara o terreno para a
saída e desgasta a relação durante o aviso prévio. A chance de uma economia com justa
causa é real.

O Chefinho adorou a ideia e quis saber mais.

– Traremos as máquinas,  faremos a programação e assinamos um contrato de
porcentagem. Ah… colocamos uma bandeira nossa no topo do prédio.

O Chefinho amou. Mas não a expansão dos negócios. E sim a ideia dos robôs.

– Eu quero. Eu quero robôs aqui. Já imaginou eles salvando o dia, lutando contra
inimigos e opositores. Quero poder voar com eles e salvar mulheres de prédios em

chamas.  Podemos até botar fogo. Como o amigo do papai faz na Amazônia. Eu quero.
Eu quero.

– Senhor… não.  O robô que falo é na linha de produção e… – interrompido

– Eles podem ter as cores do Brasil? Fotos do Sergio Moro? Por favor… – levantando da
cadeira e simulando um voo de robô.

Os investidores ficaram um tanto assustados.

– Senhor, se acalme. Por favor!

E o Chefinho cantando.

Robô,  por favor
Seja o meu amor

Por mais alguns minutos a confusão seguiu. Cientes da impossibilidade de concretizar o
negócio e explicar o projeto,  se despediram do Chefinho dentro do que a conjuntura
permitia: foram saindo. E o Chefinho simulando voo.

– Voar, mandar. Eu sou o robô.  Doutor robô.  Venham amanhã para assinarmos. E diz
pro Trump que eu amo ele! AMOOOOOOOO!

Os investidores nunca voltaram.

 

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Gostou? Mês que vem tem mais. Até lá.

 

 

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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