O Chefinho – Na Farra. Por Guigo Ribeiro

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Guigo Ribeiro

Na vida do Chefinho, o rio férias desembocou no mar carnaval. O mundo voltava
lentamente aos afazeres enquanto contabilizava os cálculos amorosos dos dias de festa,
as risadas, bebedeiras, atualizavam status de relacionamento nas redes sociais e varriam
o restante da folia para uma caixa que guardada até o próximo ano. O Chefinho
mantinha o mesmo fluxo como se a coisa acabasse de começar.
De bloco em bloco. De bar em bar. De viagem em viagem, hotel em hotel. A vida
vivida intensamente como só quem é suficientemente burguês consegue. O Chefinho
aproveitava os dias e simplesmente se esqueceu da empresa que se pai o ordenou
conduzir. A folia cantava mais forte em seu peito. Tal como qualquer outra coisa.
Escolheu cuidadosamente sua fantasia e resolveu não ser só engraçado, mas prestar uma
sincera homenagem ao seu herói: o juiz “herói” parça e sócio de miliciano. E nas vestes
propostas, achou como bom caminho ser um herói de carnaval. Facilitaria o flerte e não
precisaria falar muito. Claro, isso na sua cabeça. Avistou uma moça abrindo uma lata de
cerveja e ofereceu ajuda sob a justificativa de mãos fortes o suficiente para “tornar a
bebida ainda melhor”. Foi elegantemente ignorado. Persistente, fingiu voar e parou na
frente da moça insistindo na proeza. A moça riu e mandou ele para um lugar pouco belo
de ser escrito aqui. Constrangido, avisou que salvaria outro mundo.
Ouviu a bateria soar cada vez mais forte e dançou. Sempre imitando os movimentos de
seus heróis dos desenhos animados. Viu uma moça com os olhos cor de mar e iniciou
nova tentativa:

– Moça. Me ajuda! Me ajuda, por favor.
– Herói pedindo ajuda? – entendo a intenção e achando a fantasia do Chefinho
constrangedora.
– Sim. Seus olhos são como o mar e tô me afogando. Me ajuda!
– Desculpa. Não consigo. Mas pede dinheiro pro seu pai e compra umas boias de
patinho. Naquela loja vende. – se retirando elegantemente.

O Chefinho, triste, disse para se ouvir:

– Salvarei outro mundo!

Na folia, resolveu postar uma foto do momento e, no instante em que seu celular estava
em suas mãos, recebeu a tão terrível ligação:

– Papai, eu volto logo! Me deixa curtir a vida. Que saco! – fazendo biquinho.
– Meu menino… ninguém folgou…demos ordens explicitas para que ninguém parasse….
como pode estar fazendo isso? Avisamos que caso a meta não fosse alcançada, faríamos
demissões em massa. Você…
– Diga que estou de férias! E que tenho direito!
– Desde dezembro?
– O ano começa depois do carnaval, tá? É lei!
– Impossível! Eles te olham nas redes sociais…
– Tudo invejoso!
– Terei de cortar sua mesada desse jeito…
– Eu saio de casa, sumo pra longe. Nunca vi um pai não querer o bem do filho. Eu hein!
– Tá bom! Sem decisões abruptas!
– O que é “aruvita”?
– Filho… cuidado aí! Vou ver o que faço!
– Te amo, papai!

Fez a foto. Apagou. Fez de novo e apagou. Tentou 17 vezes e achou a que gostou:

– Meu papai me estressa muito, poxa!

Saiu dançando ridiculamente e se interessou em fazer amizade com uns bêbados.
Considerou que a ação masculina em grupo seria mais eficaz. Deu oi, sentou e disse que
a rodada era dele. Os bêbados adoraram. E criam um vínculo forte.

– Meu pai nem sabe aonde tô. Nem eu! Vai ficar doido com a fatura! – bêbado 1.
– O meu tá bravo, mas sabe que não tenho jeito. Vou fazer um agrado e dar uma volta
com ele dia 15. – bêbado 2.
– Caramba! É verdade! Você vai? Eu vou! Acho que vai ter umas gatinhas. – bêbado 3.
– Eu vou também! Já tô até vestido. – disse o Chefinho.

Os bêbados aplaudiram o Chefinho. Farrearam mais um tanto, se seguiram nas redes e a
noite chegou. O Chefinho entendeu que era hora de voltar e foi. Triste por não ter
conseguido aumentar sua lista amorosa carnavalesca, mas feliz pelos brothers. Amizade
é tudo.
Em casa, tirou a fantasia cuidadosamente e colocou no armário. Passou pelo quarto do
pai e viu o sono profundo que estava. Voltou e pegou o pijama. Achava lindas as listras
brancas, azuis e vermelhas. Em uma última olhada para a fantasia do herói, sentiu
saudade e tristeza.

– Ano que vem tem mais…

Deitou e, antes que o sono o tomasse, teve uma ideia e vestiu a euforia. Correu para o
quarto do pai:

– Papai! Papai acorda! Tenho uma ideia pra empresa. E se todo dia fosse carnaval e todo
mundo usasse uniforme de herói da milícia?

 

 

 

 

Gostou? Mês que vem tem mais “O Chefinho”.

Até lá.

_

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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