O Chefinho – As Férias. Por Guigo Ribeiro

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

O Chefinho ficava empolgado em dezembro. Lembrava com carinho das viagens para o estrangeiro. De pequeno aos dias de hoje. Sempre, sempre ria ao ponto de urinar na calça do costume de jogar sorvete no Mickey nas idas à Disney. O riso bobo ao zombar do jeito que os japoneses falam em Tóquio. O boneco de gelo feito no último inverno em Nova Iorque e a grande sacada de colocar uma mamadeira de piroca como nariz. Os franceses e o biquinho que fazia ao zombar deles. A tentativa frustrada de urinar na Torre Eiffel. E assim vai. A quase briga ao provocar os presentes desfilando por ruas argentinas com a camisa amarela do Brasil e gritando qualquer coisa. Se safou por virar piada ao constatarem o 17 com “Mito” grafado.

De lembrança em lembrança, o Chefinho olhou o calendário e sorriu ao imaginar para onde a vida o levaria naquele ano. Breve olhada nos destinos, pegou o telefone para dúvidas:

– Moça do RH, quando eu posso sair de férias? Dia 20?

– Desculpe, senhor. É necessária verificar a data que iniciou na empresa. Pode me informar? – ciente que ele não tinha direito.

– Desde que nasci. Meu pai me traz desde pequeno…

– Não, senhor. Digo de sua contratação.

– Ah… meio do ano…

– Entendi. A empresa não dispõe de férias coletivas. E o tempo do senhor não oferta férias para o agora.

O Chefinho ficou mudo diante do imenso abismo de não usar o passaporte. Depois se lembrou que era chefe:

– Então vou tirar mesmo assim, tá? Hunf! – emburrado.

– Compreendo. Estamos com um volume bastante atrasado. E não podemos lhe conceder esse direito. Desculpe.

O Chefinho riu:

– Então vou falar com o meu pai e ninguém vai tirar também.

– Senhor, ninguém vai tirar! O senhor assinou semana passada a ordem de cancelamento de férias previstas até junho.

– Foi? Falo que não assinei,.

– Não é possível. O documento já foi protocolado, senhor.

– Vou chorar, hein. – fazendo bico.

– Senhor…

O Chefinho largou o telefone e rodou pela sala prestes ao choro. Era inadmissível não passar férias em outro país. Era o fim da picada. Pensou em um atestado de um mês e desistiu. Como falar que está doente e viajar? Saberiam pois como viajar sem postar nas redes?  Saiu da sala e encontrou o gerente geral.

– Por que não tenho férias?

– Chefinho… você acabou de entrar. – sem jeito.

– Mas eu quero!

– Pois é. Nessa correria toda, não é? – escancaradamente irônico.

– Sim. Você pode me dar férias?

O sujeito riu e se despediu. E o Chefinho sem rumo. Nas próximas horas rodou pelos andares com o mesmo discurso. Em dado momento, todos sabiam da sua tristeza. E vê-lo assim fez bem para a produção. O Chefinho é um escroto!

Chegando o fim do expediente, o Chefinho teve uma ideia. Pediria que alguém desse as férias para ele.

– Mas senhor… todas férias estão canceladas! Eu falei pro senhor, lembra? – colocando um leve riso para suavizar.

Quase derrotado, sentou de frente para o computador olhando a tela com os anúncios. Pegou o telefone e discou:

– Quero saber sobre a Austrália…

– Você já esteve lá, filhote. Você tá bem?

– Não, papai. Não posso tirar férias!

– Sim… você acabou de entrar, meu menino.

– Não é justo! Não é! Não é! E não é! – mimado.

– É a vida e sua maturação.

– Papai… por favorzinho.

Pai é (às vezes) pai. E só quer (às vezes) o melhor do filho.

– Vai ser importante para você! Melhore os resultados e quem sabe…

– Eu vou demitir todo mundo!

– Filho… sem birra! Por favor.

– Eu vou pagar direitos, hein. Tudo certinho!

– Detesto quando faz birra!

– Vou falar que quero o Lula livre…

– Tá! Chega! Pega o tempo que quer e vá. Tempo que quer não. Volta no máximo em fevereiro.

– Te amo muito, paizinho. – desligando.

E lá foi. Estava cansado de acordar cedo. Sentia falta de viver por aí. Se deu férias naquele momento. O pai articulou tudo. O Chefinho só teve o trabalho de escrever um aviso e deixar na porta:

VOLTO LOGO. PRODUZAM!

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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