“O capitalismo como pecado.” – Discutindo sobre fé e política

Por Gustavo Ruwer.

No último sábado (13), aconteceu no Instituto de Psicologia da UFRGS a palestra “Fé e Política na América Latina: Teologia da Libertação e Camilo Torres”, evento organizado pelo Coletivo Abrigo. O encontro debateu sobre as relações entre fé e política, dois temas que, para o senso comum, aparentemente não se misturam, mas que analisando a realidade histórica e social da América Latina são praticamente inseparáveis.

Foto: Poliana Einsfeld.

O encontro contou com a presença da antropóloga colombiana Luz Ángela Rojas, autora do livro “Camilo Torres Restrepo Polifonías del Amor Eficaz”. O livro conta sobre a vida e obra do padre, sociólogo e militante colombiano, importante referência de luta na América Latina. Esteve presente também o teólogo Tiago Santos, que participa do Coletivo Abrigo. Tiago fez um resgate histórico sobre a conjuntura latino-americana, fazendo uma conexão entre os temas da fé e da política.

Camilo Torres: provando que não há contradição entre ser cristão e ser revolucionário

Camilo Torres foi um sociólogo, cristão e militante político entre os anos 1950 e 1960 na Colômbia. Ele construiu o Frente Unido, uma articulação que reuniu jovens, mulheres, homens, cristãos, camponeses e trabalhadores. Nos seus últimos anos de vida, num contexto de muita repressão acabou ingressando no Exército de Libertação Nacional (ELN), onde acaba morrendo, deixando um grande legado na América Latina como precursor da teologia da libertação e da pesquisa-ação participativa.

Um amor eficaz para criar poder popular

Camilo desenvolveu o conceito de “amor eficaz”, uma perspectiva solidária que confronta a ideia do amor capitalista, explica Luz:

“O amor é sempre compreendido como uma categoria muito individual, só de dois, agora três, mas não como uma perspectiva da sociedade, mais humanista. O amor eficaz é um amor para a sociedade. Só falar isso é também confrontar o capitalismo, que vai falar da individualidade, nós propomos um amor, mas um amor revolucionário.”

Através dessa perspectiva coletiva, com o Frente Unido, Camilo defendeu a construção de um poder popular, construído de baixo para cima mas que também tenha capacidade de se infiltrar nas instituições.

A gente faz a revolução aqui agora com um projeto desde as e feito pelas comunidades. Esse é poder popular que também vai falar Camilo. A gente não precisava que o governo deixasse eles participarem, com o Frente Unido a gente vai participar, a gente não precisava pedir licença pro governo pra fazer transformações na realidade, a gente vai fazer todo tempo isso.”

Foto: Poliana Einsfeld

O capitalismo como pecado: um novo paradigma

Tiago explica que a palavra pecado no hebraico significa “errar o alvo”. Para a teologia da libertação, a missão, “o alvo” da igreja passa por libertar os oprimidos de sua condição de opressão e promover a justiça social.

O pecado, dentro dessa perspectiva de teologia da libertação, é justamente errar esse alvo, e deixar de fazer essas coisas. Então, é um novo paradigma de pecado. Daquele que as pessoas sempre ouviram, da culpa, ou um pecado sempre ligado a questões morais, questões da sexualidade.

“A esquerda começa sua formulação no Brasil com as bases da Igreja”

Tiago ressalta a importância da esquerda brasileira resgatar o diálogo com as teologias progressistas, como a teologia da libertação e a teologia da missão integral. Destaca o papel de pastores como Henrique Vieira e Ariovaldo Ramos como aliados políticos para essa retomada.

“É necessário que a gente volte a sentar na mesma mesa e volte a dialogar, porquê se não a gente vai ver a direita conservadora avançando fazendo o uso do nome de Deus e do nome de Cristo para pregar o ódio.”

Quando questionada sobre qual mensagem Camilo deixaria para o contexto atual brasileiro, Luz destaca a importância de uma “ética cristã” e de uma “academia comprometida”.

“As vezes temos uma academia muito neutra, uma academia que procura uma “objetividade” e a verdade Camilo sempre falou de uma academia comprometida, quem sabe seja através da ética cristã mas também da pergunta qual o papel do pesquisador. Qual o papel dos estudantes? Só melhorar a ingressos sociais ou ajudar e retribuir  a sociedade que ajudou ele a estudar?”

O Coletivo Abrigo é uma comunidade cristã ecumênica que surgiu em Porto Alegre em 2015 está presente também na cidade de Rio Grande. O coletivo é parceiro dos Objetivos Globais da ONU e busca a promoção de sociedades pacíficas e inclusivas, no acesso à justiça para todas e todos e na formação de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.

Foto: Poliana Einsfeld

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