O burro à frente da cenoura

Publicado em: 24/08/2011 às 21:41
O burro à frente da cenoura

Por Raul Longo.

Recebo da querida correspondente Maria Rodrigues de Fortaleza essa postagem do Rodrigo Viana no Conversa Afiada mantida aí abaixo. Não tenho o que comentar sobre o já comentado pelo Rodrigo e que por si se explicita e revela, mas penso que mereça consideração uma das frases reproduzidas ao final da mensagem, não sei se incluídas pela Maria ou pelo pessoal do grupo “Amigas do Franklin”.

Trata-se de uma afirmação de um dos patronos da atividade jornalística mundial: o Joseph Pulitzer. Me provocou a necessidade de reflexão porque esse húngaro naturalizado estadunidense é o pai do jornalismo moderno.

Se a imprensa do mundo hoje é o que é, foi porque Pulitzer a fez ser assim e para compreender a importância desse nome para todos que exercem a atividade, basta saber que o Prêmio Pulitzer corresponde ao Nobel do jornalismo. Portanto, evidente que não serei eu a discordar do Mestre quando afirma:“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”

Indiscutivelmente Pulitzer tinha toda razão, mas no caso brasileiro me faz reportar a uma consideração de anos atrás por um querido primo que vive no Rio de Janeiro. Na percepção daquele primo o Brasil é a grande comprovação de que o anarquismo é possível e pode dar certo, posto que se conseguimos, como povo, manter esse país apesar da desordem promovida durante 500 anos por elites tão canalhas, imagine-se o que faríamos se não tivéssemos governos e elites para bagunçar!

Daí a lembrança do verso da música do Milton Nascimento: “Um país onde o povo é mais sábio que seus governantes”. Se a frase não é do Milton, é  por ele interpretada numa música que não lembro o título, mas contradiz o recorrente axioma de que “cada povo tem o governo que merece”.

Mesmo quando George Bush foi reeleito não concordei com os amigos que então ressaltaram aversão ao povo dos Estados Unidos refutando minha discordância ao julgamento, tentando me convencer de que “os americanos são mesmo idiotas prepotentes que se creem donos do mundo”.

Os estadunidenses, como qualquer outro povo, resultam de um processo de condicionamento de massas, conforme alertou Pulitzer. E o exemplo do povo alemão, igualmente condicionado ao nazismo por Joseph Goebbels, é uma demonstração de que tais processos não são irreversíveis.

O desmonte do condicionamento nazista se deu através do terrível sofrimento dos alemães e a vergonha que ainda hoje carregam e carregarão por muitos anos. O do povo estadunidense, certamente não será mais ameno. Mas os brasileiros vêm tendo maior sorte e se pode observar isso desde o final da ditadura militar quando se tentou implantar, aqui, o mesmo sistema utilizado naquelas potências do hemisfério norte.

Acontece que o condicionamento de massas no Brasil se limitou à degradação do sistema de ensino público, promoção do consumismo entre determinadas classes sociais e monopolização dos meios de comunicação social por alguns poucos empresários do ramo ou nele ingressos como atividade paralela consorciada a outros interesses internacionais.

Insuficiente.

Insuficiente porque as elites erroneamente se convencerem de que deixando meia dúzia de oligarcas da mídia se incumbir de justificar a truculência das armas, a merda de país em que se vivia se douraria como o melhor dos mundos, quase que igual aos Estados Unidos da “Maioria Silenciosa”, faltando pouco para uma versão tropical do “Sonho Americano” já satirizado pelo Charles Chaplin desde o cinema mudo.

Se então Chaplin não conseguiu alertar os estadunidenses do engodo com que se os enredavam e os sanduíches do MacDonald’s tiveram maior participação na formação da consciência do povo dos Estados Unidos do que as geniais metáforas cinematográficas do pequeno inglês que inventou o cinema daquele país, tampouco os diários do húngaro que os ensinou a fazer jornal; a culpa não é dos dois nem do povo norte-americano. É de quem insistiu no insistir da mentira que resultou neste presente que Marx também previu.

Aprenderam mal, mas assim mesmo, lá, os donos do sistema sabiam que não adianta apenas pôr a cenoura na frente do burro para que trote sempre mais rápido, pois se nunca derem, de fato, uma cenoura; por mais instinto que tenha o animal acabará não entendo do que se trata aquele cone rosado.

Foi o que aconteceu quando a classe média brasileira cansou de puxar a carroça a troco de nada e saiu às ruas dos grandes centros do país pedindo pela redemocratização. A meia dúzia de donos de empresas de comunicação fizeram de conta de que nada acontecia, mas a carroça estava irremediavelmente atolada e o burro empacou naquela coisa de Movimento das Diretas Já.

Pavlov explicaria, mas não teve outro jeito que não fosse inventar uma transição com o Tancredo Neves e na continuidade com Sarney deu tempo para se constituir o que só duas décadas depois foi identificado como partido político pelo editor do Conversa Afiada.

Filho de jornalista, Paulo Henrique Amorim tem acompanhado a política brasileira desde que cobriu a renúncia de Jânio Quadros em 1961 e, evidentemente, já distinguira uma formação partidária da mídia brasileira na eleição de Collor de Melo e na manipulação da cenoura do “Caçador de Marajás”.

Apesar da auto derrota que experimentaram com o candidato criado pelo próprio partido, nem por isso se afastaram da certeza de que a eles compete o direcionamento dos rumos do país. Entendem que política no Brasil se resume em ser um Mesquita, Frias, Marinho ou Civita; e só precisam arrumar um FHC, Serra ou até qualquer “celebridade” de reality show para sentar no Palácio da Alvorada. Mas antes de Sua Excelência Bambam ou Xuxa, com o fracasso do Collor desistiram de produzir candidato próprio e compraram um já feito.

Havia que se reconhecer a experiência do Kissinger e não descartaram a pronta entrega de um Fernando Henrique Cardoso já pré-formatado e com a vantagem de uma dúbia garantia de validade emitida pela esquerda distraída, em décadas passadas.

Ao longo dos dois mandatos a validade venceu ou se mostrou improficiente, mas só quando o diretório nacional do partidão da mídia insistiu no recurso da cenoura lançando sua 5ª campanha ao poder, o esperto e experimentado  Amorim o identificou com a sigla PiG. De Partido da imprensa Golpista.

Paulo Henrique Amorim trabalhou no QG do partido, a TV Globo, e sabia (continua sabendo) do que estava falando.

Em que pese os costumes do correspondente ao sentido da sigla em inglês, a legenda não deixou de ter sua glória. Afinal, de cara o partido venceu as 3 primeiras disputas eleitorais de sua existência. Elegeu o Collor e o FHC duas vezes. Só foi perder para o Lula na 4ª campanha, com José Serra.

Ainda podem escolher coisa pior, mas daí pra frente o partido vêm amargando sucessivas derrotas até em disputas que eles mesmos inventam, como na campanha do Mensalão quando não conseguiram emplacar o impeachment. Depois veio a derrota da 3ª campanha com Geraldo Alckmin e, por fim, insistindo com o azarão José Serra, perderam pela 4ª vez para o Lula quando elegeu a Dilma Rousseff, num país que Dona Ruth Cardoso reclamava, e com razão, machista.

Ô páreo duro! Se o PiG foi vitorioso em três, já perdem em quatro (Dona Ruth à parte) campanhas, contradizendo o Joseph Pulitzer aqui no Brasil.

Pobre mestre! Não só por cá, pela imprensa brasileira, mas além de criticado pelas elites norte-americanas do século 19 por defender melhorias nas condições de vida das classes mais pobres e redução de horário de trabalho aos operários, Pulitzer também foi acusado de sensacionalista por introduzir em seu diário uma página dedicada ao público feminino e outra ao humor dos cartunistas que até então não eram publicados por jornais.

Ziraldo Alves Pinto, um dos mais destacados cartunistas da imprensa brasileira (quando existiu), seguiu os rastros do mestre húngaro criando uma série que fez sucesso nos anos 60 pela revista O Cruzeiro. Além de produzir cartuns, nas “Fotopotocas” o humorista Ziraldo aproveitava as eventualidades que ocorrem com personalidades políticas, perseguidas pelas câmeras indefectíveis nas inúmeras solenidades a que toda autoridade é obrigada.

Não há político, em uma dessas ocasiões, que escape de um instantâneo jocoso, engraçado ou ao menos insólito.

Um instante passageiro e imprevisível que nem mesmo o fotógrafo jamais teria condições de planejar ou evitar. Centrado apenas no objeto da foto, ao apertar o obturador da máquina não percebe o que ocorre no entorno do foco. Só depois da revelação e ampliação, (muitas vezes na publicação, e há disputas judiciais a respeito) é que vai se dar conta de pés torcidos, olhos revirados, dedo enfiado no nariz, ou algo desse tipo. Cabe ao editor a seleção do material, podendo, claro, orientar-se pelo conteúdo da matéria e até por suas afinidades e simpatias a esta ou aquela personalidade. Mas sempre valendo-se de respeito a si próprio, mesmo que não ao fotografado. Afinal, por maior a antipatia a alguém não se vai arriscar, aí, a própria imagem como profissional!

(Não é mesmo companheiros? Harãn!)

Pois era nos calhaus refutados pelo bom senso dos editores de sua época que Ziraldo encontrava material a ser reciclado em sua coluna de humor, inventando brincadeiras até com políticos conterrâneos e de sua afinidade, como Juscelino Kubistchek.

O elitismo dos Mesquita como porta-vozes da elite quatrocentã do café, sempre conferiu ao jornal O Estado de São Paulo uma certa circunspecção aristocrática, mantida inclusive com autoritarismo. Sempre foi acusado de sisudo, “quadradão” e cansativo, entre coisas piores.No entanto, por mais que se o critique nunca se pôde dizer que o Estadão fosse apelativo ou tão abertamente desonesto e manipulador quanto seus concorrentes. Assumiam a defesa dos interesses estrangeiros no Brasil, eram contrários aos reais interesses do povo brasileiro, mas sempre com sinceridade e rigor de compostura.

Mesmo no apoio à ditadura, similar aos demais veículos da imprensa da época — a exceção da TV Excelsior do Wallace Simonsen, megaempresário que por apoiar Jango Goulart foi levado ao suicídio pelo regime  — O Estado de São Paulo conseguia ter uma certa aura de isenção e ainda hoje ostenta com orgulho a memória das edições de versos de Camões em substituição às matérias censuradas.

Há quem afirme ter sido mera estratégia como a do Frias que no estafe da Folha manteve jornalistas de esquerda, enquanto emprestava a frota para a repressão prender e “desaparecer” jornalistas e militantes da esquerda. Ou dos Marinhos que hoje decantam eventuais apoios do pai a um ou outro protegido de esquerda, para escamotear o quanto foi essencial no processo de condicionamento das massas brasileiras para beatificação do alto e baixo clero ditatorial que o recompensou com o que hoje se conhece como Império da Rede Globo e, antes de 64, se resumia a uma emissora exclusiva da cidade do Rio de Janeiro.

Pois há quem diga que na falta de um Dias Gomes ou um Cláudio Abramo (atuou no Estadão, mas até um ano antes do golpe militar)  o jornal dos Mesquita recorria aos versos de Camões para aparentarem-se censurados. Isso não há como confirmar e é preciso reconhecer que realmente  O Estado de São Paulo sempre reclamou quando algum ato um pouco mais nacionalista, mesmo dos militares, era desagradável aos interesses multinacionais. Sobretudo dos Estados Unidos ou Israel.

Nessas ocasiões, com ditadura e tudo, demonstravam brios e galhardia admirável. Chegaram a produzir uma série apontando uma tal URSB – União da República Soviética Brasileira. Isso no auge da Guerra Fria e em plena ditadura militar, mas a matéria saiu completa e sem necessitar que desprestigiassem o maior poeta da Língua Portuguesa utilizando-o como calhau. E calhaus fotográficos como os utilizados pelo humorista Ziraldo, no Estadão nem pensar! Humor ali, só a reprodução de tirinhas de alguns autores norte-americanos e, se não me engano, havia também um inglês.

O Estadão também gostava dos ingleses. Mas naquela época não se importava muito de ser importunado pela censura. Apesar da orientação nazista do governo, os Mesquitas, rezando pelas sinagogas, chamavam o Camões e ficava por isso mesmo. Não contabilizam os dias que estariam sob censura, como hoje fazem a respeito da decisão de um juiz que, considerando improcedentes as afirmações sobre o filho do José Sarney, suspendeu a publicação de uma matéria.

Poderia se perder tempo aqui, cogitando sobre as reais razões de Mesquitas, Frias, Marinhos ou Civitas, que incondicionalmente  apoiaram Sarney quando presidente da ARENA e do Brasil; repentinamente se indisporem contra o mesmo na presidência do Senado durante o governo Lula. Além deles, um exército de outra meia dúzia de éticos ou heréticos em busca de perdão da igreja que perderam em seus delírios e pela qual mendigam num individualismo desencontrado que mistura o pior da direita com um rescaldo de esquerda metida em etnicismo e humanismos canhestros, quando não ecologismos perfunctórios.

Mas cá pra nós menos afetados pelos conceitos, preconceitos e incoerências em voga, a frase do Pulitzer é mais interessante de ser analisada porque a utilização da foto abaixo reproduzida pelo O Estado de São Paulo demonstra o erro na conclusão do grande mestre. Ao menos no Brasil.

Se fosse o Ziraldo nas “Fotopotocas” se justificaria o uso da eventualidade registrada na foto que qualquer editor de algum senso descartaria como de mau gosto, com um balãozinho para reproduzir antigo cartum publicado no O Pasquim, onde desenhou um sujeito com uma faca cravada nas costas, dizendo ao leitor: “Só dói quando eu rio!”

Não acredito que algum militar da ativa sorria ao ver essa foto, pois até os militares evoluem e nem todos são os milicanalhas (como diz um amigo de Sampa) que tomaram o poder de assalto em 64. Acredito mesmo que a maioria dos militares brasileiros se sintam ofendidos pelo mau gosto com que se os aponta como covardes celerados, capazes de apunhalar um mulher pelas costas. Mormente com o esforço internacional para se extirpar de vez a violência contra as mulheres entre as sociedades humanas.

Também não sei se dá para rir do editor do jornal dos Mesquitas, pois mesmo que a pretensa sisudez quatrocentã tivesse mais de hipocrisia do que real aristocracia, chega a dar pena tamanha decadência na já tão degradada imprensa brasileira. Mas se esse mau gosto, sem o refino do humor de um Ziraldo, derruba os Mesquita à vala comum dos ridículos da mídia nacional, podemos nos felicitar porque aqui, ao contrário do previsto pelo grande Joseph Pulitzer, quanto mais se acirra a vileza dos meios de comunicação, maior descrédito público conquistam. Para comprovar é só comparar o tamanho do sistemático esforço com os resultados do último levantamento sobre a popularidade da Presidenta.

Por sinal, um resultado ao qual nunca sequer se aproximaram nenhum dos políticos que há anos recebem maciço apoio dos Mesquitas, dos Frias, dos Marinhos e dos Civitas.

Claro! Com o “refinado senso” que se aplica em tal editoria do que se pretende um dos maiores jornais do país (com exemplos como os que temos, o que posso incluir nesse parêntese?) não há chiqueiro que contenha a lavagem do PiG do Paulo Henrique Amorim.

Mas dá para se concluir que as redações e estúdios das grandes empresas de comunicação do Brasil estão ocupadas por uma manada de burros correndo de cenouras. Merecem o prêmio Pulitzer, pois nem mesmo o velho Joseph imaginaria que se chegasse a tanto.

Na imagem: Joseph Pulitzer.

Imagem: sanfranciscosentinel.com

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