O artista é humano como o público

"Arte é: criação, produção, ação e intervenção. Nada de luxo, tão pouco de lixo como prega o nosso despreparado presida; e por ser também uma prática social, toda arte é política, independente da mensagem que carrega em si." Coluna analisa a situação do artista diante do público, sua relação e a necessidade de reinventar a figura do produtor de artes.

A Criação de Adão, um afresco de 280cm x 570cm pintado por Michelangelo Buonarotti por volta de 1511. Imagem: Reprodução “A Escotilha”.

Por. Bruno Zambelli

A receita de uma obra artística não tem segredo. É evidente que por aqui, diante da temática da coluna, sempre que tocamos na arte acabamos resvalando no teatro. No entanto, creio que mesmo com as devidas modificações, necessárias a cada paladar, a base da receita é sempre a mesma. Arte é: criação, produção, ação e intervenção. Nada de luxo, tão pouco de lixo como prega o nosso despreparado presida; e por ser também uma prática social, toda arte é política, independente da mensagem que carrega em si. Mesmo que seja doído pra alguns é preciso afirmar: a obra de arte não é um objeto sagrado.

Semana passada, ao tratar da situação dos artistas jogados à própria sorte no olho do furacão, uma frase talvez tenha saído meio desamarrada do ponto: “o artista é um trabalhador como outro qualquer e não um ser iluminado disposto a sacrifícios e abdicações para elevar a aura humana”. Entre a agressividade e o carinho, abusando do famoso bate-fofo, corre-se o risco de não ser claro, como me preveniu um amigo apontando o dedo em grifo amarelo. Pois bem, adiante.

Não me lembro quem declarou certa vez que os gênios estavam mortos. Realmente não me lembro, mas sempre achei necessário repetir o assassinato de todos os gênios de tempos em tempos. Talvez essa seja uma forma de nos reconhecermos mais humanos, não sei, mas é certo que é preciso dinamitar as estruturas das torres de marfim que nos deixamos construir pela vida. Não é fácil, precisamos admitir, no entanto é absolutamente necessário destruir na marretada e esfarelar o marfim dos monstros sagrados para que seja possível se enxergar no outro. Isso, esse exercício de martelar, nem sempre é levado às últimas consequências e o resultado dessa preguiça disfarçada de devoção é sempre trágico.

Walter Benjamin e Bertolt Brecht, além de muitos outros, ensinam que é preciso transformar as relações entre produtor artístico e público. A grosso modo podemos dizer que artistas devem transformar espectadores em produtores e colaboradores, em artistas participantes de seu ofício. Difícil? Pode ser, mas houve, não nego, diversos esforços a respeito. Entretanto apesar desses esforços, e isso também é impossível negar, a distância entre um e outro continua abismal em todos os sentidos.

Frequentei, e ainda frequento, confesso, debates e rodas de conversas, mesas de botequins diversas e posso afirmar, sem medo de pecar pelo exagero, que muitos artistas, do alto de seus conhecimentos e conceitos, se enxergam como semideuses diante dos tais “homens comuns”, tão desinteressantes e fodidos como todos nós. Alguns o fazem sem perceber, acreditando que a arte não é um trabalho, um emprego, e sim uma sina. Outros, e esses configuram os casos mais graves, comportam-se como uma espécie de catequista diante do rebanho. Acho, de verdade, que todos nós representamos esse papel um dia, mas a cada dia que passa é preciso lutar mais contra essa mania tosca que insiste-se em tornar hábito Brasil afora.

Talvez, e juro que estou ancorado na praia da dúvida, o desdém com a classe artística tenha um pouco de culpa nossa no ventre de seu absurdo.

Talvez esse hábito cultivado com tanto esmero através do tempo seja o principal responsável por nosso desalento presente e futuro. Hoje, grande parte da população brasileira considera a arte um luxo, um pingente, e, por consequência, os gastos destinados à cultura são tidos como grana jogada fora, desperdiçada entre uma lágrima e uma gargalhada sem a qual pode-se viver tranquilamente. Talvez, e juro que estou ancorado na praia da dúvida, o desdém com a classe artística tenha um pouco de culpa nossa no ventre de seu absurdo. Alguns de nós ainda precisam se enxergar como trabalhadores e todos precisamos nos organizar como trabalhadores e reivindicar nosso direito não apenas na base da poesia, mas da luta política.

Somos uma classe trabalhadora como qualquer outra, porra, e como todas estamos na maioria das vezes explorados e mal pagos, por isso precisamos nos compreender como parte dessa engrenagem econômica. A preocupação, no atual momento, não é apenas com os espaços, como pode ter parecido no texto anterior, mas com todo artista, trabalhadores autônomos na maioria das vezes, que além de estarem jogados às traças não tem o devido, e esperado, apoio popular em sua defesa. Infelizmente, artistas e povo parecem coisas distintas quando na verdade estão à mesma míngua, dividindo marmita e lutando por um pouco de dignidade. É preciso estar atento, forte e munido de coragem.

Uma das poucas verdades que conheço é aquela que diz que a coragem precisa ser no mínimo um bocadinho maior do que o medo. É isso, na base do ipsis litteris, como prega o jargão. Levando a cabo essa certeza é possível fazer algumas adaptações de acordo com o momento. A serenidade deve desbancar o pânico, o atrevimento diminuir o temor e a razão destronar a estupidez.

O único ingrediente indispensável a todo sonho bom é a liberdade, podem reparar. Mude-se à vontade todo o resto que compõe o troço: cenário, histórias, personagens e o diabo; não importa. Ela, a eterna musa de Rimbaud, estará ali, por mais que não pareça. Arrisco dizer que ela estará mesmo, de qualquer jeito, mesmo que não esteja. Na maioria das vezes vem de leve, escondida, camuflada, disfarçada. Uma rajada de vento que faz folia no cabelo da paixão? É ela. Os pés descalços, húmidos, trabalhando o sujo do barro numa brincadeira de criança? De novo a danada! Enfim, não tem jeito, é batata: tão certo quanto a circunferência da terra e tão exato quanto dois e dois são quatro é a receita de um sonho bom. Podem reparar.

Por isso, montados no pesadelo como estamos, é preciso que reaprendamos a sonhar, e a única maneira possível de fazer a coisa acontecer é descer do salto, saltar do bonde e deixar o frio do marfim de lado. De pés descalços, com o olhar distante e juntos, lado a lado, poderemos, enfim, construir de fato essa tão sonhada nova civilização onde a arte e o pão, os artistas e os operários, possam caminhar de mãos dadas novamente.

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