O aliado involuntário

Publicado em: 28/04/2011 às 14:53
O aliado involuntário

Por Julio Rudman.

A Horacio González, que fez o que devia.

Já está. Falou e não houve pirotecnia verbal, nem por parte dele nem pela nossa. Fica, como primeira conclusão residual, o gesto de Cristina Fernández, ratificando sua condição de estadista. Até o ponto de que o próprio escritor nobelizado, o novelista nobelizado, se viu compelido a admiti-lo.

A sua breve intervenção na chamada palestra inaugural pareceu um resumo Leru de algum manual da doutrina liberal do século XIX. Foi, claramente, um passo atrás diante da contundência de uma realidade que a um cara da sua formação não podia passar inadvertida, por mais bajuladores que o rodeassem. Se até o declararam ilustre cidadão portenho duas vezes: faz um tempo, quando se anunciou oficialmente seu convite e agora, para as câmeras e microfones a seu serviço.

Duas últimas reflexões antes de passar para o importante deste texto. A valente inteligência de Hebe de Bonafini, quem teve a iniciativa de procurar que o peruano se aderisse ao clamor para que o empório da não nobre cumpra com a lei e incorpore à grela de canais CN23, Paka Paka e Telesur. Até agora, sua resposta é o silêncio. É que, e esta é a segunda reflexão, o autor de “A festa do bode” se tornou, acho que involuntariamente, em aliado do kirchnerismo e outras forças do campo nacional e popular, quando pediu uma completa liberdade de expressão. Assim como não houve dois demônios nos anos setenta, não há duas liberdades de expressão hoje em dia. O miolo do assunto é que não se tratou nunca de tentativa de veto ou censura. O que promoveram González, Goloboff e com eles boa parte da cultura argentina foi o repúdio à decisão dos organizadores da Feira do Livro de lhe oferecer a honra de inaugurar o ciclo de palestras a um dos mais eminentes porta-vozes das políticas de fome e exclusão destes tempos. Mesmo votando por Humala em seu Peru natal. Embora os protagonistas principais de suas obras sejam defensores de causas que batem de frente com aqueles princípios.

Se de vetos, o Betos, se trata vai minha lembrança sorridente para os gloriosos Beto Menéndez, Beto Acosta, Beto Márcico e, o mais glorioso de todos: o Capitão Beto, o Beto Alonso.

Ele irá espalhar loas às multinacionais do horror, justificar os massacres do império, sustentar a rentabilidade por sobre a humanidade, e ficaremos nós para ratificar e aprofundar um rumo irreversível.

O debate sobre as políticas culturais, a função e o funcionamento das indústrias culturais, a promoção do livro, sua criação, edição e distribuição, entre outros tópicos, está pendente. Todos estamos convidados a participar e alguns temos mais responsabilidade em seu desenvolvimento.

Por exemplo, seguir submetidos à decisão de uma empresa privada, a Fundação O Livro, para acatar seu olhar em relação ao que deve ser uma Feira? Acaso não chegou o momento de federalizá-la? Assim como está é a Feira de Buenos Aires e reflete a pujança cultural de uma mega-capital, mas ao mesmo tempo, as Feiras provinciais ou regionais são feitas a contragosto, com orçamentos desnutridos e sempre olhando pro porto, no que tem a ver com datas e conteúdos (a de Mendoza é raquítica e organizada com menos empolgação que um velhinho subindo o Aconcágua), como mais uma conseqüência da macrocefalia nacional. Não terá chegado o momento de começar a pensar uma Feria Nacional do Livro, como a venezuelana (sim, sou chavista, e daí?), que percorra o país todo? Que a de Buenos Aires fique como até agora, com sua exibição fastuosa e suas multidões a meio caminho entre a autêntica paixão pela literatura e a caretice, mas que, também nisto nos tiremos de encima aos quase-monopólios editoriais o, se preferirem, que se somem à festa, mas sem nos condicionar.

E então promover os bons escritores e escritoras do país profundo, igualá-los com os consagrados pelo maldito jabá, lhes oferecer as ferramentas para suas criações sejam conhecidas. Em fim, o Estado nivelando por cima.

Que é difícil? Com certeza, ou tem sido fácil, por exemplo, pôr em marcha novamente na Argentina a educação técnica, ou recuperar as contribuições à previsão social em mãos da máfia concentrada?

O debate por estes temas não se perdeu, nem se empatou, nem se venceu. Recém começa e o devemos Vargas Llora* (o aliado involuntário), a Horacio González, a Mario Goloboff e, especialmente, a Cristina Fernández.

*N. de T.: Trocadilho com Llosa e Llora (chora).

Versão em português: Tali Feld Gleiser.

El Aliado Involuntario

A Horacio González, que hizo lo que debía

Ya está. Habló y no hubo pirotecnia verbal, ni por parte de él ni por la nuestra. Queda, como primera conclusión residual, el gesto de Cristina Fernández, ratificando su condición de estadista. Al punto de que el propio escritor nobelizado, el novelista nobelizado, se vio compelido a admitirlo.

Su breve intervención en la llamada conferencia inaugural pareció un resumen Lerú de algún manual decimonónico de doctrina liberal. Fue, claramente, un arrugue ante la contundencia de una realidad que a un tipo de su formación no podía pasarle inadvertida, por más adulones que lo rodearan. Si hasta lo declararon ilustre ciudadano porteño dos veces: hace un tiempo, cuando se anunció oficialmente su invitación y ahora, para las cámaras y micrófonos a su servicio.

Dos últimas reflexiones antes de pasar a lo medular de este textículo. La valiente inteligencia de Hebe de Bonafini, quien tuvo la iniciativa de procurar que el peruano se adhiriera al clamor para que el emporio de la innoble cumpla con la ley e incorpore a la grilla de canales a CN23, Paka Paka y Telesur. Hasta ahora, su respuesta es el silencio. Es que, y esta es la segunda reflexión, el autor de “La fiesta del chivo” se convirtió, creo que involuntariamente, en aliado del kirchnerismo y otras fuerzas del campo nacional y popular, al bregar por una completa libertad de expresión. Así como no hubo dos demonios en los setenta, no hay dos libertades de expresión hoy. El meollo del asunto es que no se trató nunca de un intento de veto o censura. Lo que promovieron González, Goloboff y con ellos buena parte de la cultura argentina fue el repudio a la decisión de los organizadores de la Feria del Libro de brindarle el honor de inaugurar el ciclo de conferencias a uno de los más encumbrados portavoces de las políticas de hambre y exclusión de estos tiempos. Aunque vote por Humala en su Perú natal. Aunque los protagonistas principales de sus obras sean defensores de causas que se dan de traste con aquellos principios.

Si de vetos, o Betos, se trata va mi recuerdo sonriente para los gloriosos Beto Menéndez, Beto Acosta, Beto Márcico y, el más glorioso de todos, el Capitán Beto, el Beto Alonso.

Se irá él a desparramar loas a las multinacionales del horror, a justificar las masacres del imperio, a sostener la rentabilidad por sobre la humanidad, y quedaremos nosotros para ratificar y profundizar un rumbo irreversible.

El debate por las políticas culturales, la función y el funcionamiento de las industrias culturales, la promoción del libro, su creación, edición y distribución, entre otros tópicos, está pendiente. Todos estamos invitados a participar y algunos tenemos más responsabilidad en su desarrollo.

Por ejemplo, ¿seguir sometidos a la decisión de una empresa privada, la Fundación El Libro, para acatar su mirada respecto de lo que debe ser una Feria? ¿Acaso no ha llegado el momento de federalizarla? Así como está es la Feria de Buenos Aires y refleja la pujanza cultural de una megacapital, pero a su vez, las Ferias provinciales o regionales se hacen a regañadientes, con presupuestos desnutridos y siempre mirando al puerto, en lo que concierne a fechas y contenidos (la de Mendoza es raquítica y organizada con menos entusiasmo que un anciano subiendo el Aconcagua), como una consecuencia más de la macrocefalia nacional. ¿No habrá llegado el momento de empezar a pensar una Feria Nacional del Libro, al modo de la venezolana (sí, soy chavista, ¿y qué), que vaya recorriendo todo el país? Que la de Buenos Aires quede como hasta ahora, con su despliegue fastuoso y sus multitudes a medio camino entre la auténtica pasión por la literatura y el cholulismo careta, pero que, también en esto nos saquemos de encima a los cuasimonopolios editoriales o, si quieren, que se sumen a la fiesta pero sin condicionarnos.

Y entonces sí, promover los buenos escritores y escritoras del país profundo, emparejarlos con los consagrados por el maldito canon, brindarles las herramientas para que se conozcan sus creaciones. En fin, el Estado nivelando hacia arriba.

¿Qué es difícil? Seguro, ¿o ha sido fácil, por ejemplo, poner en marcha nuevamente en la Argentina la educación técnica, o recuperar los aportes previsionales de manos de la mafia concentrada?

El debate por estos temas no se perdió, ni se empató, ni se ganó. Recién empieza y se lo debemos a Vargas Llora (el aliado involuntario), a Horacio González, a Mario Goloboff y, sobre todo, a Cristina Fernández.

 

 

 

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