O açougueiro, o golpista, a imprensa “inocente” e uma oportunidade inesperada

2017-05-22 09:42
Charge de Claudio Mor publicada no jornal Folha de S. Paulo de 19/5/2017.
Charge de Claudio Mor publicada no jornal Folha de S. Paulo de 19/5/2017.

Por Sylvia Debossan Moretzsohn.

A crise detonada com a delação do açougueiro que virou magnata expôs pela primeira vez com clareza um racha entre as forças patrocinadoras do golpe e abriu uma oportunidade inesperada de enfrentar esse jogo. A iminência da queda de Michel Temer resultou imediatamente numa primeira vitória: a suspensão da votação das reformas que arrasam os direitos dos trabalhadores e que continuam a ser defendidas pela imprensa dominante como essenciais para a “modernização” do país. As manifestações por “diretas, já”, logo no dia seguinte à divulgação da denúncia, foram o primeiro passo para a mobilização que pretende se avolumar até a “Marcha para Brasília”, em 24 de maio. Uma coincidência aumenta a expectativa para esse momento: será – caso não haja alguma novidade até lá – o mesmo dia em que o plenário do STF estará reunido para decidir sobre a suspensão do inquérito aberto contra o presidente, pedido por sua defesa, até que se conclua a perícia sobre a gravação da conversa entre ele e o dono da empresa JBS, Joesley Batista, que o incrimina.

A diferença de comportamento da mídia comprometida com o governo golpista indica a complexidade da situação: os veículos do Grupo Globo, após uma hesitação inicial, praticamente decretaram o fim do governo, já a partir de um editorial publicado na tarde do dia 19, que ia além da simples defesa da Constituição nesse momento crítico e passava a exortar à renúncia do presidente. Já os dois principais jornais paulistas pediam cautela: em editorial naquele dia, O Estado de S.Paulo levantava suspeitas quanto aos interesses de quem vazou o depoimento que provocou tamanha turbulência – um cuidado inexistente quando o alvo eram Lula, Dilma e o PT – e só faltou ressuscitar as referências às “cassandras” e aos “pescadores de águas turvas” comuns no discurso dos ditadores militares. No mesmo dia, editorial da Folha de S.Paulo mencionava o caráter “inconclusivo” do depoimento do delator e, ainda naquela noite, em seu site, publicava reportagem em que um perito apontava “mais de 50 edições” no áudio da conversa gravada clandestinamente. Seriam “indícios claros de manipulação”, que, embora não distorcessem o sentido geral da conversa, exporiam vícios capazes de invalidar aquele material como prova.

Foi nisto que Temer baseou seu pronunciamento na tarde do dia 20 de maio, o seu segundo “Dia do Fico” – o primeiro foi no dia seguinte ao da denúncia, quando afirmou que não renunciaria –, dois exemplos típicos de repetição farsesca da História. Após citar a perícia contratada pela Folha, investiu pesadamente contra a Procuradoria Geral da República, acusando “interesses subterrâneos” e manipulação de provas, e deu nova versão para seu comportamento diante do interlocutor: considerou perfeitamente normal recebê-lo privadamente, como se a simples aceitação do encontro furtivo com um “criminoso”, que ainda por cima se apresentou com nome falso para entrar no Palácio do Jaburu – e disse ter se encontrado com o presidente na garagem, ou “no porão” –, já não fosse elemento suficiente para evidenciar o escândalo.

(De fato não é, tendo em vista a repetição desses encontros furtivos entre autoridades da República, inclusive ministros do STF. Mas… “enfim”, como diz o bilionário delator).

Na mesma noite, numa edição de uma hora e quinze minutos, o Jornal Nacional demoliu os argumentos de Temer, mostrando “as contradições entre o que o presidente disse e o que está na fita” e exibindo o resultado de diversas perícias, que atestavam a ausência de alteração nos trechos principais da gravação.

Enquanto isso, a revista Veja optou por uma capa “patriótica”, ressuscitando o “Basta” do Correio da Manhã da véspera do golpe de 64, apenas sem o ponto de exclamação. Sobre a reprodução da bandeira brasileira, as letras brancas falavam em nome dos “milhões de brasileiros honestos” que “não merecem ser punidos pela desfaçatez e ganância dos poderosos” e clamavam pela “grandeza dos homens públicos” para que o país pudesse “seguir em frente” em sua “caminhada rumo à modernidade” e “libertar-se da mediocridade econômica”. Pois, é claro, o que está em jogo, o tempo todo, são as reformas, que esses milhões de brasileiros rejeitam.

A IstoÉ preferiu alimentar o discurso dos que, nas redes sociais, ironizam quem sempre acusou a seletividade da Lava Jato. Ignorou que apenas agora, depois de três anos, finalmente se atingem políticos relevantes adversários do PT e que essa ação só foi possível porque decorreu à margem do núcleo central da operação.

É claro que há ainda muito a esclarecer em todo esse episódio: desde a atuação dos investigadores de Brasília, fora do script tradicional da força-tarefa sediada em Curitiba e do protagonismo de certos procuradores e do juiz que a conduz, até os interesses que levam a essas divergências entre as grandes empresas de mídia. Mas o acompanhamento da cobertura permite assinalar alguns pontos para reflexão, ainda mais necessária nesse momento de tamanha turbulência.

  1. A origem da denúncia

Os jornalistas Lauro Jardim e Guilherme Amado, do Globo, foram os responsáveis pelo furo que levou a TV Globo a interromper a novela das sete e anunciar, na voz titubeante da apresentadora do Jornal Nacional, a bomba que atingiria o presidente da República e o presidente do PSDB, Aécio Neves, que não demorou a ser afastado do cargo e das funções de senador. Nas redes sociais, a reação à esquerda oscilou entre a euforia e a suspeita decorrente do que se costuma chamar de teoria conspiratória. Por que diabos um jornal como O Globo haveria de atacar o governo? Afinal, se a (ou o) Globo está de um lado, só nos resta estar do outro.

Será simples assim? Valeria a pena evitar agir automaticamente e considerar que uma revelação oriunda dessa corporação pode, independentemente das intenções originais, acabar servindo a outras causas, como aparentemente ocorre agora.

É evidente que a Globo sempre repete o mantra de seu compromisso de respeito aos princípios jornalísticos para justificar o que faz. Quem exerce e acompanha a crítica regular de mídia sabe como esse argumento é falacioso, para não dizer cínico. Entretanto, é bem possível que a decisão de divulgar a denúncia tenha resultado de uma conclusão mais ou menos óbvia: o governo golpista, que nunca foi coeso – basta recordar do primeiro escândalo logo após a posse, as gravações de conversas em que o senador Romero Jucá falava em “estancar a sangria” da Lava Jato e sugeria um grande acordo “com o Supremo, com tudo”, e a sucessiva queda de ministros denunciados por corrupção –, este governo sempre frágil não estava conseguindo aprovar as reformas com a celeridade desejada. Além do mais, uma denúncia daquelas poderia vazar para a concorrência. Divulgá-la seria uma forma de garantir um furo e, ao mesmo tempo, acenar ao público com os valores mais nobres do jornalismo, o respeito ao “direito de saber”.

De todo modo, conviria lembrar a estreia de Lauro Jardim como colunista do jornal, em outubro de 2015: também com um suposto furo em que sua fonte sustentava a manchete incriminadora de Lula, que depois se revelaria falsa e exigiria um pedido de desculpas, publicado apenas três semanas depois. O caso foi discutido aqui na época. E não foi o único: mais ou menos dois meses após, outra informação errada, embora de menor relevância, novamente punha em dúvida a credibilidade do colunista.

Estes antecedentes, juntamente com a ausência dos áudios que comprovariam as informações, deveriam ter levado a alguma prudência na recepção da denúncia. Por mais que, desta vez, finalmente, haja provas objetivas que sustentem a reportagem.

  1. O imediatismo e seus efeitos

Do ponto de vista das empresas jornalísticas, essa prudência costuma sucumbir ao imediatismo, porque o objetivo é provocar impacto e a tendência do público é repercutir acriticamente o que se publica. Não é uma regra genérica, obviamente: os jornais agem conforme seus interesses, de modo que sempre levam em consideração quem será atingido, e em que circunstâncias. Nesse jogo, as questões legais são o de menos: no caso, como mostra reportagem do Conjur, a gravação possivelmente será descartada como prova, não por qualquer distorção ou manipulação, mas porque se trata tipicamente de uma armadilha em que o interessado induz o interlocutor ao cometimento de um crime. Entretanto, os efeitos junto à opinião pública já foram produzidos. A ressalva “caso [os fatos] sejam confirmados”, expressa no editorial do Globo e nas muitas intervenções de comentaristas, é apenas uma formalidade, porque tudo o que cai na rede é peixe, como os jornalistas estão cansados de saber.

De resto, é a rotina da cobertura jornalística. Basta pensar na cobertura dos crimes de grande repercussão, que, por sinal, só alcançam essa repercussão devido exatamente à intensidade da cobertura. Essa rotina trata denúncias como provas – sempre, é claro, quando convém –, e repeti-las incessantemente faz parte do mecanismo que atua sobre as emoções do público e dificulta a reflexão. Foi nessa lógica que a Operação Lava Jato se ancorou, a ponto de produzir o famoso power point das convicções.

A diferença é que, agora, há provas, não apenas acusações. A intenção de divulgá-las pode ter sido selar a sorte de um governo impopular e articular a substituição do presidente por via indireta – o “golpe dentro do golpe”, como tantos analistas indicavam desde o início –, mas, a depender da reação das ruas, o resultado pode ser outro: mesmo quem está habituado a manipular marionetes às vezes perde o controle dos cordões. Daí, talvez, o açodamento da Globo pela saída de Temer: para não dar tempo a uma solução inconveniente.

Refletir sobre as consequências desse imediatismo é essencial para perceber os mecanismos acionados na tentativa de manipular a opinião pública, sobretudo em seu potencial de detonar ou alimentar crises políticas: foi precisamente o que aconteceu quando a Globo divulgou o áudio da conversa entre Lula e Dilma, uma gravação ilegal que provocou a avalanche decisiva para o processo de impeachment.

  1. A “imprecisão” e o abuso da imagem

Além da discussão sobre a legalidade e o sentido da conversa entre o açougueiro e o golpista, há pelo menos dois outros aspectos que merecem questionamento. Primeiro: nos vídeos da confissão do delator há passagens inverossímeis. Por exemplo, quando ele diz que não se lembra do nome dos parlamentares comprados para votar pelo impeachment. Em outras, falta comprovação: por exemplo, quando menciona o dinheiro que teria sido destinado às campanhas de Lula e Dilma, entretanto depositados em sua própria conta. Pode ser mesmo que este fosse um esquema para financiar campanhas sem levantar suspeitas, mas é fácil confundir as coisas. Como, por acaso, o Jornal Nacional confundiu, ao dizer que o delator havia informado sobre a existência de duas contas no exterior em nome dos presidentes Lula e Dilma. Na edição do dia 20, corrigiu o que chamou de “imprecisão” noticiada na véspera.

A propósito dessas contas, aliás, um dos principais comentaristas da GloboNews protagonizou um momento surpreendente: na edição do Jornal das 10 de 19 de maio, Merval Pereira disse que o denunciante teria de apresentar os extratos, comprovar o que dizia, do contrário não valia. Logo se redimiu e voltou a atacar Lula e Dilma, mas esse raro lapso foi amplamente ironizado nas redes sociais. Merval, quem diria, pedindo provas contra petistas… impossível perder uma oportunidade tão rara de relaxar, em meio a tanta tensão.

Outro aspecto do noticiário sobre essa investigação diz respeito aos vídeos que flagraram o recebimento de propina pelos intermediários de Aécio Neves: um deles mostra uma mulher que vai buscar a filha na escola, entra com ela no carro junto com um sujeito a quem, depois, entregará uma bolsa de dinheiro.

Instalar câmeras em locais estratégicos faz parte do trabalho policial. Liberar imagens que expõem crianças, não. Transmiti-las, menos ainda. Mas…. “enfim”.  Seria talvez o caso de pensar o que aconteceria se instalassem câmeras e escutas nas empresas de mídia, tão abarrotadas de denúncias de sonegação. E nos carros de certos jornalistas, nos restaurantes que frequentam, nas casas desses jornalistas agora tão chocados com o mar de lama.

  1. A indignação encenada

E aqui chegamos a um quarto ponto de reflexão sobre esse escândalo. À parte o que possa conter de fanfarronice, os vídeos com os trechos da delação do açougueiro, de seu irmão e do executivo de sua empresa, exaustivamente repetidos, exibem a absoluta naturalidade no relato sobre a compra de parlamentares. Quem tem alguma memória há de se lembrar das gravações do “Sr. X”, informante da Folha de S. Paulo, que em 1997 gravou conversas com deputados corrompidos por “200 pau” para votar pela emenda constitucional da reeleição que daria a Fernando Henrique Cardoso seu segundo mandato. Versados nas “coisas da política”, jornalistas experientes deveriam saber como a banda toca. No entanto, desde que essa história começou, todos vêm afetando surpresa e indignação com o grau de degradação de nossa res publica. Na GloboNews chegaram a dizer coisas do tipo: “Aécio não parecia dado a ilícitos”, era talvez um caso de “dupla personalidade”. Antes entusiastas da candidatura derrotada em 2014, esses comentaristas tão inocentes e bem intencionados de repente descobriram que foram enganados, igualzinho a certos humoristas e atores que se gabavam de não ter culpa (pelo governo Dilma) porque votaram no Aécio e agora se penitenciam nas redes.

Após um primeiro momento de aparente perplexidade, quando lamentavam as denúncias justamente no momento em que “a economia estava se recuperando” – e diziam isso a sério –, os jornalistas da Globo e de seu canal pago passaram a convergir na condenação ao governo, como se não tivessem qualquer responsabilidade na promoção do golpe que lhe deu origem. Escandalizados, pareciam querer demonstrar que “se gritar pega ladrão, não fica um”. Ao mesmo tempo, se apressavam a alertar para a necessidade de respeito à Constituição e especulavam sobre as hipóteses de substituição de Temer pela via indireta.

Não prestaram muita atenção no detalhe de que, nesse caso, caberia a esse bando de parlamentares corrompidos a escolha do novo presidente. Muito menos – porque, ainda hoje e contra todas as evidências, rejeitam reconhecer que houve um golpe, e que contribuíram para ele –, consideraram que não é possível apelar ao respeito a uma lei que foi rasgada. E que, afinal, depende da mobilização popular o restabelecimento da democracia.

Sylvia Debossan Moretzsohn é professora de jornalismo aposentada da UFF, colaboradora do ObjETHOS.

Fonte: Objethos.

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