Nunca precisei de um artista

Foto: Pexels

Por Donald Malschitzky.*

“Não discuta com bêbado”, diz quem tem experiência no assunto, “nem com ignorante metido”, poderíamos acrescentar, mas quando esse ignorante ofende um sem número de pessoas e, principalmente, a inteligência, melhor expor o quanto ele é ridículo; quem sabe os que sofrem do mesmo mal se toquem.

As redes sociais transformaram-se em uma rede de mentiras, intrigas e ofensas. O ser humano tem a obsessão de dar razão a Sartre: “O inferno são os outros”.  Há uns dias apareceu uma postagem em meu Facebook, com o conteúdo devidamente contestado por amigos, que dizia: “Já precisei de médicos, já precisei de professores, preciso de agricultores todos os dias, já precisei de mecânico, encanador, pedreiro e de muitas outras pessoas, mas eu NUNCA precisei de um artista!”

Que triste a vida dessa pessoa: nunca ouviu uma música, nem aquelas de corno, que possivelmente lhe servem muito bem. Quando criança, ia dormir sozinho, sem que alguém lhe contasse uma história tirada de um livro com ilustrações, sem uma voz cantando alguma canção de ninar. Não aprendeu a se encantar com um traço qualquer que “com dois riscos faz um guarda-chuva” porque nunca teve um lápis, um pedaço de papel, um pedaço de areia para desenhar com o dedão do pé, nem um espelho ou uma janela embaçada para usar os dedos como pincéis.À noite, nunca brincou de  fazer sombras nas paredes.

Tem uma vida de desencantamento.

Nunca leu uma frase só que o emocionasse um pouquinho que fosse, nunca reparou num prédio que desafiasse o espaço ao nele se integrar, não viu nem sentiu qualquer jardim.

Não sabe o que é deslumbramento.

Seus olhos nunca passaram por uma escultura, uma decoração, nem seu gosto achou uma embalagem bonita ou atraente o design de um produto. Seus dedos não sabem o que é textura. Fotografias, lhe bastam as 3X4 de fundo branco em que o fotografado tem ar apalermado.

Nunca assobiou uma melodia.

Nunca assistiu a um filme, uma peça de teatro, uma dança. Livros, não sabe para que existem, nem os que explicam o que ele é.

Ele tem razão: não precisa de um artista, precisa de uma camisa de força.

 

*Escritor e presidente da Associação das Letras.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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