Nota de pesar pela morte da professora Roselly Xukuru, que teve a saúde negligenciada pelo Estado

Professora Roselly Xukuru deixa duas filhas e um legado de lutas pela Educação Escolar Indígena Diferenciada. Crédito da foto: Arquivo pessoal

Com tristeza e revolta o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste recebeu a notícia, na sexta-feira, 6, da morte da professora Roselly Cordeiro de Oliveira, do povo Xukuru do Ororubá. Jovem, com apenas 35 anos, a professora foi vítima da morosidade do governo estadual de Pernambuco e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que não efetivaram a compra de uma medicação, por motivos burocráticos, para o tratamento de um câncer de pele (melanoma).

A professora morreu esperando as doses da medicação mesmo após sentença do Tribunal de Justiça de Pernambuco, que obrigou o governo estadual a efetuar a compra. Cada dia perdido, porém, diminuía as chances de Roselly. Dessa forma, as comunidades indígenas, professores e professoras, amigos e amigas estavam fazendo campanhas de arrecadação online para a compra de um lote da medicação, que custa R$ 35 mil. O primeiro lote foi comprado pela Associação Xukuru e Roselly começaria a tomá-lo nesta terça-feira, 10.

Roselly foi enterrada no último sábado, 7, na aldeia Vila de Cimbres, na Terra Indígena Xukuru do Ororubá, em Pesqueira (PE), deixa duas filhas (uma de seis meses e outra de quatro anos), sempre morou na aldeia, desde o tempo das retomadas, e fortaleceu um legado de luta em defesa da Educação Escolar Indígena Diferenciada tanto no povo Xukuru quanto no âmbito da Comissão de Professores e Professoras Indígenas de Pernambuco (Copipe). Legado esse herdado de sua mãe, Aparecida, também professora do povo, levando-o adiante na educação dos guerreiros e guerreiras indígenas.

A doença que nos tirou Roselly tão cedo é tratável caso a saúde no Brasil não continue sendo um privilégio daqueles que podem pagar pelos altos valores de uma indústria seletiva, sem depender do Poder Público. O desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena avança e nas regiões as gestões públicas, e as coordenações locais da Sesai, emulam a ineficiência federal calculada ou silenciam diante do descalabro a troco de cargos e verbas escassas.

Os povos indígenas estão entre as populações negligenciadas por um projeto político desumanizado, pautado para não levar a elas direitos fundamentais básicos. No caso da enfermidade que ceifou a vida de Roselly, o dermatoscópio, um aparelho relativamente barato e que realiza a dermatoscopia com photofinder, mapeia sinais e alterações sugestivas de melanoma. Realizado de forma preventiva, o exame evita mortes por melanoma. No entanto, não há nenhum aparelho na região de Pesqueira.

De tal modo, o Cimi lamenta a morte de Roselly, companheira de muitas batalhas em Pernambuco e em Brasília. Uma mulher meiga e comprometida. Um rosto que em hipótese alguma imaginamos que poderia se ausentar dos encontros da Copipe, da sala de aula, do convívio com as filhas que tanto amava. Como Maninha Xukuru-Kariri, levada porque não recebeu o cuidado e atenção básicos de saúde. Que a morte de Roselly não seja em vão e que nos recordemos sempre desta guerreira que agora descansa de uma rápida existência em luta.

Recife, 9 de março de 2020.

Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste

Fonte: Por Cimi Regional Nordeste.
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