Nossa educação moral: por que ensinamos às crianças que só devem dizer a verdade?

Por Rodrigo Gagliano

A honestidade e franqueza só são possíveis entre iguais, em relações horizontais, livres. Fora desse âmbito, não há possibilidade para as duas. Dizer a verdade – e não vou discutir os sentidos dessa palavra, ‘verdade’ – sobre nós ou sobre o que fizemos, para quem tem poder, é nos fragilizar, é submissão, é parte da servidão voluntária.
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A primeira relação desigual que enfrentamos na vida, a partir do momento em que nascemos, é nossa relação com nossos pais. Os pais, em nossa sociedade, encarnam a primeira hierarquia, a primeira autoridade que há de nos ensinar a submissão a todas as demais autoridades – um ensino com e sem palavras…  Dos pais aceitamos xs professorxs, xs policiais, xs juízes, os/as patrões/patroaz, vereadorxs, deputadxs, senadorxs, presidentes e as instituições todas empoderadas. Nascemos, obviamente, sem muitas forças para resistirmos a essa terrível herança cultural e a maioria de nós nunca se libertará psicologicamente desse bando de usurpadores. E para que esses desapareçam de nossa vida social é preciso essa libertação nesse nível.
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Os pais costumam dizer para seus filhos: “diga sempre a verdade”, “nunca minta”, “não esconda nada de mim”. Por que fazem isso? A resposta mais óbvia é a de que querem ter controle e domínio sobre seus filhos. São armas de manipulação. Outros dirão que é para protegê-los. Como proteger um/a filhx se x fragilizamos? Se não dizemos a elx que há momentos para verdades e momentos para mentiras? Que é preciso uma certa inteligência para discernir esses momentos, uma certa capoeira mental. Nós, os adultos, não dizemos isso porque temos receio de que as crianças usem de mentira para conosco. E por que não usariam, se somos poder? É saudável que o façam, que calculem suas possibilidades de se safar das sanções negativas, venham de quem vier. Se amamos de fato nossxs filhxs, precisamos estruturar outras relações com elxs, sem caráter punitivo e explicarmos como o mundo é, criarmos um percurso libertário nessa relação. Substituir a autoridade por amor, porque a primeira submete e (hetero)disciplina, a segunda orienta e deixa viver – com sua existência de autoaprendizado e a autodisciplina. Se não há crime e castigo, não haverá necessidade de mentira em uma dada relação, não?
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Você diz, por exemplo, para seu/sua filhx que é importante aprender. Então, essa pobre criatura é enviada, por vc, ao presídio escolar e, aos poucos, vai aprendendo que aprender é a menor das funções da escola: elx será disciplinadx, controladx, submetidx, avaliadx, etc. Percebendo isso, faz uso de corrupção, mais que necessária nesse contexto. Mata aulas, ou cola, e é descoberto. Por que brigarmos com nossx filhx? É preciso orientá-lx a, em próxima ocasião, a fazer melhor, não ser pegx, ser mais inteligente… A corrupção por parte dos não-empoderados, como parte da mentira, em nossa sociedade repressora, é mais que necessária, é uma condição de sobrevivência. Lembre-se a escola é obrigatória para filhxs e pais. E a educação, seja privada ou estatal, é sempre controlada e determinada pelo estado.
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Não somos ensinados a isso, ao jogo da verdade e mentira, ao discernimento ético (posicionamento) entre uma e outra nos devidos contextos. Crescemos resistindo ao que nos coage sem que isso venha a nossa consciência, viramos, quando muito, calculistas, oportunistas, desleais porque não aprendemos a diferenciar os diferentes tipos de relações que enfrentamos no mundo. Nunca saímos de uma estrutura de reação infantil. Por exemplo, um casal amoroso supõe uma relação horizontal, não? Sem que ninguém se arrogue em proprietário do outro, não? Então, por que mentimos, traímos, somos desleais? Porque com nossa educação autoritária somos incapazes de relações livres… funcionamos pelo medo, medo das sanções (inclusive emocionais, chantagem) dos outros, daqueles q dizem nos amar…  repetimos a todo tempo as instituições que criam crimes e castigos… crescemos sádicos e pusilânimes, facetas que estarão aparentes dependendo dos lugares que ocupamos nas relações.
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Manipulação, competição e delação: não é incomum que com mais de um/a filhx, os pais manipulem, recompensando com espúrias, um/a delxs para delação dx outrx E x delator/a fará  isso com outrxs iguais diante de outrxs autoridades em outros contextos até porque, xs delatorxs costumam se vender por muito pouco: de um afago a uns níqueis… E o delatado aprenderá que é difícil a possibilidade de confiar em alguém: nem em seus pais, nem em seus/suas irmãos/ãs, em quem?
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Dizer sempre a verdade. Ser honesto. Repetidas vezes ouvimos isso, até a náusea, desde criança. Viva nossa educação autoritária, que prevê senhores e servos. Ouço de muitas pessoas que ostentam com um orgulho imbecil nos lábios “sou pobre, mas sou honesto”, ou seja, um/a submissx!! Ou de um indigente “por favor, uma esmola, eu podia tá roubando” E pergunto: por que não? Por que um/a pobre ou um/a indigente deve ser honestx? E honestx com quem? Apenas com seus iguais! Porque ser sempre honesto e com qualquer um é respeitar toda uma estrutura social-proprietária que xs oprime, é colocar em risco a própria sobrevivência, é andar sempre de cabeça baixa…
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Diante de qualquer autoridade, se vc não pode uma rasteira, e sabe que pode ser punido – por qualquer crime que inventaram contra vc – minta. Jogue sua herança moral fora, livre-se de um sentimento difuso e longínquo de culpa. Não faça disparar o detector de mentiras por medo, se escapa, não sofrerá nada, senão, valeu a tentativa. Na roda x escravx luta ou brinca? Ao seu senhor dirá que brinca, dirá que dança, mas xs outrxs escravxs sabem que elx luta. Um dia fundamos quilombos até que se espalhem pelo mundo e queimemos a casa grande e a senzala. Repense a educação dos pequenos nesse mundo em que alguns se arrogam senhores de outros…

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