“Nos Estados Unidos, a cada 28 horas um negro é morto”, afirma membro dos Black Riders

Publicado em: 19/03/2014 às 10:53
“Nos Estados Unidos, a cada 28 horas um negro é morto”, afirma membro dos Black Riders

Shango Abiola é membro dos Black Riders, a nova geração dos Panteras Negras, e esteve no Brasil para participar do VI Congresso do MST

Por José Coutinho Júnior e Manuela Hernandez.

shangoEm entrevista para o Brasil de Fato, ele analisa a luta dos negros nos Estados Unidos, a importância da educação para um movimento social e o papel de controle exercido pela chegada de Obama ao poder:

Como e por que os Black Riders foram fundados?

Os Black Riders são a nova geração dos Black Panthers, que em 1966 tinha o propósito de organizar a comunidade operária negra como catalisadora para terminar globalmente com a opressão capitalista.

Os Riders foram fundados em 1996, na Escola de Treinamento de Jovens (YTS, sigla em inglês), onde jovens negros que faziam parte de gangues de rua aprenderam sua história, e entenderam que as gangues foram criadas pelos programas de contra-inteligência dos EUA com o objetivo de fracionar o movimento negro.

Muitos dos líderes dessas gangues eram assassinados, porque a juventude lutava entre si por não ter consciência política, o que nós chamávamos de tribalismo. A partir daí, criou-se uma união por meio dos Riders.

Como é a vida dos negros nos EUA? É difícil para um movimento como os Riders organizar as pessoas?

É uma luta dura. Tem muita propaganda na mídia, por meio do consumo ou de programas, que passam a imagem de que vivemos em um país livre, onde todos são iguais. É muito difícil de organizar as pessoas por isso.

Apesar do que é propagado, pesquisa de um grupo de base nosso aponta que a cada 28 horas um negro é morto nos EUA, e mais de 85% destes está desarmado. Há muita violência contra a comunidade operária negra, que é facilmente criminalizada pela mídia.

A população negra brasileira é maioria na periferia e sofre violência cotidiana e, mesmo assim, se propaga a ideia de que não somos um país racista. Nos Estados Unidos há esse racismo velado também?

Sim, especialmente com a eleição de Obama, que foi uma resposta às pessoas ficarem mais conscientes aos efeitos do governo Bush no país e no mundo, que mostrou que a “democracia modelo americana” na verdade era um império fascista.

A seleção, não eleição, de Obama aconteceu pois muitas pessoas começaram a se organizar para se opor a estas políticas e questionar o sistema. Para acalmar as massas, impedir que elas continuassem lutando por seus direitos e afirmar que uma grande mudança poderia acontecer dentro do sistema e da estrutura capitalista – o que nós sabemos que não acontece – Obama chegou ao poder.

É colocado para o resto do mundo e para a população norte americana que as coisas estão mudando por causa de Obama, apenas por ele ser negro.

Mas quando você vê as políticas de seu governo, como a guerra ao Afeganistão, os drones, a população carcerária crescendo, negros sendo assassinados pela polícia com impunidade, as coisas ficaram muito piores na verdade, mas estamos sendo enganados com propaganda para acreditar que porque houve um símbolo selecionado, estamos fazendo algum tipo de progresso, mas ele não representa as massas ou os negros.

 Os Black Panthers priorizavam muito a educação. Como os Riders enxergam o tema?

Inauguramos recentemente a escola da liberdade George Jackson, em Los Angeles, e estamos trabalhando para construí-la em Oakland. George Jackson era um Panther que foi assassinado na prisão, porque mesmo dentro da prisão organizava os presos para lutar contra o capitalismo.

Nomeamos nossa escola em sua homenagem, e trabalhamos com os jovens, que não tem atividades de lazer e acabam indo para o crime. Oferecemos uma opção com hip hop, artes marciais, educação cultural, história revolucionária negra, latina, indígena e mundial também. Então lutamos para construir do legado que eles deixaram.

O que você está achando do Congresso do MST?

Estamos em solidariedade com o MST, estou impressionado com o que vejo. O tema de soberania alimentar, que muitas vezes é tratado como “assunto de branco liberal” nos Estados Unidos nos afeta e é muito importante.

Vou espalhar a mensagem do movimento e espero que possamos criar unidade, pois mesmo com nossas diferenças, temos as mesmas regras capitalistas que nos dominam e oprimem, às vezes com táticas diferentes.

Foto: Camila Rodrigues da Silva.

Fonte: Brasil de Fato.

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