No reflexo do velho: política brasileira de dentro pra fora

Quadro de Johann Moritz Rugendas (1802-1858) que retrata o interior de um navio negreiro. Foto de domínio público

Por Ramon Lima, formando em Ciências Sociais da FURB.

Um espectro ronda o Brasil, seria o espectro do comunismo? Não, o do anticomunismo mesmo. Agora remodelado em um antipetismo. O anticomunismo é uma propaganda política disseminada pelas agências norte-americanas arredor do mundo durante a guerra fria. Mas me parece que a classe media brasileira começou a digerir esse conteúdo agora com uns 30 anos de atraso, com novos moldes, o antipetismo.

Reformulado em candidatos como Jair Bolsonaro e João Amoedo, do Partido Novo, aproveita dessa insuficiência histórica da classe média, para fazer as mesmas políticas que Collor propagandeava em 89.

Nós, brasileiros, temos uma democracia muito jovem, levando em conta o período de redemocratização, houve apenas 12 presidentes eleitos que finalizaram seus mandatos. Em troca, tivemos 400 anos de escravidão, cerca de 25 gerações, cujas marcas ainda se fazem muito presentes, olhando as estatísticas e as cidades brasileiras, pelo número de favelas e jovens negros mortos.

Nos últimos anos existiram políticas sociais, cotas nas universidades que dobraram o numero de negros nas universidades, passamos de 5% para 13%, ainda muito irrisórios pensando que 50% da população brasileira é negra.

A queda do modelo desenvolvimentista do PT, queda do poder de consumo da classe média, juntamente com essas medidas paliativas de políticas sociais, surtiram o efeito da raiva, culpabilização e indignação, somados é claro, à campanha politico-midiática de perseguição aos partidos de esquerda. Resultam desde 2013, essa ascensão ao conservadorismo, mas não surgimento de um fascismo propriamente dito.

Há um público carente de informações em relação à historia do Brasil e a história da política brasileira. A ponto de negar a ditadura, a escravidão e fechar os olhos para as heranças dessas. A construção social do negro como marginal, a favelização e outros.

Antes de começarmos a debater, se interessar por política é papel do cidadão minimamente, se inteirar de alguns conteúdos, é papel de amigos e colegas deixarem avisados os outros demais. Está na hora de começarmos a dar dicas, sugestões, nos organizar enquanto bairro, escola, local de trabalho ao invés de partir para o confronto de interesses individuais.

Delimitar nossos interesses como cidadãos comuns e brasileiros. As pessoas em geral não estão esperando por uma revolução social, ou uma solução final, elas querem uma democracia que funcione, e para isso precisamos de mais política, mais diálogo e calma.

A escravidão acabou por volta de 1900, a ditadura em 1985. Estamos agora enfrentando as limitações das políticas sociais do PT e esse capitalismo tardio subdesenvolvido. Estamos enfrentando um dos primeiros desencantos com a democracia, mas não é se jogando do barco que se chega a algum porto mais próximo.

Precisamos enfrentar os mitos políticos, que ha uma conspiração internacional do comunismo, ou uma conspiração internacional de donos do mundo capitalista. O mundo politico é um quebra cabeça colorido, que se monta com uso de diversas lentes de leitura.

Política brasileira é uma rede complexa, um emaranhado, uma teia de atores sociais, que estão imersos nos privilégios herdados da escravidão e da ditadura, só conseguiremos dar um passo a frente na democracia ao reconhecer isso.

Ao se iniciar um debate hoje, prezo por princípios elaborados por Jurgen Habermas no livro A ética da discussão e a questão da verdade. Que são as seguintes:

  1. Que cada participante individual seja livre, para dizer “sim” ou “não”.
  2. Busca de um acordo racional; só sejam escolhidas soluções que sejam racionalmente aceitáveis para todos os envolvidos e todos os que por elas forem afetados.
  3. Vínculo social; deve se preservar entre os participantes mesmo quando eles se dividem na competição da busca do melhor argumento.

Então, por assim dizer, no primeiro ponto, que nós mesmos possamos tomar decisão, sem delegar a outro, e nós mesmos sustentar nossas ideias. Ponto dois, que sejam levadas em consideração as pessoas envolvidas no debate, exemplo, vamos falar de aborto? Ouviremos as mulheres, médicos. Ponto três, seria não nos excluirmos da vida social um do outro, quem sabe até mesmo das redes sociais, e que se permaneça em âmbito das palavras sem conflito animalesco.

A historia dos Estados-nação tem por volta de 2 mil anos, das relações internacionais por volta de 300 anos, a nossa democracia 35 anos. Os modelos PSDB e PT começaram a falir recentemente. Então, que tenhamos calma ao buscar novos projetos políticos, e lembrando que política, vem e cuidar da cidade, e ética, é cuidar de que forma iremos caminhar nela.

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