No Dia Seguinte

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

No dia seguinte, enfim, a paz reinou. No dia seguinte, logo quando foi nítido o término do espetáculo. Alguns vizinhos ainda entregavam o resto dos abraços do dia anterior, teciam os xingamentos restantes enquanto regavam as novas flores que nasceram. Com cores novas, inclusive. Outros dedicavam longos minutos emoldurando o jornal com a melhor foto do fato e agradeciam ao mundo por ter presenciado o término de um império do mal. A prisão do vilão trouxe paz para o desfrute do café da manhã.Talvez um sonoro “bom dia” foi acrescentado ao vocabulário matinal. Tamanha era a euforia que pouco se importaram com a sujeira de fogos na rua. Deixa pra depois. O agora está aqui gritando a felicidade de desejo saciado. Deixa pra depois o que não importa. O agora importa, meu amor. Comemoremos a vitória de nossa vontade, da sanidade e coerência. No dia seguinte ainda restava algum ódio, mas muito mais por ter que ter vivido tanto tempo com ódio. “Por que não antes, porra?” – era jargão. Mas nada que trouxesse dificuldades ao imenso prazer de “ter razão”. Porque no dia seguinte o estado de indiferença para com o cenário político voltou ao natural. A bolsa de valores operou de forma positiva e o Rei do Panará sorriu feliz ao constatar que sua rede social tinha ainda mais likes. Talvez tenha até alterado a foto do perfil, esboçando um breve sorriso, contudo não tão largo quando junto de outros homens de terno com bottons de ave. No dia seguinte toda tensão em torno do homem da linguagem coloquial era ainda menos importante, revelando que não era tão tensa assim. Disseram por dizer que era um início de uma era, que todos pagariam igual e que fariam pressão para que isso se concretizasse. Ainda, com cuidado, desenharam uma linda retrospectiva de todo o caminho percorrido até o êxito. Coisa de gente que ama o ontem. Ah… que saudade.

No dia seguinte a fome do mundo acabou. Guerras nem pensar. Tanto que os que antes matavam por dinheiro agora estavam seriamente engajados em contribuir com a vida e abraçar seus algozes. Até os testes nucleares deram lugar à amarelinha desenhada com giz. Assim como a corrupção, sendo assim instaurada uma nova ideia. A que a corrupção acabou para todo sempre e que nossos filhos não viverão algo tão horrível como vivemos. Além: Foi decidido num grande acordo nacional que todos envolvidos em tais práticas maléficas vão, de boa vontade e em nome da família, Deus e do cachorrinho Tobby, devolver tudo que pegaram sem discutir. Sem bater o pé ou reclamar. Porque não tem mais porquê fazer isso visto que o senhor supremo, o maestro da causa, o articular e percussor dessas ações não faria mais. Porque estava preso. E sua privação de liberdade trazia novos ares para o mundo. Sem mais motivadores.

No dia seguinte maiores e melhores esforços foram concentrados no futuro da nação visto que era ano de eleição. Poderiam traçar a melhor estratégia para as urnas e preservar a memória do tirano como parte da própria elevação. Funcionaria bem nas cabeças tão bem centradas, outrora, em decapitar o vilão. Aqui se faz, aqui se paga e a justiça é para todos. Não vem com essa de divisão. Vamos aproveitar este céu tão mais azul, as três marias que agora são seis e abolir a mania das ilustrações de coração em vermelho. Vamos nos concentrar nestes jornais que tanto nos engrandeceram, nos ajudaram ao informar sobre a existência deste câncer social antes revestido de cura. Obrigado! Sem vocês, nada valeria a pena. Boa noite! Cruz credo, senhor! Vamos comemorar a justiça e seu longo alcance. Abrangente alcance. Sua enormidade e eficácia. Esse país foi construído com trabalho e dignidade e não é um qualquer que vai tomá-lo de nossa pureza, clareza e ética. Vamos ser, enfim, felizes, meu povo. Que a vitória é nossa. A vitória é da nação que tanto fez pressão pela democracia. Vamos!  Vamos aproveitar a soberania de nossas alianças e ego.

Imagem: reprodução da internet.

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

 

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