No desfraldar das bandeiras

banderas longoPor Raul Longo.

Como cantava a música do Chico Buarque sobre outro povo que quis mudar seu país: “foi bonita a festa, Pá! Fiquei contente.”

Fiquei sim.

Até as ruas ficaram. Asfaltos e paralelepípedos se sentiram acarinhados por tantos pés que lhes deram maior sentido do que as insípidas borrachas de pneus que se deslizam sem rastro nem saudade, esmagando indiferenças.

Eram pés. Centenas de pés.

Centenas? Isso é conta de mentiroso das rádios e telejornais. Milhares de pés! Na previsível subestimação da mídia talvez não chegassem a mil, mas bem sabem as ruas que foram muitos pés e pela conta de dois por pessoa, muito mais de dois mil pés em passos que pareciam levitar na emoção de se saber multiplicado por idênticas convicções.

E a convicção era uma só. Sob cada bandeira, em todos os cartazes, no brilho dos olhares, no afago de tantos abraços e beijos, nas palavras dos manifestos, a mesma convicção de que, sim, é possível.

Ali, falando ou cantando, por vezes somente escutando, todos acreditavam no possível. As ruas acreditaram na total possibilidade de tudo o que é negado pelos privilégios e ganancias de poucos. Pelo descaso de meia dúzia à maioria. Pela inépcia e inércia dos acomodados. Por poucos que do muito que têm, nada produziram.

Mas ali, naquele momento das ruas, os tantos que produzem os privilégios que nunca lhes cabe nenhum, sentiram ter algo muito maior do que deles se confisca e rouba. Algo maior e inalienável: a certeza de que a convicção do possível  multiplicada em cada metro daquelas ruas poderá  realizar todas possibilidades.

Certeza também vinda das calçadas de onde observavam os que por algum motivo não podiam seguir a caminhada, mas das janelas jogavam papéis picados e dos portais dos edifícios levantavam um cumplice punho fechado. Como fez um garotinho no colo do pai, talvez já acreditando, convicto, em seu futuro ali desfraldado na alegria daquelas livres bandeiras. De punho cerrado ao alto, incentivando a força na certeza do possível, o menininho olhava a multidão, convicto de ser por si.

E era.

Claro que era! Tantas e tão diferentes bandeiras juntas não seriam pelas dúvidas de palavras vazias e incertas do que desejam, do que querem, de contra o que se pronunciam.

Tantas e tão livres bandeiras não seriam conduzidas por quem não sabe da própria história, não faz ideia do próprio futuro e não compreende o próprio presente. Não seriam de quem se esconde, de quem não se assume.

Agitadores profissionais não se identificam com bandeiras e não tem com o que dizer. Apenas gritam sem nada dizer.

Mas as bandeiras da festa nas ruas tinham muito a dizer. Contra ou a favor do governo, disseram suas certezas no Brasil possível. Apoiando ou criticando o governo, a mesma certeza de que a possibilidade de um Brasil melhor só depende dos brasileiros. De cada um.

Da força de cada brasileiro pra remover do país o que o atravanca, o impede de fazer possível um futuro a ser conquistado por todos. Juntos.

E lado a lado aquelas diferentes bandeiras de diferentes siglas, falaram pelos mesmos microfones. Contra ou favor do governo disseram das mesmas certezas e os dizeres de um cartaz: “ACELERA DILMA!” resumiu o que todas estava dizendo ou fazendo ali.

Contra ou a favor do governo, mas juntas, as bandeiras protestaram contra os que impedem e atravancam o cumprimento e avanço das propostas populares, os que pressionam pelo atendimento de interesses exclusivos e contrários aos da maioria dos brasileiros.

E eram muitas as possiblidades inscritas e faladas pelos microfones que pediam melhoria no atendimento da saúde, na educação. Pediam respeito ao direito de mobilidade e de segurança. Mais acesso à cultura e informação confiável. Melhores condições de vida e de trabalho. Reconhecimento aos esforços de quem trabalha, de quem produz e impulsiona a nação.

E comprovando saberem a razão de estarem ali, saberem exatamente o que significam e ao que representam, apontaram o que é preciso fazer para as possibilidades se concretizarem.

É muito o a ser feito, mas cada uma daquelas bandeiras demonstrou saber precisamente o que tem de ser feito para um Brasil possível.

Sabem, por exemplo, ser necessário substituir o MP dos Patrões por um MP de fato Público, para que se acabe com a criminalização dos movimentos sociais e de trabalhadores.

Sabem também ser necessário substituir os falsos tribunais de justiça, por tribunais de real Justiça. Nos manifestos de sindicatos e associações de trabalhadores foram denunciados diversos abusos estimulados pelos desvios dos tribunais trabalhistas. Como no caso de que foi vítima um funcionário da Empresa de Correios e Telégrafos de Santa Catarina, Paulo Eduardo Lima Farias, demitido por motivos fúteis após 26 de dedicação profissional à empresa.

Outro exemplo gritante é o do juiz que considerou ilegal uma paralização por aumento salarial, decidida pelo sindicato dos trabalhadores no transporte público. O juiz, Gilmar Cavalieri, condenou o sindicato por não respeitar o mínimo de 100% dos trabalhadores em atividade.

Para Cavalieri, o total é o mínimo. Por situações vexatórias como essa os manifestantes chegaram à conclusão de que para se tornarem possíveis dignas relações trabalhistas que contribuam com todas as classes sociais da nação, é preciso uma Reforma do Judiciário que retire do sistema a porcentagem de juízes que tendem para um único lado.

Mas nenhum manifestante chegou ao absurdo de considerar que se tenha de destituir 100% do juizado brasileiro, embora concluíssem que só é possível acabar com a corrupção e a impunidade no Brasil quando se acabar com falsos magistrados que condenam sem provas e dão cobertura judicial para crimes e criminosos comprovados.

Daí que Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes foram desonrosamente lembrados em muitas falas indicando os caminhos para o fim da corrupção e da impunidade.

Sobre as questões de economia muito se criticou o governo pela manutenção do sistema instaurado por Fernando Henrique para promover as exorbitantes receitas de banqueiros que além de reduzir o número de funcionários substituídos pela automação dos recursos informáticos, reduzem também os salários e benefícios previstos constitucionalmente reconhecidos aos trabalhadores; enquanto espoliam os correntistas com taxas e sobretaxas de serviços que não prestam, lucrando com a agiotagem do saldo de seus clientes que não aferem nada e pagam até para sacar o próprio dinheiro.

Para ser possível uma justa distribuição de renda e diminuir as distâncias entre as classes sociais, os manifestantes demonstraram a necessidade de uma Reforma Tributária e Financeira onde pague mais quem ganha mais e menos os que ganham menos. E não o inverso como continua ocorrendo no Brasil.

Referente à educação pública, os manifestantes indicaram como bastante possível a melhoria no estado de Santa Catarina, se o governo respeitar o piso salarial para professores do ensino público estabelecido pelo governo federal.  Acusaram na falta de respeito do governador que chegou a pôr a PM a espancar professores, um mau exemplo que impossibilita até melhores relações entre mestres, pais e alunos.

Uma medida sugerida pelas bandeiras das associações estudantis e que também influi no aproveitamento do aprendizado, é a quebra do monopólio das empresas de transporte para ser possível a melhoria de meios de locomoção na capital do estado que tem um dos mais deficitários sistemas de transporte coletivo do país.

Acreditam que eliminado o loteamento das concessões de linhas de transporte coletivo, há anos comercializadas pelos prefeitos e políticos municipais, a mobilidade pública que hoje praticamente inexiste passará a ser possível.

E apresentaram como proposta nacional uma Reforma Política que exija dos administradores regionais comprovação de efetivas realizações de interesse público, como parâmetro para destinação de verba pública de campanha à reeleição. Quem mais realiza merece mais verbas para obter a reeleição. Os que realizam pouco merecem o equivalente ao fraco desempenho. E os que nada realizam não merecem se reeleger.

As bandeiras consideram que assim será possível se desenvolver uma classe política interessada em realizações de interesse público.

Policiais Civis, juntos com a população, denunciaram seus salários como os mais baixos da categoria em todo o Brasil, apesar de Santa Catarina ser uma das unidades da federação com maior arrecadação de impostos. Denunciaram também as péssimas condições de trabalho e total ausência de investimento no setor pelo governo do estado.

Para ser possível a segurança da população, os manifestantes consideram necessário se responsabilizar o governador pelos crimes cometidos por bandidos comuns. Não chegaram a afirmar, mas à população ficou evidente se tratar de um tipo de banditismo a promover o outro.

Quanto às possibilidades de melhoria dos serviços de saúde pública, os manifestantes não se limitaram apenas aos aspectos regionais a serem bastante agravados se concretizados os esforços de privatização do governo estadual, seguindo os malfadados exemplos dos governos de seus aliados políticos em outros estados. E por razões humanas também apoiaram as medidas sugeridas pelo governo federal, lembrando serem as mesmas adotadas em diversos países do mundo. Como no Reino Unido onde 40% dos médicos são estrangeiros.

Daí o cartaz que pedia pela imediata vinda dos médicos cubanos, acusando o corporativismo dos médicos brasileiros de criminoso e indicando-os como “A Máfia de Branco”.

E também consideraram que com a extensão do curso de formação dos profissionais de medicina por mais dois anos de atividades práticas remuneradas, será possível a formação de médicos melhor qualificados para atender a população brasileira.

Ironizaram a alegação de falta de infraestrutura para atendimento nos interiores, lembrando que seriam inúteis os altos custos desse investimento se nossos médicos se recusam a atender até mesmo a população de periferias de grandes centros onde hospitais e unidades de saúde bem equipadas estão desativados por faltar profissionais, embora sejam mais bem remunerados do que os de muitos países em condições econômicas semelhantes às do Brasil.

Nas falas e cartazes, uma única e inequívoca resposta às necessárias e urgentes possibilidades de melhoria da condição de vida da população catarinense: responsabilização e punição ao governador que a exemplo de seu antecessor desvia para interesses privados o que deveria aplicar em benefício da população.

Tem muita lógica, afinal, num estado de pequena população que está entre os de maior arrecadação do Brasil, o atendimento de todas as reivindicações é possível e ainda sobra. Sobraria inclusive para promoção e fomento da cultura local.

Mas os manifestos também lembraram que é preciso combater e limitar a promoção da degradação da cultura nacional e produção de informações falsas. E indicaram como o incremento da produção cultural brasileira é possível com a quebra do monopólio da mídia em todo o país. Sugeriram reduzir as verbas publicitárias públicas destinadas aos veículos mantidos por monopólios de comunicação e informação, promulgando uma legislação de controle da mídia para evitar que se produza e divulgue falsidades e desinformações.

Também tem muita lógica! Não se combate a difusão de maus costumes, como o tabagismo, impedindo propaganda e divulgação desses produtos? Então como o governo e demais órgãos públicos destinam tanta verba publicitária para publicações e emissoras que difundem maus hábitos e mentiras, desinformam e estimulam preconceitos e outros desvios?

Não apenas induzem a população à ignorância e promovem péssimos comportamentos, como também se comportam pessimamente. Não satisfeitos em dispor de concessões públicas para faturar altíssima verba pública, sonegam quantias milionárias de impostos devidos ao mesmo público ao qual desinformam e deformam cultural e moralmente.

Razão pela qual os manifestantes também citaram a exorbitante e criminosa sonegação de impostos pela Rede Globo que corrompeu uma funcionária da Receita Federal para esconder o processo que incrimina a empresa. E aqui novamente aproveitaram para repetir que o fim da impunidade e da corrupção só será possível nesse país quando os falsos moralistas forem julgados e condenados por suas inverdades e crimes cometidos contra a nação.

Discorrendo pelas certezas de um Brasil possível a festa seguiu por toda a tarde alegrando e colorindo as ruas com suas muitas bandeiras livremente flanando ao vento e o agitar dos que orgulhosamente empunhavam seus mastros, identificando-se na confiança e no carinho por este país e por sua gente.

Bandeiras verdes e amarelas aclamando um Brasil aquecido por todas as demais que desfilaram certezas e sinceridade nas exigências de reformas, como a Reforma Agrária há séculos postergada. No vizinho Uruguai, por exemplo, a reforma agrária foi promulgada no início do século retrasado, em 1815.

Muitos caminhos possíveis e uma única convicção num Brasil possível, mesmo entre a discordância de direções.

Comprovaram ali nas ruas que quando a certeza no Brasil possível existe, não é importante concordar quanto ao melhor ou mais curto caminho. Importante é caminhar, pois que todos os passos levarão ao encontro de um Brasil melhor para cada um.

Quando só a multidão detém o direito de indicar o caminho, sempre haverá espaço para todas as bandeiras e a possibilidade de cada uma em algum momento ir à frente, mantendo o rumo.

E quando chegar esse momento será seguida sem medo. Sem a truculência daqueles que se envergonham de suas próprias bandeiras e símbolos, escondendo-se atrás de máscaras e capuzes. Aqueles que fizeram Chico Buarque lamentar pelo povo português: “Já murcharam tua festa, Pá!”

Que os ventos do país continuem a enfunar e farfalhar todas as bandeiras dos que acreditam ser possível um país chamado Brasil, pois com erros e acertos são os únicos a poder realizá-lo. Jamais aqueles que na semana passada inscreviam em letras negras na bandeira brasileira: “LIXO”.

Aqueles não queriam festa. Queriam o velório dessas bandeiras que ontem, juntas, coloriram as ruas abrindo os caminhos de possibilidades para todos os brasileiros.

Fiquei contente.

Foto: Clarissa Peixoto.

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