Netflix e crise afundam TVs por assinatura

Por Altamiro Borges.

Na semana passada, uma notícia deve ter apavorado as emissoras de tevê por assinatura, em especial o Grupo Globo – que domina o grosso deste mercado. A Netflix, que exibe séries e filmes pela internet, anunciou um crescimento recorde no último trimestre de 2016. A empresa ianque adicionou 7,05 milhões de novos assinantes, a maior parte (5,1 milhões) fora dos EUA. Agora, do total de 93,8 milhões de membros, 47% estão espalhados pelo mundo. Um dos locais de maior expansão do serviço foi exatamente o Brasil – que virou um laboratório da estratégia bem sucedida de crescimento da Netflix no mundo.

Como aponta o jornalista Mauricio Stycer, em matéria publicada na Folha deste sábado (21), o resultado confirma o acerto da empresa na busca da expansão global. “E o lugar do Brasil nesta estratégia foi mais uma vez reiterado no informe aos acionistas. Além do lançamento de ‘3%’, a primeira série produzida no país, o ano que passou registrou também a estreia da segunda temporada de ‘Narcos’, a série que, de acordo com a Bloomberg, mais fez pela Netflix no Brasil… ‘É aqui, na sombra da Globo, que a Netflix vem criando, revisando e aperfeiçoando o primeiro rascunho de seu manual internacional’, diz a Bloomberg”.

O corte dos gastos supérfluos

Na ausência de dados oficiais, estima-se que a Netflix já tenha entre 4 e 5 milhões de assinantes no Brasil. Quem mais sofre com esta expansão é exatamente a tevê paga, que não consegue peitar a concorrência. Em novembro último, ela contabilizou 18,9 milhões de assinantes – 350 mil a menos do que no mesmo mês de 2015 e um milhão a menos do que o registrado no final de 2014. A queda vertiginosa de assinantes não decorre apenas da concorrência da Netflix e de outros serviços pela internet. Ela também deriva do agravamento da crise econômica no país. Os brasileiros estão reduzindo os seus gastos.

Ricardo Feltrin, em matéria no jornal A Tarde, analisou o impacto destes dois fatores na Bahia. “Em tempos bicudos como os atuais, a primeira coisa que as famílias fazem é cortar gastos e a lâmina sempre começa sobre o que é considerado supérfluo ou pelo menos que não seja de necessidade básica. E a assinatura de TV está nessa condição Embora nos últimos meses a TV paga tenha até ensaiado um crescimento em sua base de assinantes baianos (principalmente com a chegada da Net), desde o primeiro trimestre de 2015 ao menos uma em cada dez residências com TV por assinatura cancelou o pacote”

“Havia cerca de 680 mil assinantes baianos em janeiro de 2015. Hoje são 615 mil. E a tendência parece ser de uma retração maior em 2017. Um dos motivos óbvios é a crise econômica e a insegurança de muitas famílias em relação ao futuro próximo. Outro provável fato é a migração de muitos assinantes da TV paga para os serviços de streaming como o Netflix. Para quem está com orçamento apertado, não é muito difícil escolher entre manter a banda larga ou a TV por assinatura em casa. Vejam só: se dentro da família não há pessoas com hábito de acompanhar telejornais ou se ela não tem fanáticos por futebol e outros esportes, o ‘desligamento’ da TV por assinatura às vezes não faz falta alguma. Mas reflete positivamente no orçamento no final do mês. Em média, os brasileiros gastam cerca de R$ 140 mensais com pacotes”.

Batalha encarniçada e “desleal”

As tevês pagas até têm feito um baita esforço para enfrentar esta batalha “desleal”. Ainda segundo Mauricio Stycer, “a Globo tem reagido em várias frentes. Uma delas é o investimento pesado em seu aplicativo on-line, resultado da percepção de não há mais como trazer para a televisão linear parte do público que a trocou pela internet”. O império global também diversifica os seus produtos. “A programação neste mês de janeiro fornece outras informações importantes. Intensificando uma atitude já observada em anos anteriores, a emissora ofereceu um grande cardápio de novidades, enquanto as suas principais concorrentes serviam o público com reprises e melhores momentos. Até o fim do mês terão sido oito estreias”.

Apesar destes esforços, o cenário segue adverso e deve piorar, como observa Keila Jimenez, do site R7: “Quem pensava que seria uma onda que iria passar, se enganou. A Netflix divulgou nesta semana o seu resultado financeiro de 2016. O serviço de vídeo sob demanda registrou um lucro de US$ 186,6 milhões no ano passado, um aumento de 52% em relação ao resultado de 2015. A receita também cresceu no período: passou de US$ 6,78 bilhões em 2015 para US$ 8,83 bilhões, um crescimento de 30,4%. Atuando em mais de 100 países, a Netflix encerrou o ano com 93,8 milhões de usuários, 19 milhões a mais que no final de 2015. E o grupo promete seguir investindo pesado em produções originais”.

Tributação e a guerra política

Nesta batalha encarniçada, nem tudo é decidido pelas chamadas regras do mercado. Isto ajuda a explicar porque as emissoras decidiram investir em outro terreno, o político, para reverter o quadro desfavorável. O engajamento no “golpe dos corruptos”, que alçou Michel Temer ao poder, compõe esta estratégia. Nos acordos de bastidores firmados com os golpistas, um item é o da contenção dos serviços pela internet. Daí a proposta, tratada em regime de urgência, da elevação dos tributos cobrados da Netflix, Spotify e congêneres. Para evitar a concorrência o melhor é matar o concorrente – uma tradição no capitalismo!

O mesmo Ricardo Feltrin, em matéria publicada no início de janeiro, tratou deste jogo sujo. “Digamos que as ‘forças obscuras’ prevaleceram e assim, como num passe de mágica, estão enfiando a mão no nosso bolso sorrateira e novamente. A partir deste ano quem assina Netflix ou algum outro serviço de streaming (de áudio ou vídeo) terá de pagar no mínimo mais 2% de ISS (Imposto Sobre Serviços)… O motivo do aumento do nosso imposto se deve a uma briga de cachorros grandes. Ou melhor, grandes corporações”. Nesta guerra campal, as multinacionais da telefonia, as poderosas teles, e as emissoras de televisão se uniram para barrar o crescimento dos serviços de streaming dos seus concorrentes.

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