Na porta do mercado. Por Claudia Weinman

Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

Estacionei para ir até a farmácia. Os gatos precisavam de glicerina e colírio.

Me atentei à porta, antes de descer do carro. Olhei aos lados. Ali não cobram rotativo, é lugar de gente importante.

“Tia, compra uma coisa pra mim”?

Ninguém respondia. Ninguém falou nada. Fingiram não ver. Mas ele estava ali, concentrado na porta, encostando o rostinho no vidro para ver o que tinha por dentro.

Não poderia ele, menino de rua, índio, entrar sem dinheiro. Nem pedindo lhes deram algo, imagina se pegasse e saísse porta à fora.

Fotografei enquanto a empregada empurrava o carrinho, me olhou com lentes de chefe, mas não era.

Desci, sem explicar. Não preciso.

Reconheci o menino cuja família foi colocada em um caminhão da prefeitura faz um tempo, e jogados em área afastada da cidade.

– “Vai menino, vai falar pra teu pai trabalhar. Aqui não tem nada pra ti”!

Uma frase doída. Pelo menos pra mim que conheço pouco, tão pouco dessa vida indígena.

Seguiu ali, na porta do mercado. Ali não cobram estacionamento, ufa! Um dos poucos lugares que não cobram, que beleza, incrível que ali, mercado, ainda não tenham estendido a linha azul. Fantástico. É de graça, *0800 mesmo.

Ufa. O menino saiu, para o “bem” de todos. Voltou para a área retirada, para onde dizem ser o seu lugar.

Interpretem, por favor, a ironia.

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Claudia Weinman é jornalista, diretora regional da Cooperativa Comunicacional Sul no Extremo Oeste de Santa Catarina. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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