Na linha da morte: os trabalhadores, da solidariedade também. Por Claudia Weinman

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

Alcançou-me pelo portão. Alguns abacates, limão, um caqui quase no ponto. Nunca foi assim para essa geração e para o mundo também têm sido algo inusitado, mesmo com a gripe espanhola e outras afecções que foram chegando. Hoje a China voltou a registrar transmissão local do novo coronavírus. A partir da meia-noite de sábado dia 28, ninguém mais desembarca no país. Hoje também no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou 92 óbitos por coronavírus e 3417 casos.

Hoje em Santa Catarina um pastor denunciou que não há testes suficientes e que estes chegarão ao final de abril. Até lá, as mortes serão consideradas: pneumonias. Fica mais fácil assim.

Ontem na Câmara dos Deputados se aprovou um projeto de renda mínima que segue para o Senado, de auxílio de R$ 600,00 podendo chegar a R$ 1.200,00 para vários casos de trabalhadores/as no país.

Ainda em Santa Catarina foi aprovado na quarta-feira, na Assembleia Legislativa, um projeto que proíbe o corte de energia elétrica, água, esgoto e gás até 31 de dezembro e suspende a cobrança das contas desses serviços, referentes aos meses de março e abril de 2020.

Ontem em Balneário Camboriú, também em Santa Catarina, o Jair Bolsonaro mostrou em suas redes sociais virtuais uma carreata pedindo o fim do isolamento social no país. Hoje no Paraná, em vários momentos do dia, também teve carreata. Mas ninguém foi para as ruas, ninguém se tocou. O empresariado coloca como sempre, na linha de frente, o trabalhador.

A morte de 92 pessoas não é um número considerável, não é mesmo? Imagine 92 pessoas vindo em sua direção, todas da sua família. Não é considerável? Para o capital não nem para o capitão. A mãe do presidente não é uma vida importante para ele.

Mesmo com o número crescente de contaminação, o governador Carlos Moisés voltou atrás do seu discurso e autorizou o funcionamento de bancos, lotéricas e cooperativas de créditos para atendimentos. Academias, shopping centers, bares, restaurantes e comércio em geral estão autorizados, bem como os trabalhos autônomos em Santa Catarina. A regra é passar álcool em gel e salve-se quem puder. Nem o bombeiro vai salvar vidas. A roda do capital é impressionante.

Eu recebi os abacates e me recolhi. Lavei bem com água e sabão. Pedi se o vizinho aceitava um também. Dizem que é bom tomar limão com água em jejum. Tentei gravar ontem alguns vídeos de poesia, na área de casa, mas não consegui. A circulação de pessoas com carros é intensa. Tudo parece normal, como naquele dia 17 que fui ao mercado e achei que estava tudo bem. Depois era dia 18 e percebi a farsa. Agora, vamos ver. Tenho medo pelos meus que estão na roda do mercado em risco, mas, quem sabe, vale a pena reforçar uma coisa que é muito certa nesse sistema e gostaria de responder ao presidente. Não são todas as vidas que importam mesmo. Não para mim. A vida desses capitalistas, que se escondem em suas casas pomposas não me interessa, suas doenças não me interessam, seus choros não me tocam. Agora, têm muitas vidas que significam e que estão ligadas infelizmente, com essas pessoas que nada além do lucro consideram.

Ah, antes que eu esqueça. Obrigada Tayson (da foto de capa) pelos presentes de hoje. Vou me recolher agora.

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Claudia Weinman é jornalista, vice-presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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