Museu da Língua Portuguesa mostra porque Jorge é Amado e universal

Por Guilherme Bryan.

Não poderia ser mais apropriado o título da exposição em cartaz no paulistano Museu da Língua Portuguesa, em homenagem ao centenário de nascimento do mais importante e popular escritor baiano – “Jorge, Amado e Universal”. Com farto material trazido da Fundação Casa de Jorge Amado e grande variação entre as salas, a mostra, que pode ser vista até 22 de junho, segue depois para o Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador.

Logo na chegada do andar dedicado à exposição, o que se vê é algumas frases de Jorge Amado escritas num muro em que cada letra ocupa um azulejo. Em seguida, há uma sala com vários monitores de televisão espalhados e exibindo vários trechos dos romances lidos em voz alta, além de alguns depoimentos e documentários. O grande problema é que os sons se sobrepõem uns aos outros, sendo praticamente impossível permanecer por ali tempo suficiente de desfrutar a riqueza do material.

Nessa mesma sala, há datiloscritos com correções feitas à mão por Jorge Amado e ilustrações das obras e fotos relacionadas ao universo dos romances. E chama atenção as centenas de fitas coloridas, semelhantes a do Senhor do Bomfim, com o nome de vários personagens, caso de Calasans Neto, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”; do Boa-Vida, de “Capitães de Areia”; e do Cabo Martim, de “Quincas Berro D’Água” e “Pastores da Noite”, amarradas numa parede.

O módulo seguinte é “Sala Jorge Amado Público”, um dos mais impactantes, graças à presença de textos girando como se estivessem em máquinas de linotipia, artigos de jornal espalhados pelas paredes, junto com fotografias e até a propaganda eleitoral de quando se candidatou a deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em seguida, é a vez de se manter contato com objetos da cultura baiana, como charutos, e imagens que comprovam o sincretismo religioso, que inclui o catolicismo e o candomblé, em meio a garrafas de areia com frases do escritor.

A quarta sala visa mostrar Jorge Amado como o “escritor de putas e vagabundos”, mas comprova mais uma vez um equívoco. Dessa vez, luminoso. Trata-se de um espaço todo metálico, com uma forte luz vermelha, capaz de provocar certo mal estar, e trechos de livros, como “Tieta do Agreste” e “Gabriela Cravo e Canela”, que tratam da questão da sensualidade e da malandragem que só podem ser espiados quando se olha no interior de rachaduras abertas nas paredes.

Com uma parede toda criada com grãos de cacau – algo extremamente criativo -, o quinto módulo mistura vídeos, em que é possível escutar Caetano Veloso interpretar a música-tema da minissérie “Tenda dos Milagres”. No sexto módulo, também há um monitor de televisão em que é possível ver e ouvir a escritora e esposa de Jorge Amado, Zélia Gattai, relatar como foi conquistada por ele. Há também fotografias retratando a realidade baiana, com direito a muitas referências ao mar.

A sexta sala é ocupada por uma centena de fotografias de Jorge Amado com amigos como Dorival Caymmi, Maria Bethânia, Vinicius de Moraes, Fidel Castro, Tom Jobim, Glauber Rocha, Sonia Braga e Grande Otelo, entre outros. Também estão em destaque as famosas camisas coloridas usadas pelo romancista, assim como seus livros preferidos, como os de Castro Alves, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Sérgio Buarque de Hollanda e Conan Doyle.

Há ainda um espaço para ver várias edições dos mais famosos livros, uma linha do tempo do escritor, em que é possível descobrir curiosidades como o fato dele ter gravado com Dorival Caymmi dois discos (“Canto de amor à Bahia” e “Quatro acalantos de Gabriela Cravo e Canela”), e também para cartas trocadas com, entre outros, Oscar Niemeyer e Mário de Andrade.

“Seus livros da Bahia revelam-me mais que um escritor, que um romancista, que um analista. Revelam-me uma força da natureza, uma espécie de harpa eolea que ressoa a passagem dos ventos dos dramas da miséria”, lhe escreveu, em 23 de agosto de 1936, o escritor Monteiro Lobato.

Portanto, a exposição, que tem direção geral de William Nacker, coordenação de conteúdo de Ana Helena Curti e expografia dos craques Daniela Thomas e Felipe Tassara, merece ser visitada pela riqueza do material exposto de modo bastante organizado e lúdico. Registra-se, porém, que o conjunto da mostra peca ao descuidar da poluição visual e sonora, e aos eventuais problemas de iluminação dos espaços.

Porém, Trata-se de uma bela homenagem ao escritor que espalhou a realidade brasileira ao redor do mundo. Porém, alguns equívocos, facilmente corrigíveis, impedem que ela seja saboreada de modo semelhante à como sempre foram as páginas dos principais romances de Jorge Amado.

Serviço
Exposição Jorge, Amado e Universal.
Até 22 de julho. De terça-feira a domingo, das 10h às 17h
Ingressos a R$6. Grátis aos sábados
Museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, s/n. Centro – São Paulo
T: (11) 3326-0775

[email protected]

 Imagem: Jorge Amado, homenageado por centenário de nascimento, com exposição abrangente em SP e Salvador (Foto:FCJA).

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