Mulheres palestinas e muçulmanas na política. Por Francirosy Campos Barbosa.

Por Francirosy Campos Barbosa.

É comum na história o apagamento, o silenciamento de mulheres, mas ao contrário do que muitos pensam, no Islam, desde o século VII as mulheres ganharam um lugar de destaque, inclusive na guerra, na política, na ciência. Aishah esposa do Profeta Muhammad SAAS foi uma grande combatente, além de médica e transmissora de mais de 2000 hadices (ditos, falas e comportamento do Profeta). Levar as mulheres à guerra era também uma estratégia para que os homens não desistissem das batalhas, além de serem elas que cuidavam dos feridos, da alimentação e muitas também guerreavam. O universo feminino nunca foi de “acomodação”, mas sim, o da ação propulsora que mobiliza a sociedade e suas lutas.
Quando olhamos para Palestina vemos a força das mulheres em toda parte, seja em casa com os filhos, seja na luta diária pela libertação de um povo oprimido por sionistas. Destaco nesta linha de frente Leila Ali Khaled nascida em Haifa em 1944. Khaled era criança quando sua família tornou-se refugiada junto com mais 750.000 palestinos, quando o Estado de Israel “ocupou” terras palestinas em 1948, destruindo casas, violentando e barbarizando o que viam pela frente. É neste contexto que Leila Khaled cresce e se torna uma das palestinas mais resistentes da luta contra o sionismo israelense, que inspira as novas gerações de palestinas e militantes pelo mundo.

Khaled é militante da Frente Popular para a Libertação da Palestina, se popularizou nos anos 1970 por ser uma das poucas mulheres árabes envolvidas em atividades revolucionárias. Hoje faz parte do Conselho Nacional Palestino. Importante destacar a sua aproximação com a teoria marxista revolucionária, por isso, se tornou admiradora de Fidel Castro, Che Guevara, entre outros. Se a sua forte atuação levou a admiração de muitos, de outros, a consideravam terrorista, o que ela sempre respondia: “Sempre que ouço essa palavra, faço outra pergunta. Quem plantou o terrorismo em nossa área?”.
Recentemente a deputada do partido do Hamas, Huda Naim, em live realizada pelo Ibrapal – Instituto Brasil Palestina, nos conta que muitas mulheres fizeram e fazem parte da resistência na Palestina, muitas se tornaram mártires. Naim revela que partiu da iniciativa de mulheres venderam suas joias (ouro) para ajudar na ocupação. A contribuição feminina vem de todos os âmbitos – afirma a deputada do Hamas -, seja em casa cuidando e incentivando a família, na política, no martírio. Muitas mulheres estiveram presentes na Grande Marcha do Retorno, algumas mulheres morreram por esta causa, uma caminhada de seis semanas saindo de Gaza a fronteira com Israel. Não foi apenas de um partido político, foram de todos os partidos. Com opiniões diferentes se uniram contra a ocupação, afirma Naim.
A invasão colonialista é sempre sexista, os donos das terras, também se sentem donos das mulheres, por isso, quando as mulheres reagem, a causa palestina toma outra visibilidade. Na construção de uma democracia a participação das mulheres é necessária e na construção por uma Palestina livre a mobilização feminina ganha contornos contra a estigmatização de seus corpos, de suas crenças, do seu papel social. Historicamente houve sempre uma tentativa de subalternizar o espaço das mulheres, seus corpos e suas múltiplas atuações ao lado dos homens, entretanto, a resistência ao colonialismo fortalece a nossa luta feminina/feminista, para isso, é fundamental avançarmos na igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Huda Naim, ainda nos conta, que infelizmente na Palestina muitas mulheres seguem presas pelo estado sionista de Israel. Há também a luta constante das mulheres de não serem consideradas importantes, apenas, para o espaço interno, familiar, muito embora, em se tratando de estudos, elas estão em todas as áreas: medicina, enfermagem, engenharia. Na Faixa de Gaza o número de mulheres que se formam é maior que de homens. E isso sinaliza também uma maior projeção futura dessas mulheres em diversos espaços da esfera pública.
Se as palestinas seguem resistindo, as muçulmanas nas eleições estadunidenses desta semana também. As congressistas muçulmanas estadunidenses Ilhan Omar e Rashida Tlaib foram reeleitas para seus assentos na Câmara dos Representantes do EUA, respectivamente de Minnesota e Michigan. Em 2019, Omar e Tlaib foram atacadas com comentários racistas pelo presidente Trump via Twitter, o discurso do presidente é que as congressistas voltassem para o seus países “falidos”, mesmo as duas tendo cidadania estadunidense. Tlaib de origem palestina também sofre resistência de outros colegas de partido quando se trata de defender a Palestina, mas agora, nem ela e nem sua companheira de luta Ilhan Omar estão mais sozinhas na construção desta representatividade palestina e islâmica formada por mulheres.
Outras quatro mulheres muçulmanas venceram as eleições em seus distritos: Mauree Turner, Madihah Wilson-Anton, Iman Jodeh e  Nisa Allam.  Mauree Turner venceu a disputa pela Câmara do Estado em Oklahoma, será a primeira legisladora muçulmana eleita para a legislatura do estado é a primeira deputada não binária e muçulmana eleita (não binária é quando a identidade de gênero ou expressão de gênero não está limitado a ser feminino ou masculino). Em Delaware, Madinah Wilson-Anton se tornou a primeira muçulmana negra eleita para a legislatura, ela diz que espera que a sua vitória seja exemplo para crianças negras e muçulmanas e continua: “à nossa comunidade que fazemos parte deste país, não importa se você é da primeira geração ou se é descendente de africanos escravizados. Todos nós fazemos parte deste país”. Iman Jodeh, filha de palestinos, ganhou a eleição para a Câmara dos Representantes do Colorado, será a primeira legisladora muçulmana na história do estado. Jodeh nasceu no Colorado, formada em administração de empresas em uma das entrevistas antes das eleições declara: “Não estou concorrendo para ser a primeira, e essa nunca foi minha intenção”, disse ela. “Estou concorrendo porque sinto que as minhas experiências vividas tem a capacidade influenciar a política progressista e mover de forma positiva”. Nisa Allam (Durham County Commissioner), a primeira muçulmana a ser eleita em Carolina do Norte, diz que suas prioridades incluem segurança pública, combate a pobreza, recursos de saúde mental. Allam se formou na Universidade Estadual da Carolina do Norte com bacharelado em Materiais e Tecnologia Sustentáveis. A representatividade dessas mulheres perpassam o que Houria Bouteldja chama de “classe, raça e gênero” eixos que fortalecem ainda mais um discurso progressista na política  norte-americana.
A presença dessas mulheres na política estadunidense teve uma semente plantada em 2017 na Marcha pelas Mulheres, conferir o artigo que escrevi em 2017: “ #Womenmarchs e #WorldHijabDay: em tempo de recrudescimento de políticas antimulheres – muçulmanas”. Neste momento já era possível perceber que as mulheres muçulmanas iriam despontar na política estadunidense tornando-se vozes potentes.
No Brasil, o movimento não é diferente. Desde a candidatura de Neide Tameirão pelo PT, e de Soraya Misleh pelo PSTU em 2018, esta última, uma representante importante e vigorosa da causa palestina, já sabemos que tanto as muçulmanas como a causa palestina estariam em pauta. Ainda não elegemos uma candidata com a pauta pela Palestina ou pela comunidade muçulmana, mas temos novamente no pleito mulheres dispostas a isso como é o caso da filha de palestinos Fátima Hussein candidata a vereadora por Florianópolis; Rihab Hammadeh candidata por Santo André nas eleições municipais de 2020; e por Franco da Rocha, Aline Sobral participa de um coletivo de cultura que tenta se eleger. Além de enfrentar o corpo a corpo de fazer política, essas mulheres tem sido alvo de intolerância religiosa, preconceito e violência por meio de suas páginas virtuais. O caso de Hammadeh virou manchete no jornal local tamanho a agressividade.
A mobilização de mulheres muçulmanas tem relação também com a invisibilidade que é dada a elas, mais por grupos externos, que a estigmatizam, do que pela comunidade da qual pertencem. Provar que não são mulheres reprimidas e subjugadas por usarem lenço, virou uma questão importante neste debate. Mulheres muçulmanas não estão com suas ideias escondidas ou apagadas pelo véu islâmico. Este representa a sua entrega a Deus e não aos homens.
Tameirão na sua campanha a deputada em 2014 foi agredida nas suas páginas públicas de divulgação da campanha. Na verdade, esta prática de se esconder por meio da internet é uma prática corriqueira no Brasil, mas hoje, já há dispositivos de leis e modo de conter este tipo de violência cibernética. Intimidar mulheres é uma prática sexista, machista e violenta, intimidar mulheres muçulmanas é uma prática daqueles que desconhecem a religião e promovem o que venho chamando de islamofobia de gênero, onde a vestimenta de uma mulher muçulmana vira motivo para comportamento hostil. Muitas atacam dizendo que elas deveriam voltar para os seus países, desconhecem o fato de que são brasileiras com ascendências diversas. A misoginia é clara nesses ataques que desqualificam a mulher e seu pertencimento religioso.
Em abril de 2018 foi sancionada a  lei Lola 13.642/18 como é conhecida a blogueira Lola Aronovich que sofre ameaças misóginas na internet desde 2008. No caso de Hammadeh certamente esta é uma das leis que podem ser acionadas, além da lei contra crime de racismo religioso. É muito comum mulheres muçulmanas que usam lenço (hijab) escutarem: volte para sua terra! Mesmo discurso proferido pelo presidente Trump contra as deputadas em 2019. Nesta luta ainda desigual de mulheres na política como é o caso do Brasil, precisamos garantir que as leis nos protejam enquanto cidadãs, sendo aplicadas e que os nossos direitos sejam reconhecidos. Importante dizer que as pessoas tem o direito de discordar politica e religiosamente das candidatas, mas não tem o direito de atacá-las, vilipendia-las promovendo discurso de ódio em suas páginas públicas.
A luta das mulheres não é menos importante, mas precisa ser construída mobilizada pelas demandas de outras mulheres e de outras esferas de saber. Buscar diálogo com os diversos movimentos sociais é fundamental para ver essas candidaturas mais protegidas de ataques que atinge o sujeito de direito. Penso, que chegará um dia que ter mulheres-muçulmanas na política seja algo normal e não novidade em nosso país. A busca por representatividade é direito de todo grupo social. O que precisamos é ampliar o debate e a mobilização de mulheres. Não há luta sem mulheres, não há transformação social possível onde as mulheres não estejam presentes em todas as esferas.
Torço por maior participação de mulheres muçulmanas, negras, lgbtq, indígenas. Um mundo plural e progressista precisa, sobretudo, de representatividade feminina, da sua força e do seu comprometimento com direitos humanos, direito à terra, direito aos seus corpos e pensamentos.

1 COMENTÁRIO

  1. Interessante artigo mas a autora defende o pior patriarcalismo em nome do pluralismo e do feminismo.
    Mulher que não sai de casa com o véu islâmico em países muçulmanos pode acabar morta.
    Quem abandona o Islam é condenado à morte ou a cadeia em mais de 10 países muçulmanos.
    O Islam é a unica religião que não tolera o politeísmo, como o que existia na Arábia antes dos muçulmanos, com deusas mulheres, mas aceita a poligâmia e a escravidão sexual.
    Onde o Islam faz parte da legislação, as mulheres e os não muçulmanos têm menos direitos que os muçulmanos.
    O primeiro que falou de liberdade de conciênica na língua árabe foi um pensador libanés, em finais do século XIX, e era cristão.
    O véo femenino, a escravidão e o patriarcalismo são instituções associadas. Quem leva o véo manda uma mensagem às mulheres que não o levam: a sexualidade das mulheres é controlada pelo homens, e a mulher que não leva o véu é responsável de ser estuprada por ter exposto os seus sensuáis cabelos aos homens. Na origem, na Assíria, só as prostitutas (mulheres públicas) podiam sair de casa sem véu.
    Ilhan Omar nunca criticou a mutilação genital femenina, um tipo de tortura que atinge à mais de 90% das mulheres na Somalia, o seu país natal. Uma tortura para as meninas, que muitas vezes morrem disso, e que nunca poderão gozar.
    O Islam não só manteve a prática, mas levou ela para outros países muçulmanos. Porém, ela defende o Islam e o véu.

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