Monólogos Cotidianos – Frágil

Foto: Sharon McCutcheon/Pexels

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

– A parte mais complicada não é ser frágil. A parte complicada é não poder ser frágil. E por vários fatores. Me ocorrem dois. Primeiro que lá fora tem um mundo cão gritando pra usar a força o tempo todo. Força pra aceitar uma rotina absurda sem reclamar. Força pra lidar com o monte de situações que podem acontecer cada instante. Força pra atropelar quem queira nos atropelar. É a lei da terra! Quem tem o maior machado que corte a maior árvore. E a gente lida com isso todo dia. Ou seja, o próprio mundo nos impede desse natural. Primeiro ponto! Agora o segundo ponto! Você imagina eu, um homem desse tamanho, sendo frágil. Acabou o respeito mesmo! E não falo de viver sofrendo pelos cantos. Falo de ter a fragilidade que todo mundo tem e que os espertos usam para benefício próprio como oportunidade. Percebe uma coisa. A gente precisa estar sempre controlando tudo! Todo tempo. Não vê? Sucumbir é um atestado de fracasso enorme e impensável! Exemplo: teve uma vez que eu estava lendo em pé no ônibus. Eu estava tão dentro da história que, caso olhasse pela janela, certeza que veria os personagens lá fora. Pois bem. Fui lendo e me dei conta que meu ponto era o próximo. Fechei o livro no susto, meti dentro da bolsa e bem neste instante, em que segurava a bolsa com as duas mãos, o coletivo inventou de passar num buraco. Quase meti a cara no chão. Segurei com força e sorte no ferro e senti uma vergonha absurda. Um medo de terem me visto quase cair, um medo de alguém ter filmado. Ali eu já não era o leitor sedento por conhecimento. Eu era o cara atrapalhado que quase caiu no ônibus. E vi que uma de minhas fragilidades está justamente no medo de verem algo que eu possa ser, algo distante do que tento todo o tempo afirmar que sou. Ainda que isso é pequeno. Vai ver que se a gente tivesse espaço e carinho pra essas questões, a gente seria mais saudável. Se o medo que a gente sente fosse passível de diálogo e não escondido atrás de um muro de socos, socos tantas vezes que damos em nós mesmos, tudo seria mais fácil. Não é? E pensando nisso, me ocorrem umas coisas. Vai ver que a gente tem já quando nasce um baú dentro de algum buraco. E a noite nossa alma leva pra lá tudo que possa abrir a cortina que mostra nossa fragilidade. Vai ver que nosso corpo é grande porque assim, quando a gente grita lá dentro, ecoa mais. Mas esse eco não bate nas nossas paredes internas e desse modo não racha. Fica tudo lá, perdido e bagunçado. Que de tanto ter que ser forte, igual eu falei antes sobre ser homem e ter esse tamanho, a gente só consegue bater. A gente busca a fragilidade do outro pra não dar tempo de mostrar a nossa. É quase um exercício de sobreposição. Ou é. Vai saber. O outro é frágil, o outro é isso e aquilo. Ele fala. Eu não falo. Eu não sou. Eu vivo meu processo de me manter imune. Que loucura, não? Se proteger se matando. Porque na busca por nos mantermos pra dentro sempre, a gente vai adoecendo. Vai ficando bruto demais. Convicto demais. E aberto de menos. Até explodir. E explodir todos ao redor. Justamente por acreditar muito que está certo. Logo, por acreditar que fragilidade é fraqueza. E que a fragilidade não pode habitar homens do meu tamanho. Sim… não pode! Não pode?

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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