Monólogos Cotidianos – A Família

Durante os meses de setembro e outubro, Guigo Ribeiro apresenta a série "Monólogos Cotidianos" , que parte da análise de temas cotidianos considerados polêmicos.

Foto: Pixabay

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

– Não me entenda mal. Não é que eu me arrependa nem nada assim. Eu tinha certeza ao assumir essa responsabilidade. Foi uma atitude consciente e gosto. Juro! Mas é que família enche muito o saco! Eu entendi os votos da igreja e tal. Fizemos a cerimônia dos sonhos. Foi bacana! Mas tenho uma vontade louca de ir embora e deixar tudo isso pra trás. Filhos, minha continuação no mundo… não sei se gosto tanto como achei que gostaria. Na verdade, sinto falta de quando eram crianças, mas bem pouco. Agora são pessoas chatas, com variações de humor e vontades. Muitas vontades. E minha esposa também. Acho que a gente acreditou muito na ideia de eternidade. De envelhecer juntos e não sei o que mais. Vai ver que é por isso que a gente segue junto. Sinto falta do silêncio, de estar sozinho e fazer as coisas no meu tempo. Gostaria de sair mais, ir às baladas que não fui, aproveitar o tempo que matei ao casar tão cedo. Por isso dou algumas escapadas, entende? Eu respeito minha mulher, mas tenho minhas vontades também. Sou humano! Ela eu já acho que não. Acho que ela gosta de ser família, esposa, mãe minha e das crianças. Já eu queria viajar por aí, ficar de bobeira. Nesse tempo que estamos juntos, estive envolvido com algumas outras pessoas. Alguns casos foram bobagens. Outros mais tensos. Começou com as brigas em casa. Eu saía de casa pra esfriar a cabeça, pra ficar longe e não piorar ainda mais. Isso faz tanto tempo que as crianças ainda eram pequenas. Nas primeiras brigas eu saía, ficava bebendo ou dirigindo pela cidade. Em todas situações me ocorreu uma enorme alegria de ser só, de ser só meu e ter meu tempo só pra mim. Acho que quando tive esse sentimento, me abri para visitar outras mulheres. Era tranquilo. Pagava e ia embora. Até voltava melhor pra casa. Depois tive um caso com uma mulher também casada que era do meu trabalho. Ela também era infeliz. Ficamos uns meses e acabou de forma tranquila. Ela se acertou com o corno e eu gostei da ideia de ter outra mulher enquanto casado. Tinha a segurança do cuidado e a diversão por fora. Me sentia mais disposto, menos apavorado de estar todos os dias com a mesma mulher, filhos e rotina insuportável. Tive alguns outros casos até conhecer a mulher que quase acabou com minha vida. Ela me ligava de madrugada, falava pra eu ir embora de casa e ficar com ela. Rapaz… tenho certeza que ela tentou arrumar barriga pra me segurar. Mas não sou besta, né? Caí fora! Ainda ficou um tempo atrás de mim, mas deixei claro que caso isso caísse no ouvido da minha esposa, ela teria um problema sério. Claro que não falei bem assim, mas ela entendeu. Aí eu dei uma sossegada, mas por pouco tempo. E é por isso. Porque estar numa família me incomoda muito. Aí amenizo assim. Admito! O que é mais difícil pra mim é ter vontade de ir embora, saber que assim seria melhor, mas não poder. Perderia a casa, os móveis. Advogado é caro! Um terror! Acho que só queria que minha família fosse igual à família dos meus amigos. Eles parecem tão felizes. Parecem não ter problemas. Alguns nem entram nessa de dar saidinhas e tal. Vejo que eles curtem o que fizeram. É sempre isso nos nossos encontros. Falam dos filhos, da esposa. Dão umas reclamadinhas. Mas curtem. Queria ter a família que meus amigos têm. Porque a minha é um saco. Acordar, sair pra trabalhar, voltar. Saber as roupas que eles têm, o jeito, as manias. As brigas, confusões. Os raros, quase anuais, passeios para os mesmos lugares. Por vezes sinto que sou uma múmia em casa. Que fico parado, morto todo o tempo. A gente se fala muito pouco. Quase nada. Antes a gente brigava uns com os outros todo tempo. Mas parou. Em todo caso, deixa como está. Fazer o quê? Não tenho outra possibilidade. Eu penso tudo isso, mas me esforço para não perder de vista que a vida é assim. E que nisso tudo sou um tanto privilegiado. Apesar de tudo, a família é uma benção e sou abençoado por ter uma. Uma família que me respeita, que construí com o suor do meu trabalho. Posso dizer que sou um chefe de família e minha dignidade está intacta. Nunca deixei faltar nada e meus filhos foram criados de forma magnífica. Cumpro com todas as obrigações. Pago tudo e eles podem usufruir. Então fiz meu papel. Sou orgulhoso disso. E seguimos assim. Mas que enche o saco, isso enche.

+ Monólogos Cotidianos: O Baseado

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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