Monika Ertl: Ela fez justiça contra o homem que cortou as mãos do Che

Publicado em: 09/10/2017 às 16:09


Por Nina Ramón.*

Em Hamburgo, Alemanha, eram nove e quarenta da manhã de 1º de abril de 1971. Uma bela e elegante mulher de profundos olhos cor do céu entra no escritório do cônsul da Bolívia e espera pacientemente para ser atendida. Enquanto espera, olha indiferente os quadros que adornam o escritório. Roberto Quintanilla, cônsul boliviano, vestido elegantemente de traje escuro de lã, aparece no escritório e saúda impactado pela beleza dessa mulher que diz ser australiana e que, dias antes, lhe havia pedido una entrevista.

Por um instante fugaz, ambos se encontram frente a frente. A vingança aparece encarnada num rosto feminino muito atrativo. A mulher, de beleza exuberante olha-o fixamente nos olhos e sem meias palavras tira um revólver e dispara três vezes. Não houve resistência, nem força, nem luta. Os impactos atingiram o alvo. Em sua fuga, deixou para trás uma peruca, sua bolsa, seu Colt Cobra 38 Special, e um pedaço de papel no qual se lia “Vitória ou morte. ELN”.

Quem era essa audaz mulher e por que tinha assassinado a queima roupa Quintanilla?

Na milícia guevarista havia uma mulher que se chamava Imilla, cujo significado em língua quechua e aimara é menina ou jovem indígena (agora, considerado um insulto na Bolívia). Seu nome de batismo: Mônica (Monika) Ertl. Alemã de nascimento, que tinha realizado uma viagem de 11 mil quilômetros desde a perdida Bolívia com o único propósito de fazer justiça contra um homem, a personagem mais odiada pela esquerda mundial: Roberto Quintanilla Pereira.

Ela, a partir desse momento, se converteu na mulher mais procurada do mundo. Ocupou as manchetes dos jornais de toda a América. Mas quais eram suas razões e quais suas origens?

Retornemos a 03 de março de 1950, data na qual Mônica chegou à Bolívia com Hans Ertl – seu pai – através do que seria conhecida como “a rota dos ratos”, ação que facilitou a fuga de membros do regime nazista rumo à América do Sul ao finalizar o conflito armado maior e mais sangrento da história universal: a II Guerra Mundial.

A história de Mônica pôde ser narrada com grandes passagens graças à investigação de Jürgen Schreiber. A que apresento é apenas uma pincelada dessa apaixonante história que envolve muitos sentimentos e personagens.

Hans Ertl (Alemanha, 1908-Bolívia, 2000), alpinista, inovador de técnicas submarinas, explorador, escritor, inventor e materializador de sonhos, agricultor, converso ideológico, cineasta, antropólogo e etnógrafo aficcionado. Logo alcançou notoriedade ao retratar os dirigentes do partido nacional socialista quando filmava a majestosidade, a estética corporal e as destrezas atléticas dos participantes nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936), sob a direção da cineasta Leni Riefenstahl, que glorificou os nazistas.

No entanto, teve o infortúnio de ser reconhecido para a história (e sua posterior desgraça) como o fotógrafo de Adolfo Hitler, ainda que o iconógrafo oficial do Führer tenha sido Heinrich Hoffman, do esquadrão de defesa. Citam algumas fontes que Hans estava destinado a documentar as zonas de ação do regimento do famoso marechal de campo, apelidado de o “Zorro do Deserto”, Erwin Rommel, em sua travessia por Tobruk, África.

Como dado curioso, Hans não pertenceu ao partido nazista, mas, apesar de que a guerra o aborrecesse, exibia com orgulho a jaqueta desenhada por Hugo Boss para o exército alemão, como símbolo de seus feitos de outrora, e de seu garbo ariano. Detestava que o chamassem de “nazista”, não tinha nada contra eles, mas tampouco contra os judeus. Por irônico que pareça foi outra vítima da Schutzstaffel (tropa de proteção alemã).

Ao término da Segunda Guerra Mundial, quando o Terceiro Reich caiu, os hierarcas, colaboradores e chegados ao regime nazista fugiram da justiça europeia refugiando-se em diversos países, entre eles os do continente americano, com o beneplácito de seus respectivos governos e o apoio incondicional dos Estados Unidos.

Diz-se que era uma pessoa muito pacífica e não tinha inimigos, assim que optou por ficar na Alemanha um tempo trabalhando em funções menores do que seu status, até que emigrou com sua família. Primeiramente para o Chile, no austral arquipélago de Juan Fernández, “fascinante paraíso perdido”, onde realizou o documentário Robinson (1950), antes de outros projetos.

Depois de uma longa viagem, Ertl se estabeleceu em 1951 en Chiquitania, a 100 quilômetros da cidade de Santa Cruz. Até lá chegou para se instalar nas prósperas e virgens terras como um conquistador do século XV, entre a espessa e intrincada vegetação brasileiro-boliviana. Uma propriedade de 3.000 hectares, onde construiria com suas próprias mãos e matéria autóctone o que foi seu lar até seus últimos dias; “La Dolorida”.

O vagabundo da montanha, como era conhecido pelos exploradores e cientistas, perambulava com seu passado nas costas, pela imensa natureza, com a visão ávida de desentranhar e capturar com sua lente todo o que percebia em seu entorno mágico na Bolívia, ao mesmo tempo em que começava uma nova vida acompanhado de sua esposa e suas filhas. A mais velha se chamava Mônica, tinha 15 anos aconteceu o exílio e aqui começa sua história…

Mônica tinha vivido sua infância em meio à efervescência do nazismo da Alemanha e quando emigraram para a Bolívia aprendeu a arte de seu pai, o que lhe valeu para trabalhar depois com o documentarista boliviano Jorge Ruiz. Hans realizou na Bolívia vários filmes (Paitití e Hito Hito) e transmitiu a Mônica a paixão pela fotografia. Por certo, facilmente podemos reclamá-la como mulher pioneira entre as realizadoras de documentários na história da sétima arte.

Mônica foi criada em um círculo tão fechado quanto racista, no qual brilhavam tanto seu pai como outra sinistra personagem a qual ela se acostumou a chamar com carinho de “Tio Klaus”. Um empresário alemão (pseudônimo de Klaus Barbie (1913-1991) e ex-chefe da Gestapo em Lyon, França), mais conhecido como o “Carniceiro de Lyon”.

Klaus Barbie mudaria seu sobrenome para “Altmann” antes de envolver-se com a família Ertl. No estreito círculo de personalidades em La Paz, onde esse homem ganhou suficiente confiança de tal forma que o próprio pai de Mônica foi quem o introduziu, inclusive, conseguiu seu primeiro emprego na Bolívia como cidadão Judeu Alemão, assessorando ditaduras sul-americanas.

Ertl capta tomadas aéreas, esquiando com uma câmera

Viveu em um mundo extremo rodeada de velhos lobos torturadores nazistas. Qualquer indício perturbador não lhe era estranho. Contudo, a morte do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara na selva boliviana (outubro de 1967) significou para ela o empurrão final para seus ideais. Mônica – segundo sua irmã Beatriz –”adorava ‘Che’ como se fosse um Deus”.A célebre protagonista dessa história casou com outro alemão em La Paz e viveu nas minas de cobre no norte do Chile, mas, após 10 anos, seu matrimônio fracassou e ela se converteu em uma política ativa que apoiou causas nobres. Entre outras coisas ajudou a fundar um lar para órfãos em La Paz, agora convertido em hospital.

Por causa disso, a relação pai e filha foi difícil pela combinação: esse fanatismo aliado a um espírito subversivo; quiçá fatores detonadores, que geraram uma postura combativa, idealista, perseverante. Seu pai foi o mais surpreendido e com muito pesar a colocou pra fora de casa. Quiçá esse desafio produziu nele certa metamorfose ideológica nos anos 60, até converter-se em colaborador e defensor indireto dos esquerdistas na América do Sul.

“Mônica foi sua filha favorita, meu pai era muito frio conosco e ela parecia ser a única que ele amava. Meu pai nasceu como resultado de uma violação, minha avó nunca lhe mostrou afeto e isso o marcou para sempre. O único afeto que mostrou foi para Monika”, disse Beatriz em uma entrevista para a BBC News.

No final dos anos 1960, tudo mudou com a morte de Che Guevara, rompeu com suas raízes e deu um drástico giro para entrar com tudo na milícia empunhando o braço com a Guerrilha de Ñancahuazú, tal como fez em vida seu herói pela desigualdade social.

Mônica deixou de ser aquela moça apaixonada pela lente para se converter em “Imilla a revolucionária” refugiada em um acampamento das colinas bolivarianas. À medida que foram desaparecendo da face da Terra a maior parte de seus integrantes, sua dor se transformou em força para reclamar justiça convertendo-se em uma chave operativa para o ELN.

Durante os quatro anos que permaneceu reclusa no acampamento escreveu a seu pai, somente uma vez ao ano, para dizer textualmente; não se preocupem comigo… estou bem. Lamentavelmente, nunca mais a voltou a ver; nem viva, nem morta.

Em 1971 cruza o Atlântico e volta à sua natal Alemanha, e em Hamburgo executa pessoalmente o cônsul boliviano, o coronel Roberto Quintanilla Pereira, responsável direto pelo ultraje final de Guevara: a amputação de suas mãos, logo depois de seu fusilamento em La Higuera. Com essa profanação firmou sua sentença de morte e, desde então, a fiel “Imilla” se propôs uma missão de alto risco: jurou que vingaria a Che Guevara.

Depois de cumprir seu objetivo começaria uma caçada que atravessou países e mares e que somente encontrou seu fim quando Mônica caiu morta no ano de 1973, em uma emboscada que segundo algumas fontes fidedignas a colocou sua traição “tio” Klaus Barbie.

Depois de sua morte, Hans Erlt seguiu vivendo e filmando documentários na Bolívia, onde morreu na idade de 92 anos (ano 2000) em sua granja agora convertida em museu graças à ajuda de algumas instituições da Espanha e Bolívia. Ali permanece enterrado, acompanhado de sua velha jaqueta de militar alemão, sua fiel companheira dos últimos anos. Seu sepulcro permanece entre dois pinheiros e terra de sua natal Bolívia. Ele mesmo se encarregou de prepará-lo e sua filha Heidi de fazer seus desejos realidade. Hans havia expressado em uma entrevista concedida à agência Reuters:

Não quero regressar ao meu país. Quero, inclusive morto, ficar nesta minha terra.

Em um cemitério de La Paz, diz-se que descansam “simbolicamente” os restos de Mônica Ertl. Na realidade nunca foram entregues ao seu pai. Suas reclamações foram ignoradas pelas autoridades a partir do fato. Estes permanecem em algum lugar desconhecido do país boliviano. Jazem em uma fossa comum, sem uma cruz, sem um nome, sem uma Bênção de seu pai.

Assim foi a vida desta mulher em um período, ao dizer da direita fascista daqueles anos, acampava no “comunismo” e portanto “terrorismo” na Europa. Para uns seu nome ficou gravado nos jardins da memória como guerrilheira, assassina ou quem sabe terrorista, para outros como uma mulher valente que cumpriu com uma missão.

Em minha opinião, é o lado feminino de uma revolução que lutou pelas utopias de sua época, e que à luz de nossos olhos nos obriga da refletir, uma vez mais sobre esta frase: “Jamais subestime o valor de uma mulher”.

*Cubadebate.

Fonte: Adital.

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