Modernismo, mais importante movimento cultural do país

Por Thamiris Magalhães.

O movimento modernista, que teve como marco inaugural a Semana de Arte Moderna de 1922, sempre rejeitou o regionalismo. Essa é a afirmação do docente Eduardo Jardim de Moraes, que conversou sobre o tema com a IHU On-Line, por e-mail. Para o coordenador da coleção Modernismo+90, da Casa da Palavra, que publicará onze livros sobre os desdobramentos do movimento em diversas áreas da cultura, o principal objetivo dos modernistas de 1922 foi “a atualização da produção artística e cultural no país”. E completa: “Isto significava, naquele momento, promover o ingresso do país no concerto das nações consideradas modernas. Na opinião deles, este ingresso seria assegurado pela incorporação na cultura brasileira de meios expressivos modernos, identificados geralmente aos que eram adotados nas vanguardas europeias”.

Eduardo Jardim de Moraes é professor de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e coordena a coleção Modernismo+90, da Casa da Palavra. Graduado e mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio), cursou mestrado em Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e pós-doutorado na Universidade Erlangen-Nurnberg (Friedrich-Alexander), na Alemanha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Durante a Semana de Arte Moderna de 1922, o que significou “modernizar” para o Brasil?

Eduardo Jardim de Moraes – A Semana de 22 veio a ser considerada como o marco inaugural do modernismo, a partir dos anos 1940, com a conferência de Mário de Andrade, feita no Rio, em 1942 (O Movimento modernista). É um momento de uma corrente renovadora que se iniciou décadas antes. O propósito dos modernistas de 1922 foi a atualização da produção artística e cultural no país. Isso significava, naquele momento, promover o ingresso do país no concerto das nações consideradas modernas. Na opinião deles, esse ingresso seria assegurado pela incorporação na cultura brasileira de meios expressivos modernos, identificados geralmente aos que eram adotados nas vanguardas europeias. Esta solução de incorporação imediata ao mundo moderno, pela simples adesão às estéticas modernas, foi revista em 1924, quando se definiu o ideal nacionalista do modernismo. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, sinaliza essa mudança de rumos. O nacionalismo modernista continuou universalista, só que agora esta solução dependia da afirmação dos traços nacionais da cultura. O traço universalista do modernismo de 1922 é a característica de um amplo movimento cultural (do final do século XIX ao final do século XX), que entendeu a modernização do Brasil como entrada no universo moderno – o concerto das nações cultas. Nele incluem-se desde Os sertões, de Euclides da Cunha , a música de Villa-Lobos , até os filmes de Glauber Rocha e as canções de Caetano Veloso.

IHU On-Line – De que maneira o nacionalismo/regionalismo foi trabalhado durante e após a Semana?

Eduardo Jardim de Moraes – Nossos modernistas sempre rejeitaram o regionalismo. Eles queriam pensar a nação e não a região. Daí o contato tenso dos modernistas com autores como Monteiro Lobato , Gilberto Freyre , ou qualquer versão de regionalismo, inclusive o gaúcho. Para os modernistas, afirmar a identidade nacional era um meio de assegurar a incorporação no universal. A partir de meados dos anos 1920, em diferentes orientações, eles se dedicaram ao exame dessa identidade. Onde ela estava? Como defini-la? Portanto, o tema da unidade nacional se impunha, e tudo que levasse a uma visão fragmentada da nação, como a noção de região, era rejeitado.

IHU On-Line – A Semana de Arte Moderna conseguiu, de fato, romper com o passado? Em que sentido?

Eduardo Jardim de Moraes – Os modernistas de 1922 faziam oposição aos que chamavam de “passadistas”. Os escritores modernistas criticavam, sobretudo, os poetas e ficcionistas da geração imediatamente anterior, cujas obras, aliás, não eram tão importantes. Há uma série de textos de Mário de Andrade, Mestres do passado, que exprime essa posição. Ele critica a estética “atrasada” dos parnasianos, pois ela não poderia servir de parâmetro para a poesia feita na atualidade. Os modernistas viam que os passadistas faziam uma arte e uma literatura que não cabiam nos novos tempos. A posição dos modernistas sobre o passado cultural do país se modificou na segunda fase do movimento, de orientação nacionalista. A partir de 1924, os modernistas buscaram se aproximar de autores e causas do passado, especialmente do romantismo, com sua busca de uma identidade brasileira.

O modernismo e a expressão da literatura brasileira

Claro, do ponto de vista da renovação das linguagens artísticas, o modernismo é muito bem sucedido. A literatura brasileira tornou-se realmente expressão do país justamente com o modernismo. Isso é um ganho que ninguém precisa mais discutir.

IHU On-Line – A Semana de Arte Moderna conseguiu romper com a dependência política, mental e moral da sociedade daquela época?

Eduardo Jardim de Moraes – Os modernistas não queriam ser propriamente “independentes”. As doutrinas modernistas têm duas principais preocupações: inserir o Brasil no cenário mundial e modernizar o país em todas as áreas. O modernismo literário e artístico é um capítulo de uma história mais ampla. Uma importante característica do modernismo brasileiro foi que seus participantes sentiram pela primeira vez a urgência de não só abordar temas brasileiros, mas também de pensar de forma brasileira. A “inteligência”, pela primeira vez, esteve comprometida com a nação. Pode-se lembrar do final de Macunaíma , de Mário de Andrade. O escritor ali aparece com a tarefa importantíssima de transmitir ao leitor a mensagem dos tempos de Macunaíma – o herói do livro. Isso quer dizer: ele deve passar o legado da brasilidade.

IHU On-Line – Como a mídia da época divulgou o movimento e a Semana de Arte Moderna? Houve muita rejeição? Em que aspectos?

Eduardo Jardim de Moraes – Houve sim repercussão na imprensa de São Paulo e do Rio. Os modernistas sempre estiveram atentos à repercussão do evento e de todas as suas iniciativas. Como alguns eram também jornalistas, o trabalho era facilitado. Esta preocupação não se restringe ao momento da Semana, mas se apresenta em toda a história do movimento. As informações sobre essa história estão no livro recentemente publicado pela editora Casa da Palavra, A semana sem fim, de Frederico Coelho.

IHU On-Line – Como podemos definir e caracterizar o Movimento Antropofágico? Qual a sua repercussão durante a Semana de Arte Moderna?

Eduardo Jardim de Moraes – A Antropofagia é uma corrente do segundo tempo modernista, com sua bandeira nacionalista. Houve diversas maneiras de se entender a identidade nacional dentro do modernismo. Duas são principais – a via analítica de Mário de Andrade, que queria fazer o levantamento dos traços que definem a cultura brasileira. Para ele, a brasilidade estava na cultura popular, mais precisamente no folclore, e era preciso uma verdadeira pesquisa etnográfica para chegar a ela. Outra via defendia a apreensão intuitiva e sentida da realidade nacional. Nessa direção, estão autores tão diferentes como Oswald de Andrade e Plínio Salgado . A base da doutrina dos “intuitivos” é o conceito de integração. Ela opera em vários níveis: integração de elementos nacionais e estrangeiros, integração da cultura brasileira no solo brasileiro, integração dos brasileiros entre si (“só a Antropofagia nos une” – diz o Manifesto Antropófago de 1928), integração entendida como processo de conhecimento da realidade. Os antropófagos queriam uma incorporação por meio da devoração; já outros defendiam uma versão “incruenta” do processo. Do ponto de vista das suas realizações, a Antropofagia não é tão significativa. Há alguma coisa na obra de Tarsila, o Manifesto, de Oswald de Andrade, a Revista de Antropofagia em suas duas fases (1928-1929), Cobra Norato, poema de Raul Bopp . Mas o Manifesto Antropófago tem forte impacto, é muito polêmico e sugestivo. Por esse motivo, a noção de Antropofagia foi sendo retomada e revista várias vezes nas décadas seguintes, especialmente nos anos sessenta e setenta, como no Teatro Oficina e no Tropicalismo . Ela serviu de suporte para as posições, no debate cultural, que defendiam a incorporação transformadora das linguagens artísticas modernas no ambiente brasileiro.

IHU On-Line – Quais as reais contribuições dos modernistas durante a Semana até os dias atuais?

Eduardo Jardim de Moraes – As teses dos modernistas continuaram a principal referência para a vida cultural do país até os anos 1960 e 1970. Basta ver o Cinema Novo , o tropicalismo, a obra de Hélio Oiticica e de José Celso Martinez Correa. Atualmente o ambiente em que vivemos é outro. Já podemos pensar a certa distância a doutrina modernista. Precisamos investigar seu significado, pois ele foi o mais importante movimento cultural do país. Precisamos também avaliar a distância que nos separa dele. Recomendo a vocês a leitura dos livros de uma coleção que estou organizando para a editora Casa da Palavra – Modernismo+90. São onze livros de diversos autores que apresentam os vários aspectos da contribuição dos modernistas.

Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br

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