Mídia não explica se foi greve ou locaute

Há mais de uma semana, a sociedade brasileira foi impactada por um movimento que começou a partir de entidades que articulam os motoristas de cargas autônomos (Abcam – Associação Brasileira de Caminhoneiros) e, em menos de três dias, já ocupava as principais rodovias do país. Um “furacão rodoviário” que deixou as principais empresas de jornalismo reféns de um único enfoque: com pequenas variações, a mídia hegemônica brasileira tratou o fato como “greve”, supondo que havia ali um típico movimento de trabalhadores.

Por Samuel Lima e Rogério Christofoletti
Professores de Jornalismo da UFSC e pesquisadores no objETHOS

A questão de fundo permanece em aberto: afinal, qual foi a força política que, em poucos dias, teve o poder de paralisar o país? A julgar pelos principais jornais diários (O Globo, Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo) e o mais influente telejornal (Jornal Nacional/TV Globo), a pergunta ainda carece de resposta à altura do desafio jornalístico e político.

Ao longo da semana, a pauta da paralisação dos caminhoneiros e das empresas de carga foi tomando conta do cenário político e se transformando num acontecimento de dimensões nacionais, invadindo a vida dos cidadãos comuns que precisam de transporte coletivo, remédios, atendimento médico, alimentação e outros gêneros de primeira necessidade.

Com efeito, a hipótese de locaute só chegou para valer cinco dias após o início dos mais de 500 bloqueios na malha rodoviária nacional. E veio pelas mãos das jornalistas Raquel Landim, Thaiza Pauluze e Mariana Carneiro, da Folha de S. Paulo, que escreveram: “Da frota regularizada de 1,76 milhão de veículos de carga que circulam no país, o caminhoneiro autônomo responde por pouco mais de um terço –37% do total, conforme dados da ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre). Transportadoras privadas e cooperativas respondem por 62% do setor” (https://bit.ly/2IOFYE2). Não haveria possibilidade de o setor autônomo, por suas próprias pernas, bloquear as estradas e paralisar a economia nacional com essa força registrada. E foi justamente a rapidez que começou a despertar as primeiras suspeitas de prática do crime de locaute das grandes transportadoras, que também reclamavam da política de preços da Petrobrás.

O movimento, deflagrado na segunda, 21 de maio, só alcançou a dimensão das manchetes dos principais quality papersdo país três dias depois, na quarta (23). Vamos observar brevemente o acontecimento nas capas da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo nessa semana explosiva.

Folha de S. Paulo

Edição da Folha no sábado, 26

O tratamento conferido pelo diário paulista foi sempre o de “greve dos caminhoneiros”. O movimento só viria a ganhar a primeira página no dia 22, com uma foto em três colunas na primeira dobra, ilustrando a chamada: “Diesel sobe, e caminhoneiros protestam em 20 estados e DF”. No lide, a reportagem indicava a mobilização de “300 mil caminhoneiros” [sic], citando “associação da categoria”.

Na quarta (23), o misto de locaute e mobilização dos caminhoneiros perdeu relevância para a prisão do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo e a apresentação da seleção de Tite. Virou uma chamada menor, depois da dobra (“Governo negocia para desonerar diesel”), tratando o fato até aqui de forma bastante oficialesca, movimento que já ganhara dimensão nacional, bloqueando a malha rodoviária em mais de 500 pontos. Até este ponto, a Folha o descrevia como “paralisação dos caminhoneiros”.

Finalmente, na edição de quinta (24), o assunto era manchete: “Governo, Câmara e Petrobras cedem à pressão de grevistas”. No texto de capa, a opção pela caracterização do movimento era clara: “Acuado pela greve dos caminhoneiros, o presidente Michel Temer pressionou o comando da Petrobras pela redução do diesel. A estatal cedeu e anunciou queda de 10% no combustível, que terá o valor congelado por 15 dias”. Na sexta (25), a manchete da Folha dava conta do suposto “acordo” firmado pelo governo Temer com um grupo de “representantes” do movimento: “Contribuinte pagará conta do diesel mais barato para caminhoneiros”. O locaute já atingia, nesta altura dos acontecimentos, todos os estados e provocava sinais evidentes de desabastecimento de combustíveis, alimentos, remédios e outros produtos de primeira necessidade.

Nas capas do final de semana, a Folha destaca o fracasso do propalado “acordo”. No sábado (26/05 – “Paralisação continua após acordo e governo mobiliza as forças armadas”) e domingo (27/05 – “Forças de segurança intensificam ações; perdas já é de R$ 10 bi”), o tom era o mesmo, ou seja, clamando pela intervenção das forças policiais e militares para desmobilizar a paralisação e desbloquear as estradas.

Do ponto de vista jornalístico, merece destaque o esforço de reportagem de Thaiza Pauluze (“Caminhoneira coordena motoristas no WhatsApp e incentiva adesão a protesto” – Acesse aqui: https://bit.ly/2GVPwuT), jogando luz sobre uma das formas de mobilização mais usuais do movimento de empresários e caminhoneiros: os grupos de WhatsApp. A repórter da Folha contou a história da caminhoneira Selma Regina Santos, que trabalha há 25 anos na estrada: “Numa profissão dominada por homens, Selma Regina Santos, 48, convoca apoiadores ao protesto contra o custo do diesel online. Ela é criadora de três grupos no aplicativo de mensagens WhatsApp: Para Frente Brasil, Siga Bem Caminhoneiro e Rainha dos Caminhoneiros — este último em sua homenagem”. A reportagem, publicada na noite de quinta (24/05, às 22h59), ficou, no entanto, restrita à edição online da Folha.

O Estado de S. Paulo

Estadão foi alarmista no sábado, 26

O percurso das notícias n’O Estadão não foi lá muito diferente de seu concorrente. O assunto aparece também no segundo dia (terça, 22), com pouco destaque (nota sobre uma imagem de bloqueio na BR-040, em Minas), com o título: “Alta do diesel provoca protesto”. No dia seguinte, dividindo o topo da primeira página com o lançamento da candidatura do ex-ministro Henrique Meirelles à presidência da República, a manchete: “Governo zera CIDE no diesel, mas protesto deve continuar”. No texto principal, o abre dava conta que governo e Congresso anunciaram acordo para baixar o preço do diesel.

Na quinta (24), o Estadão também dava manchete para o suposto acordo entre governo Temer e empresas/caminhoneiros: “Petrobrás cede e reduz o preço do diesel para conter greve”. Notem que a expressão “greve” para descrever o movimento hegemonizado pelo locaute, aparece com força de manchete. No texto da primeira página, a informação de que a Petrobras havia anunciado a redução de 10% no preço do óleo diesel na refinaria e o congelamento do preço por 15 dias.

Na edição de sexta (25), quando a paralisação atingia seu pico, o Estadão trazia manchete otimista: “Acuado, governo vai subsidiar diesel e greve é suspensa”. Ledo engano, não obstante as informações em destaque dando conta que oito das 11 entidades de “caminhoneiros” teriam concordado com o acordo proposto pelo governo federal. Em contrapartida, os supostos representantes dos caminhoneiros prometiam uma “trégua de 15 dias”. Novo fracasso nas negociações.

Caindo na real, a edição de sábado d’O Estadão carimbou diante de uma foto da Central de Abastecimento de S. Paulo (CEAGESP) totalmente vazia: “Por que parou” – e arriscou respostas tão superficiais e oficialescas quanto sua cobertura em seis dias de bloqueio das estradas: “Porque os caminhoneiros fizeram chantagem com o país; porque o governo é incompetente; porque o Congresso optou pelo oportunismo eleitoral; porque os governadores foram omissos” etc. etc. Ante o fracasso, o Estadão faz coro com o blefe do governo Temer e chama as “Forças Armadas” para desmobilizar o locaute.

Fechando o ciclo, no domingo (27), faz uma constatação trivial, abrindo ao mesmo tempo a indicação de outro acontecimento que deve jogar mais combustível na fogueira: “Motoristas mantêm bloqueios e petroleiros anunciam greve”. Prometendo “endurecer”, o governo Temer manda a Polícia Rodoviária Federal (PRF) aplicar multas (R$ 100 mil por hora parada) e pede a prisão dos empresários já investigados pela participação ativa na paralisação do transporte de cargas.

O Globo

Capa de O Globo no sábado, dia 26

Nas páginas do diário carioca, a paralisação dos transportes de cargas começou a virar notícia na terça (22/05), no dia seguinte à deflagração do movimento, diferente dos concorrentes. Ainda assim, entrou em segundo plano, abaixo da manchete que repudiava a vitória de Nicolás Maduro, presidente venezuelano reeleito. “Governo tenta conter alta da gasolina”, chamada de primeira página, relatando o bloqueio de estradas de 20 estados.

Na quarta (23), o bloqueio das estradas chegava à manchete d’O Globo: “Governo elevará impostos para baixar preço do diesel”. No lide da reportagem de capa, o movimento é batizado de “greve”: “Em acordo costurado às pressas com o Congresso, sob pressão da greve dos caminhoneiros, a equipe econômica do governo aceitou gerar a CIDE (tributo sobre combustíveis) do diesel”.

No dia seguinte, a manchete dava conta do acordo fake entre governo e líderes do movimento: “Petrobras cede e reduz o preço do diesel em 10%”. Na linha fina, a explicação que o jornal dava para tal decisão: “Desabastecimento causado por greve de caminhoneiros motivou decisão”. No texto, observamos o destaque para duas informações: “O presidente da Petrobras, Pedro Parente, quebrou a política de reajuste em vigor há um ano; a decisão desagradou o mercado” (grifo nosso).

Na sexta (25), uma constatação em forma de manchete sobre uma imagem em toda a mancha gráfica (caminhoneiros parados na Via Dutra, em Seropédica, Baixada Fluminense): “Refém, governo faz concessões em troca de trégua de 15 dias”. O congelamento do preço seria por 30 dias e o governo garantiria “subsídio” do combustível para compensar perdas da Petrobras. Mais uma vez, os interlocutores do locaute/paralisação não garantiram a efetividade do “acordo”.

O fracasso da segunda tentativa de acordo seria assim resumido na edição de sábado (26), do diário das Organizações Globo: “Grevistas ignoram acordo, e militares são convocados” sob a cartola explícita: “CARGA PESADA”. No texto de capa, finalmente O Globo passava a admitir a prática do locaute dos empresários do setor, destacando em linha fina: “Liderança do movimento pede que caminhoneiros liberem as estradas, enquanto a PF investiga a participação de empresários na paralisação”.

Fechando o ciclo, sete dias após o começo das paralisações do transporte de cargas nas estradas, o Globo finalmente perde a paciência na edição dominical (27): “PF investiga empresários ligados a greve e pede prisões”. E arremata: “Governo está convencido de que empresas estão por trás de paralisação”. Na reportagem, aparece pela primeira vez com destaque a voz do ministro Raul Jungmann (Segurança Pública), que na véspera fizera a mesma denúncia no Jornal das 10 (da Globo News): “Temos comprovado que esta paralisação teve desde o seu início a promoção e o apoio criminoso de proprietários de empresas transportadoras e distribuidoras”.

Resumo da ópera

Um olhar comparativo dos três maiores diários do país revela que prevaleceu o tom oficialesco, a falta de apuração, uma subavaliação da dimensão que o movimento poderia alcançar (desinformação estrutural), em 72 horas após sua deflagração, na manhã de 21 de maio.

A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, ponderou quanto às dificuldades de apuração: “Não era tarefa simples. É uma categoria pulverizada, sem liderança única, com sindicatos concorrentes, muitos autônomos e com grandes empresas de transporte organizadas. E a articulação se deu essencialmente por aplicativos de mensagem instantânea, estratégia cada vez mais comum e que dificulta a apuração” (Leia a coluna completa aqui: https://bit.ly/2smTqbg). Mas criticou o seu jornal, o que poderia ser aplicável aos concorrentes que analisamos: “A edição da Folha de quinta-feira (24) cita a CNTA só ao mencionar o alcance da greve. Reportagem e análise tratavam apenas do lado oficial: governo, Congresso e Petrobras. Evidenciam o olhar viciado do jornal no poder e o distanciamento e a pouca informação de setores organizados da sociedade. Nenhum repórter demonstrou ter entre suas fontes um líder dos transportadores”.

Concordamos com a crítica de Paula Cesarino: “A incapacidade dos jornais de identificar, mensurar e explicar como o país chegou à crise que afetou a rotina de todos é preocupante”. A imprensa mostrou-se despreparada e sua cobertura foi errante.

Parte da cobertura trôpega se deveu a dois fatores nas redações: erro de avaliação editorial e ausência de informações do movimento grevista. De um modo geral, jornalistas também não acreditaram que a ameaça de parar o país fosse se concretizar. Jornalistas têm que tomar decisões a todo o momento e nem sempre é fácil determinar que fatos devem ter prioridade de cobertura sobre outros. Se as redações tivessem percebido a calmaria que antecede a tempestade, talvez tivessem se preparado para a tormenta…

O segundo fator que fez a cobertura derrapar parece ter sido o fato de que os jornalistas ficaram fora do circuito das trocas de mensagens dos grevistas, andando às cegas. É claro que repórteres usam aplicativos como o WhatsApp e isso lhes dá agilidade e rapidez, mas a natureza fechada dos grupos alija os jornalistas de muitas trocas de informação. Este não é um desafio novo, até porque jornalistas não têm acesso a todos os canais de comunicação existentes. Mas é uma condição que dificulta o trabalho de apuração e deixa os jornalistas a mercê de comunicados oficiais, informações convenientes e boatos. O mais seguro seria que repórteres acompanhassem essas trocas de mensagens em tempo real de forma a orientar o posicionamento da cobertura, mas como entrar nesse terreno minado?

Os três mais importantes diários do país, com dezenas de repórteres mobilizados nesta cobertura ficaram, contudo, devendo algumas respostas à sociedade: Qual foi a força política que parou o país? Greve ou locaute?

Distribuição afetada

Comunicado na homepage do Estadão

Na década de 1970, as empresas jornalísticas sofreram com uma crise no fornecimento de papel de imprensa, fazendo com que tiragens fossem reduzidas e edições enxugadas. Foi necessário que os veículos se adaptassem. Nos últimos dias e mais de quarenta anos depois, os jornais também precisaram recorrer a artifícios para chegar até seus leitores. A greve dos caminhoneiros e transportadoras que parou o país afetou a distribuição de alguns dos principais meios, seja pela falta de combustíveis, seja pelos bloqueios em estradas. Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo se apressaram em comunicar o problema em seus sites, orientando os leitores a acessarem as edições digitais. O mesmo aconteceu com a Zero Hora, no Rio Grande do Sul, e com os jornais do Grupo NSC em Santa Catarina. O concorrente Notícias do Dia abriu o conteúdo também para não-assinantes.

Folha apressou-se em orientar assinante

Em 1974, o jornalista Alberto Dines registrou em livro não apenas a crise do insumo que passava nas rotativas, mas também refletia sobre a função do jornalismo naquele atrasado Brasil. Irônico é ver que na semana em que perdemos Dines, as empresas jornalísticas ainda precisem alterar suas logísticas para alcançar seus públicos. Seria útil e necessário aproveitarmos a oportunidade para pensar sobre a importância do jornalismo neste Brasil não tão avançado de hoje…

Cobertura do JN pega no tranco

Dizer que a greve mobilizou batalhões de repórteres é lugar-comum, mas basta contabilizar a ocupação dos espaços midiáticos pelo tema para perceber como as redações foram acordando sobressaltadas ao longo da semana. Para se ter uma ideia, apenas um dos telejornais da TV Globo dedicou mais de duas horas de material em seis dias de cobertura! E o Jornal Nacional não é qualquer vitrine, mas o produto jornalístico de maior audiência da emissora. Entre a segunda (21) e o sábado (26), foram exibidas 34 matérias, resultando em 128 minutos e 45 segundos.

No começo da semana, a greve até foi abordada, mas ainda bastante subestimada. Na segunda, duas matérias foram ao ar: uma mais geral, dando conta de protestos dos caminhoneiros contra a alta do preço do diesel (3’49”) e outra, dizendo que uma luz havia acendido em Brasília e Michel Temer convocara reunião para tratar do assunto (1’38”). Na terça (22), a redação do JN pareceu ter acreditado na competência do governo em resolver a questão com uma canetada, e trouxe apenas uma matéria de pouco mais de 4 minutos, informando que a Petrobras reduziria o preço dos combustíveis para as refinarias.

No dia seguinte, a quarta (23), o telespectador sentiu um tom mais preocupado em William Bonner e Renata Vasconcelos. Os bloqueios nas estradas só aumentavam, assim como a movimentação de caminhoneiros e transportadoras. O tempo dedicado ao tema triplicou em relação com o dia anterior. Três matérias foram exibidas: uma, dando conta de que a greve já afetava o abastecimento de alguns produtos e causava alta de preços (4’40”), uma segunda, em que Temer pedia trégua aos grevistas (5’23”) e outra com a ampliação do prazo do corte em 10% do diesel nas refinarias (3’09”).

A apresentadora Renata Vasconcelos em uma das chamadas que antecediam o JN.

O alarme soou pra valer nos lares brasileiros na quinta, 24, quando o JN ofereceu o dobro da cobertura dispensada na noite anterior. Foram sete matérias e quase 27 minutos, uma eternidade para os padrões do telejornalismo. Dezenas de profissionais foram mobilizados e o panorama apresentado era de véspera do apocalipse: a greve chegava ao quarto dia com mais bloqueios ainda nas estradas, com filas quilométricas nos postos de gasolina, com gestos oportunistas e gananciosos, com acenos invisíveis do governo e queda de ações da Petrobras nas bolsas.

A edição da sexta (25) do Jornal Nacional quase anunciou o fim do mundo e trouxe impressionantes onze matérias em mais de 40 minutos sobre a greve. Na edição, Temer informou que forças federais desobstruiriam as estradas, havia risco para o funcionamento de hospitais em diversas partes do país, e a Petrobras havia “perdido R$ 50 bilhões” em valor no mercado. Repórteres mostravam os dramas pessoais de quem saía à caça de gasolina, e que 40 mil toneladas de carne deixavam de ser exportadas naqueles dias. Imagens mostravam filas infinitas ocupando pistas no Rodoanel na capital paulista e o Congresso Nacional vazio, apesar das medidas anunciadas pelo governo.

O alarme já soava alto e não parou no sábado, 26, quando o JN veio com outras dez matérias e mais de 38 minutos a martelar sobre o tema. Se a hipótese de locaute já havia sido apresentada na noite anterior, nesta edição ela recebeu um pequeno reforço na forma de uma matéria final: em pouco mais de 4 minutos, o JN mostrava que a Polícia Federal abria 37 inquéritos para investigar a suspeita. Outra matéria contava que o governo já havia sido alertado sobre a greve, mas a maior parte da cobertura se preocupou a mostrar os reflexos econômicos e sociais da paralisação: ônibus não circulavam mais em algumas cidades, um punhado de aeroportos apenas recebiam combustíveis, e os fornecimentos de energia e coleta de lixo estavam sendo comprometidos.

Apesar da alta octanagem política de interesses diversos, da lentidão do governo e seus aliados em contornar a crise, o JN ainda deu generosos tempos aos ministros e seus insistentes “avanços nas negociações para normalizar a situação”. Em uma semana de cobertura, o assunto ganhou uma dimensão de efetivo alarme social. O Jornal Nacional despejou a crise na sala dos brasileiros, mas não chegou a riscar um palito de fósforo sequer na direção do governo…

300!

Com este artigo, o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) chega à marca de 300 comentários semanais, textos publicados sempre às segundas-feiras com o objetivo de começarmos a semana discutindo aspectos do jornalismo contemporâneo. Mantemos essa periodicidade há quase nove anos, e ela é uma parte da atuação deste Observatório. Temos a plena consciência de que se trata de um esforço diminuto diante da complexidade das relações entre mídia e sociedade num tempo como o nosso, onde a comunicação é central na vida social. Sabemos também dos muitos limites de um projeto acadêmico como o nosso, mas renovamos nosso compromisso entusiasmado de continuar a olhar com atenção para coberturas, veículos e profissionais. Nosso rigor está a serviço de uma leitura que venha a estimular um debate mais amplo sobre os papéis que o jornalismo pode ter nas nossas sociedades. Nossa crítica quer contribuir para que categoria e indústria evoluam em seus processos e produtos, e que a atividade cotidiana de oferecer notícias sirva à cidadania com responsabilidade, ética e comprometimento social.

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