Michelle Obama e o endorracismo

Por Esther Pineda.

Tradução de Elissandro Santana, para Desacato.info.

Michelle Obama não está lutando contra o racismo, nem mostrando e enaltecendo o cabelo afro, Michelle Obama é somente uma endorracista.

Ser mulher e afro-americana, sem dúvidas, a coloca frente a uma das experiências de discriminação mais difíceis, pois se articulam à discriminação por razões de gênero – exercida por parte dos homens em uma sociedade patriarcal e androcêntrica – e a discriminação por motivos raciais – a qual é exercida sem distinção por homens e mulheres em uma sociedade extremamente racista. Neste contexto, a experiência da racialização e da diferenciação das mulheres afro-americanas passa pela redução de sua condição como mulher, a qual se faz principalmente por meio do estético.

Em uma sociedade onde a beleza foi erguida como o critério primitivo e determinante da feminilidade, a mulher afro-americana é despojada disso, razão pela qual lhe é atribuído o caráter de não atraente, não apetitosa, não desejável, e, acima de tudo, não lúcida. Essa redução da condição de feminilidade das mulheres através da sua estética é concretizada através dos bombardeios críticos e permanentes que exercem contra sua imagem e, portanto, sua herança africana; por isso, da mulher afro-americana se rejeita e desqualifica seu nariz largo, seus lábios grossos, seus traços, e, principalmente, seu cabelo.

Este fato não é novo e ainda menos casual. Durante a colonização europeia na América o cabelo afro estava sujeito ao controle social formal e em algumas regiões se estabeleceu a “Lei Tignon”. Esta lei proibia as mulheres africanas e seus descendentes nascidos nas Américas de usarem seus cabelos naturalmente ou penteados étnicos tradicionais, então elas foram forçadas a cobrirem seus cabelos com véus ou panos, a fim de minimizarem sua atratividade, serviu também para evitar que chamassem a atenção entre os homens brancos e diminuíssem as relações inter-raciais. Na atualidade, o cabelo afro continua sendo “proibido” e sancionado através de mecanismos ideológicos, isto é, reprimido, rejeitado e colonizado através da imposição de alisamento, suavização, extensões e cabelos artificiais. O cabelo afro natural continua sendo considerado e classificado como feio, sujo, inadequado, descuidado, irreverente, pouco profissional, associado à pobreza e à marginalidade; concepções que expõem as mulheres que decidem usar os cabelos naturais à zombaria, aos olhares de desaprovação, à crítica explícita, à rejeição pelos homens, considerando-o pouco atraente, mas também por outras mulheres ao não responder às expectativas de beleza exigidas socialmente. Muitas meninas estão sujeitas a assédio nas escolas e sanções por parte das autoridades para usarem seus cabelos naturalmente ou penteados étnicos; enquanto as mulheres são exortadas e até mesmo forçadas a sofrer tratamentos e procedimentos estéticos de alisamento do cabelo para serem contratadas ou manter seus empregos, obter documentos de identidade, bem como ir a determinados espaços, reuniões, festas e eventos.

No entanto, quando as mulheres reproduzem essas concepções, quando aceitam a ideia de que seu cabelo não é atraente, que é inapropriado, quando rejeitam a ideia de aparecer em público com seus cabelos naturais, quando se submetem às pressões de uma sociedade racista, quando decidem invisibilizar sua herança étnica, sua história e identidade em troca da aceitação e reconhecimento daqueles que os desprezam, estamos diante de um exemplo claro de endorracismo, o que supõe a autodiscriminação de sua pertença étnico-racial como consequência da coerção racista.

Um exemplo disso é o caso da primeira senhora Michelle Obama, que durante os dois mandatos do marido Barack Obama sempre usou um cabelo extremamente suave, brilhante, sem qualquer rastro de frizz, com o qual apareceu em festas de gala, eventos de caridade, entrevistas e até mesmo durante as férias; Michelle só se permitiu mostrar algumas ondas sutis feitas meticulosamente pela mão de seus estilistas, mas nunca foi possível ver a primeira dama mostrar seu cabelo afro ao natural. Somente após a saída do marido do poder a ex- primeira dama foi fotografada pelos paparazzi levando, dissimuladamente, o cabelo afro natural, preso por uma cola e “controlado”.

Esta aparição foi celebrada por mulheres, principalmente por pessoas pertencentes à comunidade afroamericana; no entanto, por que Michelle Obama não apareceu antes com cabelo natural afro? O que a impedia? O considerava inapropriado, pouco elegante e profissional? O cabelo afro é antagônico ao poder? Não teria sido uma iniciativa reivindicativa para a primeira mulher afro-americana na Casa Branca a usar seus cabelos afro-naturais como um reconhecimento de sua identidade, a uma herança sistematicamente excluída e invisibilizada nos Estados Unidos? Usar o cabelo naturalmente não havia sido um exemplo para a captação e o autorreconhecimento de milhões de meninas e mulheres negras? Não teria contribuído para erradicar os estereótipos e as formas de discriminação que ainda existem contra o cabelo afro?

Não, Michelle Obama não é a heroína negra que eles queriam promover; ela não é uma referência de identidade e reconhecimento étnico para meninas e mulheres afro-americanas; Michelle Obama não está lutando contra o racismo, nem visibiliza e elogia o cabelo afro. Michelle Obama é apenas uma endorracista.

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