Meu caro – Resposta Final (última parte)

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Meu caro,

Li suas palavras e fui tomado por profunda indignação e tristeza. Foi como se uma faca rasgasse minha alma lentamente, derramando meu sangue por todo o asfalto. Como se todas as dores do mundo me abraçassem numa tarde de outono. No mês de maio, de preferência. Por favor, me diga: Como se atreve a possuir o milagre da vida e expor tamanho absurdo? Como carrega nas mãos o dom divino da vida e ousa dizer tais coisas? Ingrato! Cretino! Quem está comprometido com a melhora da própria vida não tem tempo para ter “crises”. Não imagina o quanto tenho presenciado discursos assim. “Que as coisas não estão fáceis”, “que a crise é isso e aquilo”, “que ninguém me ama” e não sei mais o que. É vitimização! Mimimi! É vestir a máscara de coitado e esperar ser sustentado pelos traços melancólicos da mesma. O que vai fazer? Se ancorar numa bolsa miséria igual tantos por aí? O que o povo não faz por uma bolsa miséria, não? Que fique bem claro! Te ver nessa altura da vida sucumbindo ao oportunismo muito me impressiona. Há problemas, de fato, sérios por aí, meu caro. Problemas maiores que o seu! E não me venha com esse papo.  Você tem saúde, certo? Você é forte e saudável, certo? Por que ocupa meu tempo chorando pitangas? Não pense em crise, meu filho. Trabalhe! Quem quer, consegue! Quem não quer, fica aí mandando mensagem falando essas asneiras.

Talvez essa seja uma herança da antiga presidência. Daquele ignorante que, mesmo sem estudo, foi eleito por gente mais ignorante que ele, sabe? Não percebe que até o infeliz teve disposição para cortar uma parte do próprio corpo pois assim poderia mamar nas tetas do governo e não precisar derramar seu suor em um emprego como tantos outros, pessoas do bem por sinal, fazem todos os dias e horas? Foi sim senhor! Fez sua cama de privilégios e quando atingiu o posto de liderança máxima da nação, formou uma geração de coitados, de exploradores e preguiçosos. Você mesmo disse que tem essa tal doença da repetição. Virou papagaio, foi? Aproveite esses últimos trocados e compra um disco novo. Falar pra todo mundo pra quê? Pra te sustentarem? Malditos “amigos” que lhe concedem o suor de seu trabalho. Porque, meu caro, você está sendo caro para eles com sua “atual condição”. Com o perdão do trocadilho. Ao invés de observar aquela gente escandalosa no trem, por que não se junta eles? Por que não vai fazer um trabalho qualquer para ter seu sustento e não ficar importunando quem está diariamente lutando e não reclamando? Quem precisa e quer viver bem, não fica por aí falando bobagem. Faz o que tem que ser feito e aguarda o salário cair na conta. Vou te contar um fato. Lá onde trabalho teve um monte de gente demitida porque não concordava com o patrão. Bando de esquerdista metido a Che Guevara questionador. Além de terem uma oportunidade, se atreveram a ficar falando. Resultado: rua! E ponto final. Um deles, inclusive, teve três oportunidades. Três! A minha chefe me contou essa história. Deu três oportunidades e teve a ingratidão do cara ao sair por não aceitar o que acontecia. Melindroso! Reclamando de bronca e não sei o quê. Ah, por favor, né. Que geração sem vergonha!

Por fim, meu caro, espero nunca mais me deparar com sua pobreza. Não de grana, sim de caráter. Com sua miséria moral! Não tenho dinheiro pra te dar, viu? Pilantra! Seja homem, honre suas calças e não seja mais um nessa imensidão de urubus. Tá cheio! E eu de saco cheio! Que essa nação seja assumida por gente que ponha ordem nessa bagunça. Que a porrada seja forte em gente que não esteja devidamente comprometida com o país. É o meu desejo mais sincero! Assim como desejo sinceramente que você se dane com sua “dor”.

Que Deus te abençoe!

+ Meu caro – Fim da fonte (primeira parte)

+ Meu caro – Fim da estrada (segunda parte)

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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