Mentindo para a Figueira

Elaine Tavares

Por Elaine Tavares.

Escrevi esse texto no ano 2000, quando a Ângela Amin fechou a Praça XV para “limpar”, o que significava tirar dali os hippies. Hoje nossa praça tá fechada de novo, em nome da limpeza. Vai o velho, vem o novo, mas a política é a mesma, sacou? Fica aí a lembrança de um tempo triste, que insiste em não ir embora…


Não há nada que eu goste mais de fazer do que “ir ao centro”. É como um ritual mágico. Eu tomo um banho, passo perfume, batom, boto uma roupa bem legal e pego o ônibus. Enquanto ele vai trilhando seu caminho, antecipo as delícias que vou encontrar. Desço no terminal velho e compro uma pipoca. Depois passo pelo camelódromo só para sentir a confusão, gente aos borbotões, tapetes, CDs, enfeites para o cabelo, quinquilharias. Quase sempre não compro nada, só olho, com os olhos brilhantes, a vida pulsando. Então subo pela Jerônimo Coelho, dando uma paradinha na livraria da Paulus. Gosto de saber dos últimos lançamentos em filosofia e livros infantis. Entro e fico ali folheando livros, ninguém me interpela nem me obriga a comprar. Acho bom isso.

Então subo a Felipe em direção a Praça XV. A vida ilhoa se derrama nessa rua, os anarquistas vendem seus folhetos, garotos e garotas de roupas pretas e cabelos azuis. Os cantores de rua formam uma espécie de orquestra, de uma afinação inigualável no universo. Vendedores de bolas de sabão inundam as esquinas e eu perco um tempão tentando pegar as bolinhas, que vez ou outra se desmaterializam em minhas mãos e deixam um doce cheiro de infância. “Câmbio, dólar”, gritam os doleiros que abrem sorrisos diante da careta que faço.

Enfim chego à Praça com quase uma dezena de folhetos de cabelereiros ou de bruxas que veem o futuro. Guardo todos eles, afinal, posso precisar um dia. E então, minha vista se enche de lágrimas. Praça já não há. Só tapumes de uma obra que poderia ser feita aos pouquinhos, sem que para isso precisassem nos roubar a praça. Fico ali, girando feito uma barata tonta, quando um pingo vermelho mancha minha roupa.

– Mas o que é isso? , penso eu. Então olho para cima e meus olhos marejados encontram outros olhos, igualmente marejados.

– Onde eles estão? Onde o cheiro de incenso que fazia daqui uma espécie de altar? Onde o som da flauta, do violão? Onde as canções do Raul e o riso das crianças que ainda sabem brincar? Onde o som das conchinhas e vidrilhos? Onde o fazer tranquilo, sem a pressa da produção?

Era a velha figueira que me interpelava, perplexa, e era dela que escorriam as lágrimas vermelhas que manchavam meu vestido. Senti uma vontade enorme de pular a cerquinha que fizeram nela e abraçá-la, companheira da minha dor. Também eu sentia falta do incenso, do riso, da cor, que sempre fizera a vida da praça. Caminhei mais um pouco e, disfarçadamente, (porque se alguém me visse a falar com a árvore poderia julgar que eu estava maluca) abracei um de seus ramos que fugia da cerca. Fiz um carinho, pedi que não chorasse e menti, como nunca antes havia mentido para uma árvore.

Disse a ela que eles tinham saído da praça só por uns dias, que a praça ficaria bem linda, toda arrumada e que tão logo acabassem de enfeitá-la, eles voltariam e tudo seria como antes. Uma grande festa, um grande altar, espaço de vida e de alegria. Ela ainda fungou um pouco, mas acreditou em mim (Deus me perdoe) .

Jamais eu diria a ela que eles estavam em frente ao terminal urbano, totalmente deslocados, como se fossem mascates, num cenário que não lhes cabia ou no qual eles não cabiam. Terminais são lugares de pressa, de ritmo veloz. E eles são seres da paz, do tempo que não se mede pelo cronômetro. Eu não poderia contar a figueira que eles estavam infelizes e tampouco poderia dizer a ela que eles não voltariam. Que tinham sido pegos pelo “tolerância zero”. Eu também não contei que não havia mais encontrado o meu amigo que me faz sandálias há anos. Já bastava a ela aquela solidão entre obras.

Então fui para casa, coração as pedaços, sofrendo por ter mentido a uma velha amiga. E agora, olhando a mancha de sua lágrima que insiste em não sair, eu decidi escrever essa crônica. Uma espécie de reza aos “deuses” que mandam na cidade. Não deixem que a figueira saiba que tudo é mentira. Que eles voltem…que eles voltem…e que a praça seja, de novo, um altar!

20.04.00

 

Elaine Tavares é jornalista.

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