Memória e Linguagem

Publicado em: 04/08/2010 às 08:51
Memória e Linguagem

Por Emanuel Medeiros Vieira*

Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade.

Memória como instrumento de justiça e de misericórdia.

Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida.

Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento.

A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória).

Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre.

O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento.

Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão.

Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória.

A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento.

A memória  é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva.

Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade.

A linguagem  é edificada para a construção dos textos que querem eternizar nossa brevidade, a nossa finitude.

Como observa  a filósofa e historiadora, Regina Schöpke, “quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e nos dirige.”

Os filósofos e filólogos sabem disso.

Estes últimos, veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo,  mas, sobretudo, uma segunda natureza.

“Algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa”, como observa a autora citada.

Os gregos já enfrentavam a questão.

Nietzsche – que além de filósofo era também filólogo – chamava esse universo da linguagem de “duplo afastamento do real”, de “segunda metáfora”.

Porque aí os homens  lidavam com conceitos e não apenas com o mundo em si.

A linguagem pode ser instrumento de dominação, estimulando um preconceito racial, como fizeram os nazistas, alimentando o fanatismo e o preconceito, gerando um horror como raramente (ou nunca) se viu na História.

Todo sistema com ambições  totalitárias, como  detectou a pensadora, tem necessidade de produzir um discurso, uma mitologia e palavras de ordem.

O que é  a publicidade que só pensa em vender, sem nenhum compromisso ético?

É um exercício mental doloroso, mas assim  a gente pode entender como uma cultura que produziu tanta beleza com Goethe, Beethoven, Nietzsche, Hegel, Wagner e outros, tenha mergulhado, com o nazismo, na mais profunda irracionalidade, onde o Mal apareceu com toda a sua força, ou melhor, em toda a sua plenitude.

Tento meditar sobre esses assuntos, entre outras razões, porque a falta do estudo da filosofia para quem tem menos de 60 anos, criou um tremendo vácuo cultural.

Fundou-se o universo utilitário, da posse imediata. Só vale o que tem valor contábil.

Faço minha a proclamação de Michel Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”

*Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”.

Tem 20 livros publicados, é e detentor de diversos prêmios literários.

Possui mais três obras ainda inéditas.

Participou de mais de 50 antologias de contos e de poemas, no Brasil e no exterior.

Foi jornalista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros e redator de discursos parlamentares. Fundou cine-clubes e grêmios literários, e militou ativamente na política estudantil no secundário e na universidade.

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