Medíocre, por Guigo Ribeiro.

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Numa peça, dois atores entram naquela que é a penúltima cena do último espetáculo da temporada. Antes das luzes e do palco, há uma relação ruim, quase inexistente entre eles. No entanto, se faz necessário ser profissional. Seguem. Como último momento, um dos atores se posiciona e executa a cena. O outro, dentro do que entende por execução, também, todavia alterando o andamento do espetáculo e com o claro e objetivo propósito de provocar algum constrangimento ou, quem sabe, situação vexatória no outro. Então transforma o texto em algo totalmente fora do propósito, rompe com a proposta cênica e, pior, desconsidera o público. Tudo em detrimento da sua relação ruim com o outro ator. Eis a ruptura entre pessoal e profissional. Eis o atravessamento para tentativa da própria elevação, mesmo que essa consista num esforço quase infantil em transformar o outro ator em um “bobo”. Eis o espaço de expansão, transformação, de combate e resistência que é o teatro colocado numa caixa de egocentrismo e, talvez, perversidade. Eis a síntese do medíocre.

Duas “artistas” se movimentam rumo ao que conceberam como algo transformador em seus projetos de vida: a realização de um espetáculo na qual fossem protagonistas. Para tal, decidem buscar pessoas que construam um espetáculo para que elas, enfim, exercessem suas projeções. Então anunciam publicamente sua ideia de projeto, o sentido do que querem (atuar juntas) e despertam o interesse de um profissional disposto à construção da dramaturgia. Dá-se o encontro, um café e é exposta a ideia principal:

– Queremos atuar juntas! Mas não sabemos o que queremos. Na verdade… não temos nenhuma ideia.

O profissional dispõe seu tempo, escuta, anota e dedica seus dias na construção de algo que atenda ao que desejam. Lá se vão encontros, conversas, prévias e o resultado atingido com grande antecedência com a disposição sobre eventuais mudanças, alterações. Acordo feito, as “artistas” sorriem para o trabalho final e acertam valores, prazos. Dias antes do pagamento, as “artistas” desistem do trabalho, sugerem um valor simbólico por todo tempo dedicado e uma delas, em uma conversa e ao ouvir que a situação posta não está correta e representa a ruptura do combinado, tenta desqualificar a postura e trabalho do profissional. Eis que cai por terra o discurso de valoração e valorização artística, este intensamente propagada nos encontros ditos. Eis que cai por terra o discurso do valor imaterial da arte. Ao falar do justo e combinado, é possível notar o que é a palavra para o outro: algo que muda mediante vontade própria. Eis o espaço de expansão, transformação, de combate e resistência que é o teatro colocado numa caixa de egocentrismo e, talvez, perversidade. Eis a síntese do medíocre.

Discorrer sobre a dimensão do medíocre também dá-se num convite para o que representa a palavra. Por certo, é uma estrada que passa longe da técnica, primor e lattes. O medíocre não está num bêbado falando bobagem e rindo para o vento. Ou uma música mal executada. Palavras com erros ortográficos. Não. O medíocre em sua pura e profunda essência dá-se na capacidade em jogar por terra qualquer outro (ou do outro) que não renda possibilidades que adentram o que “eu quero”. O medíocre é a capacidade em explodir o outro por uma boa história. É o celular apontado num tombo num rio de merda. É o vídeo postado sobre o tombo no rio de merda. É um homem que grita com alguém que pede uma moeda para a comida, pinga ou pedra. É a incapacidade de ter o outro como individuo, logo, a coisificação de outra existência e, sobretudo, o quanto essa atende aos próprios interesses. Ou não atende. O atual presidente é medíocre, por exemplo, não por sua pouca relação com números ou profundidade em dados assuntos. Mas por ter como trunfo sua pouca relação com números ou profundidade em dados assuntos. Ele, por exemplo, é medíocre ao fazer de palanque a tortura. Ele é medíocre ao montar na violência como resolução do que entende por mal. Ele é medíocre ao eleger inimigo todo e qualquer pensamento contrário. Ele, por exemplo, é medíocre ao vestir a roupa da ignorância e desfilar com ela, implorando por fotos, likes e, junto aos seus, os do marketing, assinar um papel na qual essa roupa será comercializada.

Para que se conheça um homem medíocre, convide seu íntimo para um café. Longe dos sorrisos, das possibilidades de elevação, ascensão. Ofereça o não. Ofereça sua verdade e notará, possivelmente, o que verdadeiramente pensa. Também em sua capacidade, seu esforço descomunal em prol do que quer. Sua palavra, sua lealdade. E estabelecendo, fundamentalmente, a diferença entre o erro a o erro intencional. Óbvio, dentro da subjetividade que isso impõe.

Talvez a análise posta seja mais objetiva e verse sobre algo mais concreto: rumos. Por certo, andamos por caminhos e curvas. Tal como dosamos a velocidades e aceleramos. Quem sabe tudo isso foi só pra dizer que talvez o grande sentido na vida seja atravessá-la velejando no barco da integridade sem naufragar num mar de podridão.

Imagem: “Papa” de Francis Bacon (1990)


Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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